Londres sonha com ‘ROMA’

Ganhador do Leão de Ouro é 'a' atração de sábado do BFI-London Film Festival: Alfonso Cuarón vai palestrar sobre sua estética no evento inglês

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12 de outubro de 2018

Foto diculvagção de Carlos Somonte -Netflix Alfronso Cuarón nos sets de ROMA

Rodrigo Fonseca
Corre um boato entre os cinéfilos de Londres que tem gente acampada na sede do BFI, o instituto britânico de estudos do audiovisual, para conseguir uma senha para ouvir Alfonso Cuarón falar de estética, por aqui, neste sábado, de carona na projeção local de “ROMA”, que lhe deu o Leão de Ouro. Estamos diante de uma obra-prima indiscutível, que evoca processos e dispositivos similares aos usados por Fellini em seu “Amarcord”.

Múltiplas virtudes levaram “ROMA”, produção Netflix dirigida pelo realizador de “Gravidade” (2013), a receber o Leão dourado no fecho do 75º Festival de Veneza. Saltam aos sentidos sua refinada fotografia em preto & branco e a delicadeza de seus diálogos. Sua meta é recriar as inquietações morais da classe média latino-americana do anos 1970. Porém o que mais importa à indústria do audiovisual na sua consagração é o fato de que o serviço de streaming mais popular do mundo na atualidade ter, enfim, conquistado na Meca do cinema autoral um prêmio que é sinônimo de prestígio. Há um ano, o Festival de Cannes virou as costas pra Netflix, questionando sua opção de favorecer telinhas (do computador, do celular ou de TVs) como sua vitrine final, ignorando as salas de exibição. Só alguns de seus produtos originais de longa metragem vão a cartaz, como “ROMA” irá. Mas Veneza – que flerta com a Netflix desde 2015, quando abriu vaga em sua competição para “Beasts of no nation”, um dos primeiros sucessos do streaming – agora resolveu assumir, com pompas, seu casamento com as novas narrativas que as mídias digitais podem gerar. O Leão é a aliança desse matrimônio entre a tradição e… o futuro.

“Não podemos viver sem opções acerca de como vamos poder ver um filme, se no cinema ou em outro suporte. Mas, eu pergunto, quando foi que vocês viram um filme de um mestre como Robert Bresson ou Yasujiro Ozu na tela grande? A maioria de nós, que viemos depois da morte deles, vimos seus filmes na TV ou em DVD ou em outro suporte. Tudo se adapta”, disse Cuarón na projeção de seu filme no Lido. Desde então, fala-se de “ROMA” como um favorito a uma série de Oscars, começando pelo de Melhor Filme Estrangeiro. E seria justo.

O uso de letras maiúsculas em “ROMA” é uma brincadeira com a palavra “amor”. Em seu novo e confessionalíssimo trabalho, o oscarizado realizador de “Gravidade” (2013) e do cult “E sua mãe também” (2001) revive a crise familiar de uma química, Sofia (Marina de Tavira), cuja paz vai entrar em xeque em meio a viradas em sua vida afetiva e em seu país. Tudo é narrado sob a ótica de sua empregada, uma jovem ameríndia, Cleo (Yalitzia Aparicio).

7 Querido menino beautiful boy
Sábado é dia de choradeira na Inglaterra com “Querido menino”, no qual Steve Carell peleja para salvar Thimotée Chalamet das drogas. No TIFF, lá em Toronto, o filme rasgou corações.

Domingo à tarde é dia “Morto não fala”, terror brasileiro da grife Dennison Ramalho (“Ninjas”), no BFI LFF. Daniel de Oliveira conversa com defuntos cheios de crise no longa, que papa elogio por onde passa graças à força narrativa deste diálogo do cineasta com as cartilhas do horror. Antes dele, Londres vai cair de deboche na pele de Donald Trump de carona no documentário “Fahrenheit 11/9” feito por Michael Moore a partir do que sobrou das utopias americanas. Em 2004, o diretor fez coisa parecida do George W. Bush. O festival londrino termina no dia 21.