Lembranças de Um Amor Eterno

Filme que se recusa a ser taxado de fantasia e se impõe como uma tragédia séria (e ao mesmo tempo ingênua) que divaga sobre a insegurança das relações.

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26 de setembro de 2016

 

Há certos diretores que vivem tentando repetir a mesma fórmula em diferentes histórias. Giuseppe Tornatore é um deles. Após o estrondoso sucesso de “Cinema Paradiso” (1988), o diretor vem tentando seguir o mesmo caminho em obras extremamente sentimentais que explodem em uma glorificante descoberta final.

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“Lembranças de um amor eterno” (La Corrispondenza no original) não foge à regra. Há uma perda irreparável e um sentimento saudosista reverberando o tempo todo ao som de Ennio Morricone remetendo ao Cinema Paradiso, só que desta vez não há mais o celulóide e sim os pixels luminosos do computador.

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Na trama, a estudante de astronomia e dublê de filmes de ação Amy (Olga Kurylenko) tem um caso com o professor de astrofísica Edward (Jeremy Irons). Ele é bem mais velho, casado e vive em outro país e a relação se resume em encontros furtivos e troca de e-mails e mensagens de vídeo. A química entre os dois é grande e Ed está sempre antecipando os desejos e pensamentos de sua amada de maneira surpreendente. Um dia, Amy descobre que Ed faleceu e quando tudo parecia desabar, os mails e correspondências continuam chegando como nada tivesse acontecido.
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Apesar de certo irrealismo, não há nada de metafísico neste filme. Ao contrário. É um melodrama onde a dor da perda é substituída por uma esperança intangível e onde os personagens são obrigados a conviver com a inexorabilidade da existência humana. O roteiro (assinado pelo diretor) faz um belo paralelo com o colapso das estrelas que após sua morte ainda irradiam brilho e calor por bilhões de anos, condição semelhante à Amy e Ed.

Tornatore apresenta um elegante retrato imagético posicionando sua câmera em angulações simétricas (em uma espetacular sequência de abertura no corredor de um hotel) e constrói seus personagens sem pressa dando espaço para que o espectador avalie as dimensões transcendentais desta trama amorosa, mas a obsessão em perseguir a mesma magia melancólica quase põe tudo a perder em um filme que se recusa a ser taxado de fantasia e se impõe como uma tragédia séria (e ao mesmo tempo ingênua) que divaga sobre a insegurança das relações.
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Lembranças de um amor eterno (La Corrispondenza)

Itália, 2016. 116 min.

Direção: Giuseppe Tornatore

Com: Jeremy Irons, Olga Kurylenko, Shauna Macdonald, Simon Johns, James Warren

Avaliação Zeca Seabra

Nota 3