Logan

Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Logan (Mas a Censura lhe dava Medo de Perguntar)

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02 de março de 2017

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Engraçado, em um período como este, de várias premiações culminando no Oscar, lembremos do provável maior erro da década da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em não ter reconhecido em 2016 o filme “Mad Max: Estrada da Fúria” como o melhor do ano. Diferente do Oscar, a maioria das Instituições de Cinema e Associações de Críticos, inclusive a FIPRESCI e a ACCRJ, das quais faço parte, reconheceram suas inegáveis qualidades artísticas para além do potencial comercial, que criavam um novo paradigma estilístico-conceitual. E não estou mencionando esta obra-prima com qualquer pretensão equiparativa para reduzir de forma alguma o novo filme “Logan” dirigido por James Mangold.

Esta é a terceira e supostamente última história solo com o ator Hugh Jackman interpretando o famoso personagem Wolverine dos X-men. Mas sim, decerto, até mesmo “Logan” referencia a coqueluche Mad Maxiana, como muitos filmes recentes, com uma selvagem perseguição de carros, motos e até trem levantando poeira no deserto, cheio de gente esquisita. Mas uma coisa é fato: independente das obras citadas acima serem baseadas em outros materiais originais, ambas funcionam à parte e de forma autônoma como filmes de gênero, flertando fortemente com uma reinvenção do faroeste no sci-fi. Especialmente se encararmos como Filmes com F maiúsculo, levando à máxima potência ser uma “experiência” de cinema em tela grande.

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A verdade é que a inovação trazida para o gênero faroeste que outrora versava sobre comboios de caubóis e o genocídio do povo indígena, para metaforizar sobre o desbravamento de novas terras à custa de sangue e culpa, agora é trazida com muita garra para novos tempos até mesmo no universo mutante dos X-men. E não apenas pela citação explícita a “Os Brutos Também Amam”, com um diálogo soberbo de Alan Ladd reproduzido ao final sobre o mundo precisar da guerra para alcançar a paz. Ao invés dos índios, aqui o povo dizimado são os próprios mutantes, numa inversão de ótica e protagonismos. Os poucos que sobraram estão esquecidos e obsoletos, como já ocorreu em algumas sagas das HQs como “Dias de Um Futuro Esquecido”, “Massacre de Mutantes” e “Programa de Extermínio”, o que só realça o tom crítico que os heróis sempre tiveram em suas páginas desde sua criação pós 2ª Guerra Mundial, contra o preconceito e a discriminação.

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A trama se passa num futuro distópico no ano de 2029, bem distante da ambientação dos filmes anteriores do Wolverine ou dos X-men, algo feito intencionalmente pelo diretor para não colidir com linhas temporais abordadas anteriormente e para existir de forma isolada. Nesta realidade, a narrativa trata o que teria acontecido como um mistério, que só vai ser melhor explicado um pouco depois na trama, porém de forma alguma tomando primeiro plano ou atrapalhando a “experiência”, pois nem se conecta necessariamente com nenhuma saga específica (levemente inspirada nas HQs “Velho Logan”). Os fãs podem encaixar a que achar mais adequada para preencher as lacunas intencionais, quase como um prêmio cata-piolho ou easter egg, indiferente ao público leigo que acompanha a ação principal sem prejuízo do conjunto da história.

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Já que nesta ambientação desoladora não há mais nenhum nascimento mutante registrado em anos (aludindo à saga das HQs “Dinastia M”), o ponto de partida é quando uma desesperada mãe vem pedir ajuda ao personagem que dá título ao filme, “Logan”, e que abandonou sua alcunha heroica de Wolverine para trabalhar à paisana como motorista alcóolatra de limusine para gente rica. Esta pegada inicial, antes de ingressar propriamente no faroeste assumido, traz forte influência do gênero cinematográfico “neon noir”, exemplificado no trabalho do cineasta Nicolas Winding Refn de “Drive”, referenciando uma trama detetivesca obscura à meia luz de neon, a envolver maior violência gráfica e decadência moral.

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E tais elementos vão ser importantes na construção dos personagens, pois precisamos entender a decadência moral e a violência contra si que um Logan desacreditado comete, sem se preocupar com ninguém, algo geralmente melhor explorado até hoje unicamente nos quadrinhos. Provavelmente tudo isto é efeito do aumento na idade de censura do filme desde que o teste da FOX Filmes com o exemplar anterior do universo dos “X-men”, “Deadpool”, deu certo. Passando o limite para 16 anos, permitiu-se sangue como jamais visto oficialmente num filme de super-herói, ou mesmo temas mais pesados e um humor sarcástico e carrancudo, o que faz jus ao material original do personagem para alegria dos fãs.

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É neste cenário que entra a única outra figura conhecida dos fãs no elenco, o professor Xavier, que volta a ser interpretado em sua versão mais velha pelo ator shakespeariano Patrick Stewart (também conhecido por seu outro personagem imortal, Capitão Jean-Luc Picard de “Star Trek”), enfim com liberdade total para transformar sua participação em uma catarse absoluta à la Édipo Rei numa grande família distorcida. Juntos, o decadente Logan e um moribundo Xavier, cuja mente mais poderosa do mundo está doente e pode virar uma bomba-relógio psíquica a qualquer instante (aludindo à saga das HQs “Massacre”), precisam ajudar uma menininha deixada pela mãe que contratou seus serviços e que é muito mais do que aparenta ser (inspirada na personagem das HQs Laura/X-23, já que Logan sempre é associado a alguma personagem infante para resgatar a inocência do personagem, como Lince Negra, Vampira, Jubileu etc).

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Enfim o filme mergulha no mais desconcertante e sangrento faroeste. E seus protagonistas reconhecem (ou não) estar com a alma tão suja quanto a areia que gruda em seus sapatos no deserto. Enquanto os protagonistas correm contra o tempo com a garota sob seus cuidados, interpretada pela descoberta mirim Dafne Keen de forma ora contida e silenciosa e noutras de modo primal e surpreendente, são caçados por uma empresa (aludindo aos Carniceiros e Donald Pierce das HQs) que fazia experimentos atrozes com crianças para o governo, ampliando não apenas a crítica social como a razão diegética da violência do filme. Mesmo as crianças estão envolvidas numa estética ousada e brutal como uma crônica aos novos tempos, que exige amadurecimento precoce desde jovem perante as transformações do mundo e as guerras na TV, manipulando um público que é produto para megacorporações, e usando-o como ferramentas numa máquina que discrimina quem não se encaixa, construindo vários ‘muros’ sociais. Para este filme chegar aos EUA neste determinado momento de uma administração pública se assumindo mais conservadora com autoprotecionismo segregador, a linguagem cinematográfica na tela se torna ainda mais possante politicamente.

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Está muito distante a linha fronteiriça clara entre mocinhos e bandidos de “No Tempo das Diligências”, aproximando bem mais a persona encarnada por Hugh Jackman da mise-en-scène de um John Wayne derrotado e relutante em ajudar de “Bravura Indômita”, filme que concedeu ao mito dos faroestes seu único Oscar como ator pela desconstrução do ícone que ajudou a erigir. Por outro lado, mesmo assumindo o nome de Logan, o descrente protagonista está longe de seu saudoso manto heroico e se aproxima também da ambiguidade moral do pistoleiro sem nome eternizado por Clint Eastwood na trilogia dos dólares. De uma forma ou de outra, a estética arenosa e seca faz jus a uma direção de arte primorosa e limítrofe entre o bem e o mal na consciência por sobrevivência de cada personagem. Exemplo disso é o primeiro cenário desértico mais emblemático, onde Wolverine cuidava de Xavier com ajuda de um único outro coadjuvante mutante, Caliban (Stephen Merchant, um pouco caricatural em excesso), personagem das HQs que já foi usado para caçar mutantes e deseja se redimir. Ou a inesquecível cena do hotel em Las Vegas mostrando em câmera lenta os excessos em letreiros de neon e caça-níqueis a que uma terra sem lei leva. Mesmo quando as locações à beira da estrada mudam drasticamente, junto com o ritmo narrativo que se aproxima mais de um road movie (filme de estrada), acrescentam-se personagens interessantes e uma estética calorosa, numa fazenda cercada de plantações, para quebrar a fôrma cromática até então usada e flertar com a esperança uma última vez.

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Muitas surpresas esperam o espectador, até porque com censura de 16 anos e violência aumentada, mesmo que criticamente, a técnica da linguagem caminha de mãos dadas com a imersão, por exemplo, numa das melhores maquiagens desde já no ano, feita por uma equipe gigantesca, forte candidata ao Oscar da categoria em 2018. Bem como o uso extraordinário dos efeitos sonoros, que jamais foram utilizados de forma tão intimista, uma vez que o filme se distancia da linguagem típica de blockbusters com explosões e montagem acelerada e deixa o filme respirar como experiência cinematográfica, quase como reflexivos duelos ao pôr-do-sol com o dedo no gatilho e um silêncio ensurdecedor.

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O próprio Wolverine é outro, machucado e envelhecido, precisando de óculos de leitura, mancando, e com outra dinâmica de corpo e coreografias para o ator Hugh Jackman botar todas suas técnicas teatrais a serviço dramático do personagem, que potencializa o resto do elenco, como Stewart,  Eriq La Salle (“E.R. – Plantão Médico”) e Richard E. Grant (“Assassinato em Gosford Park”).  Sua atuação com certeza muda os paradigmas cênicos de qualquer ator que interprete daqui em diante um filme de super-herói, superando até o estabelecido por Robert Downey Jr. no primeiro “Homem de Ferro” em 2008. Jackman fecha com chave de ouro um ciclo na carreira, caso o ator cumpra a promessa (duvidosa) de não regressar ao personagem, entregando-o para o próximo ator que possa vir a interpretá-lo, seja pra FOX ou pra Marvel. E fará muitos marmanjos chorarem com as homenagens e o plano final que subverte um símbolo universal em outro, provando que as tábulas referenciais da cultura pop viraram cânones de valores para muitos fãs, como prova a cena em que HQs dos X-men aparecem de verdade no filme e, a despeito de Logan chamá-las de fantasias que não reproduzem a realidade, os demais personagens se inspiraram nelas para criar algo novo e verdadeiro.

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Mas nada disso teria sido orquestrado sem a direção segura de James Mangold, que já havia dirigido o filme solo anterior “Wolverine: Imortal” (cuja primeira metade já era muito boa, apesar de a segunda botar tudo a perder), e experimentara com faroestes em “Os Indomáveis”. Ainda assim, provavelmente tal elegância linguística foi proveniente mais de seus dramas no limite moral de personagens, como “Cop Land”, “Garota, Interrompida” e “Johnny & June”, incluindo aliados no roteiro com revisões feitas por ex-argumentistas das HQs originais. Tudo isso para talvez, quem sabe, quebrar o estigma de que os filmes de super-herói que vem salvando as bilheterias de Hollywood não possam ter um trabalho de excelência no nível de qualquer grande Filme com F maiúsculo, como foi alcançado com “Batman O Cavaleiro das Trevas” e “Capitão América 2: Soldado Invernal”, e entregar uma experiência artística passível até de prêmios, merecendo uma versão artística em Preto e Branco como George Miller deu para “Mad Max: Estrada para a Fúria” (vide os stills liberados do filme).

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L1006049 - Hugh Jackman stars as Logan/Wolverine in LOGAN. Photo Credit: James Mangold.

L1006049 – Hugh Jackman stars as Logan/Wolverine in LOGAN. Photo Credit: James Mangold.

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