Looping

A memória do frame

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16 de outubro de 2019

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O que pensa um instante congelado de filme?! Quais são os imediatos segundos anteriores e posteriores a um momento de ação?! O que pensou aquele quadro? Qual sua motivação e destino? E quadro pensa? Pode parecer uma pergunta irônica, até porque a película ou o digital, na teoria, não pensam… Quem pensa são cineastas que empregam suas intenções à câmera. Porém o filme ganha vida própria e será recepcionado por inúmeros públicos diferenciados que lhe darão interpretações próprias, dando uma significação coletiva que toma conta sobre a intenção original. O filme existe, logo pensa.

E alguns dos maiores cineastas já teorizaram sobre isso, como o saudoso diretor iraniano Abbas Kiarostami, que teve sua derradeira obra lançada postumamente por seu filho (mais uma boa metáfora de filme que ganha vida própria para além da chama da vida de seu criador se apagar). Denominado “24 Frames”, o filme de Abbas teoriza sobre o extracampo de vida de um quadro de filme (lembrando que cada segundo de filme possui 24 frames para compor a imagem em movimento). Ele exibe 24 quadros durante o filme e depois revela os instantes que cercam a existência temporal daquele segundo… Um exercício filosófico e existencial que podemos ver agora no curta-metragem brasileiro do diretor Maick Hannder, “Looping”.

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Resguardada toda a reverência ao mestre Abbas, a intenção de Maick caminha nobremente para outra direção, utilizando-se da linguagem moderna das redes sociais, com uma técnica bastante vanguardista, aludindo aos stories, GIFs e flickers da internet… Maick se utilizou de uma câmera com várias lentes que capturam mais de um instante sequenciado de cada momento. Assim, cada cena do filme é uma espécie de forografia com micromovimentos que demonstram pequenos instantes antes e depois do tema central do quadro. Quase como uma foto 3D ou uma das pinturas vivas penduradas na parede de Hogwarts em “Harry Potter”. Algo já usado algumas poucas vezes em lugares isolados e não da forma como teve seu aproveitamento em “Looping”, e muito menos um filme inteiro apenas nesta técnica como aqui podemos ver.

Mas a inovação não fica apenas na técnica. O tema é crucial para adaptar a linguagem na prática. O diretor abraça o gênero romântico, até mesmo beirando ao ultrarromantismo, para demonstrar um olhar apaixonado por alguém. Ele começa revelando um jovem rapaz por quem o eu lírico do filme pode ter se apaixonado de verdade ou apenas na ficção. Este eu lírico, por sinal, pode ser o próprio cineasta, mesmo que de forma abstrata ou concreta, uma vez que o outro personagem só aparece cortado em membros como mãos e braços nos cantos do quadro (e apesar também de o filme creditar outras duas pessoas no elenco como as representações na tela, Arthur Diniz e João Victor). É muito bem construída esta relação de quem olha e quem é olhado, criando um olhar dentro do outro, inclusive o do espectador que é convidado a sentir aquele sentimento e se identificar com aquela primeira grande paixão que arrebata e cega igualmente (independente da orientação sexual da plateia, pois o que está em foco é o sentimento universal de arrebatamento).

É neste quesito que a dramaturgia se torna ainda mais interessante, pois o que poderia ser apenas uma projeção de emoções espelhadas vai se tornando também um mergulho profundo e crítico em o quanto nos entregamos e deixamos de existir numa paixão irrefreada. Nos excluímos do quadro. Nos ausentamos. Nos tornamos o outro, a obsessão pelo encontro e nos tornarmos um só. Um apagamento pela metade na vã crença de que seres humanos seriam metades que precisam ser preenchidas e não inteiras pra começo de conversa.

E mais do que isso: o objeto da obsessão se torna desfocado, imaginado, idealizado, deixa de ser também o sujeito inteiro com vontade própria. E nisto a linguagem selecionada para contar a história, com a memória dos curtos frames em micromovimentos se justificam e materializam o quão simples e complexo ao mesmo tempo foi a ideia do diretor. Pena que a 19° Goiânia Mostra Curtas não possuía o prêmio de melhor fotografia (assinada pelo próprio Maick), porque não teria para mais ninguém. Estamos diante de um filme que dita algo que não apenas será tendência, como já é a realidade de um audiovisual muito mais amplo que apenas o cinema, pois já está em lugares como instagram, whatsapp, snapchat e etc, muito utilizados pelas novas gerações, e que aqui Maick trata a sério e refina para a sétima arte.