Lobo e Ovelha

Erotismo nos contos de fadas como metáfora da descoberta sexual no Afeganistão

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26 de outubro de 2016

Há certo erotismo velado nos contos de fadas para crianças que a vida só no revela quando crescemos, como um rito de passagem entre a fantasia infantil e a adulta. Em “Lobo e Ovelha”, vencedor do Art Cinema na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, a diretora Shahrbanoo Sadat, iraniana naturalizada afegã, aproveita um conto típico da região das montanhas onde filma análogo ao da Chapeuzinho Vermelho. A história fala de um lobo perigoso que, quando tira seu casaco de peles, revela uma fada verde nua por sob sua couraça, e apaixonar-se por ela é correr o risco de ser comido por ele… Assim como em Chapeuzinho, pois no clássico dos Irmãos Grimm existe um subtexto dos perigos da vida adulta em arriscar caminhos próprios, longe de casa, e ser devorada por criaturas da noite que não são confiáveis como nossos familiares um dia pareciam durante a infância…

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Interessante a intersecção com uma fábula, pois o predomínio narrativo é o naturalismo, às vezes até confundido com documental, visto que a diretora alcança grandes resultados extraindo perfomances de não-atores, especialmente as crianças que são o foco aqui. A história se passa nas montanhas isoladas do Afeganistão, apesar de ter sido todo filmado numa geografia similar na fronteira do Tajiquistão, tendo precisado levar toda a equipe de filmagem e elenco para lá, em um período que nem estavam emitindo vistos em meio aos conflitos internos com o Afeganistão. Por isso seria extremamente reducionista apenas dizer que o filme parece quase documental, como se a diretora houvesse apenas ligado a câmera e filmado seu entorno real. Neste sentido seu trabalho se aproxima muito ao de Samira Makhmalbaf, que continua fazendo crônicas ao Irã mesmo impedida de filmar em seu próprio país, e em geral realizando suas obras coincidentemente no Afeganistão, por considerar as duas culturas muito próximas.

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Há aqui também o extremo cuidado com a direção de atores mirins, mesmo sendo crianças inexperientes,mas resultando em emoções reais. E mais, a diretora Shahrbanoo Sadat não deixa a fábula contada na história sequestrar a realidade com subjetivismos abstratos, apesar de surpreender o espectador uma ou outra vez com as imagens da fada nua e do lobo humanóide em meio à sensação quase documental, quebrando as expectativas imagéticas de propósito. Ela até poderia ter desenvolvido melhor o interessante conto, mas quem rouba a cena são as crianças. Após o início mostrando um adulto morrer de câncer e a fotografia traçar as lindas fronteiras montanhosas e isoladas, é a vez de dar os enquadramentos às crianças, que, nesta cultura estrangeira que iremos conhecer durante a projeção, agem como adultos e fazem o trabalho deles, cuidando das ovelhas e bodes contra o ataque dos lobos. As brincadeiras maritais entre as crianças são ao mesmo tempo hilárias e desconcertantes, pois a realidade de muitas delas são casamentos arranjados até com menos de 10 anos de idade e poligamia por parte do marido. Dura realidade não amenizada pela cineasta promissora que filmou com apenas 20 anos de idade e com ajuda de financiamento de um programa de Fundação cinematográfica de Cannes.

Mostra de São Paulo 2016

Lobo e Ovelha (Wolf and Sheep)

Dinamarca /França / Afeganistão, 2016. 86 min

De Shahrbanoo Sadat

Com Sediqa Rasuli, Qodratollah Qadiri, Amina Musavi

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4