Lando voltou para animar a festa Jedi

Icônico personagem de 'O Império Contra-Ataca' regressa no 'Episódio XIX' da saga 'Star Wars' vitaminado a leveza desse canto do adeus à saga dos Cavaleiros Jedi

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19 de dezembro de 2019

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Rodrigo Fonseca
Existe, sim, frescor no nono – e aparentemente derradeiro – tomo da saga dos Cavaleiros Jedi. Sob a fotografia de detalhismo obsessivo de Dan Mindel, o filme foi lançado nesta quinta-feira, sob uma saraivada de antipatias acerca de sua aposta num clima de aventura folhetinesco, pautado por revisões de seu passado. Mas, nele, o “novo”, curiosamente, vem na forma de um homem de 82 anos. William December Williams Jr., ou apenas Billy Dee Williams, regressa à franquia, já octogenário, sob a capa e a malandragem de Lando Calrissian, ladino estelar famoso, em “O Império Contra-Ataca” (1980), por ludibriar seu parceiro, Han Solo. A entrada dele, em “Star Wars – Episódio XIX: A Ascensão Skywalker” tem cheiro de pertença (a um legado estético) e aroma de revisionismo histórico. O homem de moral torta da década de 1980 regressa agora como um signo de heroísmo e de valores de inclusão. Lando não é mais o vaselina que podia passar a perna nos heróis da Aliança Rebelde. Ele é parte da resistência que a Comandante Leia Organa (a saudosa Carrie Fisher) armou contra as forças das trevas, ainda lideradas pelo neto de Darth Vader, Kylo Ren (Adam Driver, impecável como de costume), e, agora, acossadas pelo Imperador Palpatine (Ian McDiarmid), que retorna após uma aparente morte, por sua Força (às avessas) como Sith. Lando é a centelha de sabedoria que vai animar os jovens combatentes reunidos em torno da aspirante a Jedi Rey (Daidy Ridley) e seu droide BB8. É ele quem vai escavar camadas existenciais em personagens recém-chegados como a amazona Jannah, papel que dá à atriz Naomi Ackie a chance de roubar várias cenas, com seu carisma singular e sua retidão de candidata a heroína. É pequena a participação de Lando, mas sempre que ele aparece carrega consigo um charme que alimenta a verve clássica de um espetáculo pop que dialoga com as narrativas dos seriados dos anos 1930 e 40 do cinemão americano. Lando entra no longa de J. J. Abrams como reminiscência da herança formal de George Lucas, hoje afastado do processo criativo da franquia que inaugurou em 1977. Os tempos são outros, os pleitos por empoderamentos estão em fervura máxima, e as lutas de afirmação racial furam as bolhas do preconceito. “Star Wars” também mudou: diluiu sua verve épica num timbre menos grandiloquente, mais afeito à fluidez e ao imediatismo das formas digitais de se narrar. Mas eis que entra Lando, derramando a manteiga da nostalgia numa pipoqueira que estoura, a óleo fervente, o coeficiente heroico de Rey e a vilania do Imperador. Não se trata de um requentar de fórmulas e clichês e, sim, uma reciclagem envernizada com a mais brilhante afetividade e pitadas de adrenalina. Como direção, o novo longa desfila as sequências de ação mais bem filmadas de SW nos anos 2010. O ritmo da ação é frenético, com tomadas de perseguição, trocas de tiro e embates de esgrima (a sabres de luz) mais enérgicas do que o costume da saga. E, eis que, em meio a um oceano de combates, Lando surge como uma centelha de familiaridade, uma lembrança de tudo o que a grife “Guerra nas Estrelas” construiu nas últimas quatro décadas. Essa construção deságua agora em “O Mandaloriano”, a série do Disney+ que transformou o Baby Yoda na personalidade ficcional do ano. É uma travessia pelo tempo – e pelo Espaço – que se firma num eterno retorno, em outras mídias, sem abrir mão do lúdico na telona.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5