‘Life’ é um delicado 3×4 da amizade

Cria do videoclipe, Anton Corbijn amplifica o som e a fúria de sua estética ao narrar a amizade entre o galã James Dean e o fotógrafo Dennis Stock num filme sobre dor, desamparo e imagem

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27 de julho de 2016

Robert-Pattinson-Set-Life-Pictures-848x500.jpg Life

Canções como Strangelove, Never Let Me Down Again e Enjoy The Silence, que imortalizaram toda a androginia da banda Depeche Mode nos anos 1980 e 90, encontraram no olhar do cineasta e clipeiro holandês Anton Corbjin a sua mais fina tradução audiovisual, em forma de curtas-metragens publicitários (videoclipes) imbuídos de uma sanha provocativa relacionada ao desejo, à repressão e ao misticismo. Todos esses elementos estão impressos nos filmes de longa metragem que Corbijn começou a realizar a partir de 2007, quando Control, sobre seu ídolo musical,  o cantor Ian Curtis (1956-1980), virou uma sensação no Festival de Cannes daquele ano. Mas nunca o seu coquetel dark glam alcançou tanta potência quanto em Life: Um Retrato de James Dean, espécie de exumação (em vida virtual) do cadáver do ídolo cinematográfico endeusado pelo sucesso de Juventude Transviada (1955). E nunca a lupa afetiva do realizador rendeu imagens de tanta elegância.

Apesar de o título sugerir um exercício de autobiografia, Life não é um filme sobre Dean e sim “com” Dean, usando-o como personagem de uma trama sobre a colisão estética de dois artistas em conflito acerca de suas crenças sobre o mundo e sobre a Imagem. Estamos diante de um James Dean ainda em ascensão, antes do estouro de Vidas Amargas (1955), cuja persona magnética é encarada como um diamante bruto pelo fotógrafo Dennis Stock. É ele o protagonista deste filme, não apenas por ser a figura narrativa que sofrerá uma jornada interna de transformação, mas por ganhar do (subestimado) ator Robert Pattinson uma força interna e uma tridimensionalidade sentimental capaz de humanizá-lo até o fio de cabelo. Dean foi confiado ao prodígio Dane DeHaan, que atua corretamente, mas vai pelas margens do perfil conhecido do astro, ou seja, aproveita todos os lugares comuns ditos sobre Dean: faz cara de blasé, tem um jeitão desamparado de “maior abandonado”, faz tiques infantis…

Toda a trama se estabelece com base nos rituais de acasalamento de um bromance, isto é de uma amizade quase passional entre dois homens encasulados em padrões quase caricaturais de representação. De um lado está o ator-problema e do outro está o fotógrafo-encrenca. Mas ao longo de um processo jornalístico de construção de perfil a partir de um ensaio fotográfico, eles rompem, aos nossos olhos, as fronteiras de tipificação às quais foram limitados – mais Stock do que Dean. Ao relatar o trânsito dos dois de Los Angeles até Nova York e Indiana, Life faz jus ao seu título e deixa a vida ser o foco, acompanhando dois estranhos tornarem-se amigos. Mas, como é Corbijn quem dirige, todas as insinuações homoafetivas e todas as ambiguidades são válidas e permitidas. Ali não é o Dean mítico. É um James Dean andarilho, além de seu devir-ator.

Mas além desse flerte com as dubiedades, é nos enquadramentos que Life deixa a autoralidade de Corbijn aflorar forma adentro, amplificando a força visual deste cineasta interessado em figuras cheias de mistério. Ele evolui aqui não só visualmente, mas também como um potente diretor de atores, como se vê na maneira como despe Pattinson de todos os seus cacoetes prévios de galã-vampiro (em A Saga Crepúsculo) ou mesmo de ator-fetiche de Cronenberg (em Cosmópolis e no vetusto Mapas para as Estrelas). Aqui vemos Pattinson em estado de graça, galgando novas e mais arriscadas formas de atuar.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 3