Leviatã

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15 de janeiro de 2015

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Apesar de que o liricamente denso indicado polonês “Ida” fosse o franco favorito ao Oscar 2015 de filme em língua estrangeira, a vitória também merecida do russo “Leviatã” (“Leviafan”, no original, de Andrey Zvyagintsev) surpreendeu algumas pessoas na última cerimônia do Globo de Ouro, 11 de janeiro. Isto, por um lado, se deve ao fato de “Ida” ter sido o filme estrangeiro de maior bilheteria e aceitação nos EUA em 2014, e, por outro lado, porque “Leviatã” não é uma película de fácil digestão. Há ali um filme dentro do outro em vários quesitos muito bem orquestrados. Há um thriller político parodiado dentro da sociedade russa pela corrupção e hierarquias estagnadas de poder, ao mesmo tempo que há um intenso drama, uma tragédia familiar de como as pessoas podem ser afetadas em seu cerne por razões antropológico-sociais de muito antes de até seus pais terem nascido. Parece que está a se falar da sociedade de castas indiana, ou das roubalheiras do Congresso brasileiro. Mas ao menos na Índia a injustiça e disparidade não são veladas, são assumidas, e no Brasil todas as CPIs acabam em carnaval, fazendo estes dois povos mencionados saberem encontrar felicidade nos piores momentos. O que não é o caso da cultura Russa, fazendo de “Leviatã” uma espécie em extinção de valor ímpar.

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Seguindo a história de Kolia (numa firme atuação de Aleksey Serebryakov), acompanhamos a luta de um trabalhador honesto e comum a enfrentar seu prefeito que quer tomar sua casa e terras ao redor visando puramente o lucro, e não o benefício do povo. Kolia é ajudado pelo melhor amigo que é advogado, mas será que sob a ameaça quase mafiosa de uma espécie de Poderoso Chefão patético da cidade não irão ter suas chances esmagadas? Como peões principais no tabuleiro, os riscos aumentam quando entra em jogo a família de Kolia, que tem tudo a perder, aludindo em termos de reviravoltas até a “Garota Exemplar” de David Fincher, e sendo o filho a única possível redenção de futuro. Cenas tensas e ao mesmo tempo hilárias como quando o político pavoneando seu poder vai até a casa deles completamente bêbado (inspirado no notório ex-presidente russo Boris Yeltsin), e é confrontado também por um alcoolizado Kolia, demonstram bem a desesperança inevitável. Para se entender isto, há de se olhar a tradição histórica russa, desde uma das nações mais geladas, cujo trabalho, comida e lar mesmo em condições de pobreza são cruciais para não se morrer de frio, aos seus romancistas pessimistas como Dostoiévski, e escritores e políticos revolucionários como Marx de um lado e Stalin de outro, representantes respectivamente da dicotomia socialismo puro X ditadura comunista… Os contos russos costumam ser de sobremaneira trágicos, a refletir uma realidade cansada e viciada, cuja política social usava do grande número populacional para fomenter crescimento industrial, mas não distribuição de riquezas.

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Por isso, quando um filme com a força de “Leviatã” vem rir de suas próprias idiossincrasias, balanceando um inusitado humor negro e thriller político, tensão com drama, tragédia e romance… há de se convir que o olhar da própria Rússia evoluiu muito sobre si mesma, não mais tão atada ao veto de liberdade de expressão, porém mais importante ainda, fabricando arte irreverente a partir de sua dor. Com inúmeras analogias e metáforas, como o horizonte predominante de azul e cinza, do mar e ondas estouradas da realidade pesqueira de regiões costeiras ainda mais arcaicas, de carcaças de barcos, baleias e casas demonstrando o abandono estrutural dos governantes à região… sobressai-se do esmagado âmbito pessoal e escalona-se a valores universais. Poderia até ser acusado de maniqueísmo, mas é por isso mesmo que seu anti-herói autodestrutivo também se distancie de ser nobre ou louvável, e a real vontade das demais personagens está sempre velada, ficando até o fim a dúvida proposital de qual foi o destino de algumas delas… Será que algumas não quiseram simplesmente desaparecer frente a tal desesperança? Ou teriam sido afogadas pela injustiça? Não à toa recebeu o prêmio de melhor roteiro no concorridíssimo Festival de Cannes no ano passado.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5