Logan Lucky

Soderbergh Sazonal

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09 de outubro de 2017

Steven Soderbergh está parecendo um disco arranhado. A cada filme promete que vai ser o último. Que vai “se aposentar” rs. Como se fosse verdade. Está virando moda agora. Depois do sucesso chiclete-pop “Magic Mike” e sua sequência, Soderbergh parecia distante dos sucessos mais sóbrios e de grandes pretensões de sua carreira, como os excelentes “Traffic” e “Erin Brockovich”, ou blockbusters assumidos como “Onze Homens e Um Segredo”, e mesmo seus premiados filmes independentes como “Sexo, Drogas e Videotape” ou “Bubble”.

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Bem, parece que Soderbergh pegou o que já havia feito em “Onze Homens e Um Segredo” e fez um novo filme sobre assaltos e grandes golpes à la Robin Hood, mas desta vez mirando sua crítica no americano médio do interior em suas idiossincrasias contra o sistema opressor. Além disso, acrescentou pitadas sarcásticas dos irmãos Coen em suas comédias parodiando a a diferença de classes e a cultura regional que geralmente não se vê nas telas em grandes produções. E, claro, como de praxe com o diretor descolado e querido que ele é no meio, angariou um elenco cheio de estrelas da constelação Hollywood, como o colaborador já habitué Channing Tatum, o novo prodígio da atuação indie Adam Driver e o eterno James Bond 007 Daniel Craig, caracterizado com uma descoloração platinada nos cabelos em meio a inúmeras tatuagens de modo a que sua mera presença já se torna engraçada e destaque subversivo.

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O problema na verdade é com a condução da trama, que não alcança um estado de graça entre a comédia caricatural e o sarcasmo ácido que os irmãos Coen parecem encontrar tão naturalmente. Soderbergh sabe usar a máquina do sistema para fazer denúncias sociais, como já o fez em quase todos os filmes citados no primeiro parágrafo. Mas aqui parece querer privilegiar sua faceta ultra pop mais descambada para os lados de “Magic Mike”, desde que começou a se divertir com o direito de fazer produções leves entre algumas pesadas, cada vez mais escassas. Quase como se ao ocuparo cargo de diretor ele também estivesse atuando, e a escolha de papéis farsescos fosse equivalente a o quanto ele pode testar o limite elástico da gama dos roteiros a serem trazidos à tona, como se trocasse de máscaras gregas, entre tragédia e comédia ou tudo junto.

A questão é que a falta de finesse faz com que o gancho para o desenvolvimento narrativo seja em cima da expectativa de humor com a próxima reviravolta do grande assalto planejado pelos irmãos Logan (Tatum, Driver e a irmã interpretada por Riley Keough). E, como o filme brinca com o título aludindo à palavra sorte (lucky), mas os protagonistas se acham amaldiçoados, a expectativa a cada desdobramento é a de que tudo vai dar absolutamente errado. O suspense é substituído por adrenalina imediata e, mais uma vez, os risos. Não, não que o filme seja muito engraçado, mas ele a todo tempo tenta ser, e isto atrapalha a interação com a trama. E, de certa forma, também subutiliza o elenco grandioso, ligeiramente reduzidos a arquétipos planejados para o momento em que suas frases de efeito possam brilhar.

Não que isso deixe de gerar boas químicas entre alguns destes personagens, principalmente no que tangencia a excelente Riley Keough (que já havia se revelado em “American Honey”), que engrandece os papéis de inúmeros coadjuvantes, como o de Daniel Craig e mesmo o do irmão na pele de um bem aproveitado Channing Tatum. Outros coadjuvantes simplesmente somem, como Katie Holmes (eterna “Dawson’s Creek”), mas ao mesmo tempo abrem espaço para participações especialíssimas como de Hilary Swank (“Meninos não choram”) e Katherine Waterston (“Vício Inerente”). Ressalta-se que, mesmo que o pacote total seja um entretenimento passageiro, duas cenas conseguem capturar a magia do cinema e valem a conferida: a cena do motim na prisão parodiando “Game of Thrones”; e a belíssima cena no show de talentos da filha de Tatum quando tocam “Country Road” de John Denver. Eis alguns trechos de emoção genuína que demonstram o gigante por trás de uma obra assumidamente despretensiosa. Mas atenção: é bem capaz de chegar forte até as indicações ao Globo de Ouro de melhor comédia…mas quanto ao Oscar eu não apostaria minhas fichas.