Little Boy – Além do Impossível

Filme escorrega em alguns aspectos, mas cumpre o objetivo principal de emocionar

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11 de março de 2016

Muitos filmes utilizam a amizade entre uma criança e um adulto como forma de amadurecimento do personagem infantil, como, por exemplo, “Lembranças de um Verão”, “Cinema Paradiso” e “Central do Brasil”. Este é o mesmo caso de “Little Boy – Além do Impossível”, segundo longa-metragem do mexicano Alejandro Monteverde. O pequeno Pepper Busbee (Jakob Salvati) inicia uma amizade com o imigrante japonês Hashimoto (Cary-Hiroyuki Tagawa). O que começou apenas como uma obrigação imposta por padre Oliver (Tom Wilkinson) a Pepper para completar a lista ancestral e aumentar a sua fé a fim de trazer seu pai de volta da frente de batalha, se transformou numa verdadeira amizade que veio denunciar o enorme preconceito dos habitantes da cidadezinha do interior dos Estados Unidos contra os japonseses durante a Segunda Guerra Mundial. O tema poderia ter sido explorado mais a fundo, mas esta não foi a intenção de Monteverde e Pepe Portillo ao escreverem o roteiro de “Little Boy” (no original).

O filme conta a história de Pepper, um garotinho com uma estatura abaixo do normal que sofre bullying diário de todas as crianças da pequena cidade onde vive e acaba apelidado de Little Boy. Quando seu pai James (Michael Rapaport) é convocado para servir na guerra, Pepper fica completamente desolado, já que perderá seu melhor e único amigo. Após ouvir do padre Oliver que “a fé move montanhas”, o menino decide, então, aumentar a sua fé para trazer de volta a qualquer custo o seu grande companheiro de aventuras. Começa aí a maior jornada da vida de Little Boy, que o levará a crer que possui poderes especiais, mas também o ensinará muitas lições, como a já descrita no parágrafo acima. A inocência de Pepper diante da difícil situação apresentada é cativante e por vezes divertida, principalmente pela excelente atuação de Jakob Salvati e seus olhinhos de cão abandonado, e lembra longas como “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” e “O Pequeno Nicolau”, que também possuem a mesma aura inocente infantil. O ponto alto dos pensamentos de Pepper estão na forma de uma semente de mostarda que pode mover montanhas e na comparação de trechos da Bíblia citados pelo padre com momentos das revistas em quadrinhos de seu herói favorito Ben Eagle, interpretado por Ben Chaplin.

Se o maior crédito de “Little Boy – Além do Impossível” encontra-se nos fatos de o longa não tentar doutrinar religiosamente o público – já que prega que a fé não precisa ser somente religiosa, mas pode também ser em si mesmo – e de nunca fugir ao tema principal da obra, que é a forte ligação entre pai e filho (e nisto podemos compará-la a “Interestelar”), seu Calcanhar de Aquiles está em sua falta de objetividade – há mistura de vários temas e subgêneros sem aprofundamento de nenhum. Monteverde quis explorar tanta coisa que acabou se perdendo: seu filme é uma amálgama de melodrama de guerra, feel good movie, superação, xenofobia, bullying e amizade entre adultos e crianças. Outro ponto fraco é o mal aproveitamento de alguns personagens, como o irmão e a mãe de Pepper, London (David Henrie) e Emma (Emily Watson), o Dr. Fox (Kevin James) e o próprio padre Oliver (Wilkinson), que some depois de entregar a lista ao protagonista e reaparece de repente na história. O desfecho da trama é outra coisa que incomoda, pois vem numa embalagem padronizada claramente feita para emocionar e fazer os mais sensíveis se debulharem em lágrimas. Apesar de todos os problemas, “Little Boy” não deixa de ser um filme comovente e que deve conquistar o grande público.

Little Boy – Além do Impossível (Little Boy)

EUA / México – 2016. 100 minutos.

Direção: Alejandro Monteverde

Com: Jakob Salvati, Emily Watson, David Henrie, Michael Rapaport , Cary-Hiroyuki Tagawa, Kevin James, Tom Wilkinson e Ben Chaplin.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3