Lembro Mais dos Corvos

Filme-Atriz

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27 de janeiro de 2018

Por falar recentemente em toda a polêmica de ‘lugar de fala’ e os vários entendimentos que as pessoas costumam seguir sobre o assunto, é bastante exemplificativo se deparar com “Lembro mais dos Corvos”, penúltimo filme inédito a estrear na competição da Mostra Aurora da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, dirigido por Gustavo Vinagre e com roteiro assinado pelo próprio e por sua protagonista Júlia Katharine, que já trabalhou com ele anteriormente. Isto porque o filme é creditado como um documentário, e se passa todo dentro do apartamento da corroteirista, com ângulos fechados sobre ela, que se expõe e se abre psicologicamente de formas bastante poderosas que não deixam de possuir sua vulnerabilidade, num limiar tênue entre o consentimento e a força de atração irresistível que uma câmera ligada pode exercer; quase como um confessionário. E isso permite e potencializa histórias de extrema intimidade a que talvez não se desse conta, posteriormente, de o quão reveladoras poderiam ser para um público maior que o cinema possa alcançar.

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Porém, ao mesmo tempo, se a própria atriz que também é corroteirista assina e consente com a forma de ser retratada, como o crítico que apenas recepciona a obra poderia ter lugar de fala para escrever sobre a mesma? Até mesmo porque este crítico não está atravessado pelas questões trans permeada no filme, podendo apenas ter empatia e estar aberto a interpretações sobre o que será trabalhado na tela com a sensibilidade de quem tenta se colocar no lugar do outro, mas nunca poderá sentir a mesma coisa. Eis que a bússola se perde, e não se pode usar a tábula de referências tradicionais que não necessariamente poderiam se encaixar aqui. É como se apagassem todos os interruptores e o crítico tivesse de ingressar na sala em meio ao breu, sem enxergar nada, apenas tateando com seus sentidos mais primais. E, por isso mesmo, solicita-se vênia, com todo o respeito, para poder se encontrar de volta neste caminho de sétima arte.

Pois a primeira coisa que se pode tatear, evidentemente, é que Júlia Katharine é magneticamente uma força atrativa de gigantescas proporções. Não há um momento em tela entediante seguindo o carisma da personagem que ela constrói com o texto e subtexto da ordem com que decide contar suas histórias pessoais de vida. Mas aí nos deparamos com outro dilema: sim, Júlia é atriz na vida real, e ali teoricamente estaria interpretando a si mesma, pois está contando intimidades que só podem pertencer a ela mesma, então, isso acarretaria que não pudéssemos avaliar a performance dela em cena como avaliaríamos a de uma atriz numa ficção? Estaria ela sendo apenas ela mesma e isto se bastaria como norte de uma interpretação cinematográfica? Há bem da verdade, todos nos utilizamos de performances para existir no mundo social, vide termos de acordar todos os dias de manhã, tomarmos banho e nos trocarmos com vestes próprias de trabalho para poder nos encaixar em códigos diferenciados: o profissional, o social, o lazer etc… E isto se amplia ainda mais quando se trata de uma pessoa trans, que nasceu sem identificação com o corpo biológico nato como é posto, precisando passar por uma série de performatividades no que se é tido como padrão social para alcançar o gênero (na chave da não binariedade) com que se sente natural. Ou seja, a chave da performance é crucial para alcançar o real. — inclusive nas próprias palavras do cineasta René Guerra, que esteve presente na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes para debater sobre seu filme “Vaca Profana” que encerra uma trilogia em que pôde estudar de perto travestis e pessoas trans.

(para quem quiser o link com cobertura do debate de René referido acima clique aqui )

Portanto, se esta performatividade em termos de um padrão imposto pela sociedade aproxima a atriz ainda mais de sua realidade e de seu natural, podemos estar falando aqui da análise de uma interpretação mesmo dentro do gênero documental, pois há de se construir uma encenação performática em cima dos diálogos traçados 100% sobre você por toda a duração do filme, ainda mais em um roteiro coescrito pela própria. E a atriz possui uma bagagem já premiada em seus papéis pretéritos para angariar tal experiência de expressão, incluindo prêmio por sua atuação em “Os Cuidados que se têm com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos” e com o mais recente e ótimo “Filme-Catástrofe”, ambos também dirigidos por Gustavo Vinagre. Ou seja, há uma relação de confiança mútua nos dois para tentarem embarcar neste confessionário que se expõe no filme.

Há inúmeros momentos em que Julia relata para Gustavo que não está se sentindo totalmente confortável com o jogo de cena proposto, talvez por Gustavo estar menos ali como o amigo de sempre e menos falante, muito mais observador, o que se torna mais invasivo e problemático para escutar a amiga se abrir pelos mesmos traumas que ela falaria normalmente fora da câmera filmando. Mas também há uma chave no comportamento de Julia que parece emanar uma linha tênue entre a verdade e a pantomima atuada ou ensaiada, como na parte em que primeiramente fala do quimono caro que comprou e o veste para mostrar como fica com ele; para depois revelar que o quimono foi uma proposta da produção e que não se sentiu tão à vontade com ele, por ser de origem oriental e se sentir um pouco exotificada. Estas são questões válidas sobre a ética do filme que não são fáceis de resolver, até porque a complexidade inerente a elas é que está fazendo o cinema se pensar para além do umbigo e tentar ser mais paritário. E mesmo o diretor coloca perguntas para Julia às vezes e principalmente no final sobre o quanto ela se sente confortável ou não com algumas decisões durante as filmagens, e também pelo fato de que chega a perguntar se ela gostaria que ele retirasse alguma parte e Julia responde que não precisaria retirar nada. Ou seja, qual é o ponto em que o limite desta relação de confiança poderia se tornar enevoada a ponto de não ser mais fácil dizer até onde vai o limite da performance e o do consentimento real…? O quanto há ali o desejo e o sonho de amor ao cinema como cura de vida por parte de ambos (mas especialmente de Julia, que fala no filme que almeja se tornar diretora também, ao mesmo tempo que aquiesce entender o quanto a inserção de pessoas trans em funções do audiovisual ainda sofre bastante resistência injusta e discriminatória), e que pode ser um desejo irresistível e igualmente traiçoeiro?

O fato é que Julia expõe temas duros e pesados da sociedade, como ter sofrido uma série de abusos na vida que lhe deixaram marcas profundas, e ao mesmo tempo ajudaram a formar quem ela é hoje. E o fato de a atriz ser uma excelente intérprete que revela por vezes o quanto pode estar encenando ou não sobre os incômodos na frente da tela, decerto, levaria a certas confusões interessantes de interpretação, talvez intencionais por parte do filme como um filme. O quanto tudo ali estaria mais para um filme e menos para um documentário e nós nos entregamos ao magnetismo sem precisar saber a fronteira? Afinal, Julia é engraçada, envolvente e sabe dominar seu público.

Há em certos momentos, inclusive, algumas risadas de público em momentos indevidos, como em algumas revelações muito tristes para ela que, pelo carisma com que ela as conta, e por haver treinado o espectador assim como ela mesma a rir e se sentir bem consigo própria, pode haver uma mistura de sentimentos da plateia não muito emparelhada com a vivência dos assuntos tratados, como os de abuso. — ainda que possa igualmente servir de exemplo para tantas pessoas mais assistindo ao filme poderem seguir um exemplo positivo e se defender na vida real com o aprendizado de Julia. E talvez esta seja uma responsabilidade por parte do diretor de tomar maior ingerência de não apenas fazer o que sua protagonista/corroteirista quisesse, e sim um pouco do que a consciência coletiva de ambos precisasse para se colocar no futuro em relação às consequências do que um filmou e a outra se permitiu filmar — até porque aparentemente eles gravaram uma madrugada inteira de conversas que se tornaram por volta de 80 minutos de filme, cabendo muito desta subjetividade ao montador que pode ter recebido também indicações da própria Julia para o resultado final (e, se fosse o caso de ter recebido tais indicações, se talvez a função de direção também não pudesse ter sido compartilhada para ocupar o lugar completo de coautoria). Ainda assim, o mérito da fotografia intimista e permeada de sororidade por parte da fotógrafa Cris Lyra, e, claro, mérito ainda maior e subjetivo da atriz Julia Katharine, que é inegável e deve ser parabenizado Ela conseguiu envolver o espectador a chegar até aqui e ter aceitado germinar em seu subconsciente o quanto se deixou levar ou não por esta pantomima aparentemente (espera-se) bastante consciente, num libelo de resistência contra o conservadorismo e repressão política atual.

Vale ressaltar as belíssimas cenas finais de subjetividades por parte de Julia quando ela toca uma caixinha de música com seu ‘passarinho do amor’ (‘lovebird’) — com uma excelente metáfora de que ela não tem como saber o gênero do seu pássaro, mas acredita no que a pessoa que lhe vendeu falou sobre a determinação do gênero dele — e a cena da janela com o nascer do sol.

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