Los Silencios

Os silêncios e as canções são nossas

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06 de março de 2021

 

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Um filme latino americano, sobretudo brasileiro, parece ter que dar a volta ao mundo para atrair olhares de sua própria casa. O viralatismo tupiniquim acostumou-se mais com o idioma estranho, com a cultura embranquecida do norte do planeta. Com isso, é preciso que um filme tão rico e forte como “Los Silencios” esteja à luz de Cannes para que se valide o sensível trabalho de Beatriz Seigner e ganhe enfim a atenção de críticos e jornalistas de grandes mídias.

Embora a obra tenha sido bem recebida, ainda é comum encontrar visões de oposição que estão acostumadas com a expressão da linguagem hollywoodiana nas telas, de um cinema muito autoexplicativo e mastigado. Esse tipo de olhar dificilmente vai absorver a imensidão que é “Los Silencios”.

Na crítica do Adoro Cinema, o autor Bruno Carmelo reconhece e compreende a mensagem e grandiosidade do longa, deixando claro em seu texto o brilhantismo do desenho de som, que é parte crucial do storytelling, pois é o modo como nos conectamos com o ambiente e com o subtexto. É como percebemos o valor da floresta pluvial amazônica e da comunidade, tal como percebemos a violência – é um filme que amplia a situação dos guerrilheiros, ou melhor, das muitas famílias atingidas pelos conflitos com os paramilitares. Mesmo assim, no referido texto, há um clamor pela demonstração visual da guerra, como se para exercer essa empatia fosse preciso iluminar os combatentes em sua violência explícita. Faltou a compreensão que o protagonismo dessa história está no pequeno indivíduo, nas famílias que exercem forçada e desesperançosamente o luto calado – que é brilhantemente extraído em uma catártica cena quase documental no último ato do filme.

O crítico também aponta que o longa é lento demais e de atuações apáticas. Porém, cabe ressaltar que ao agregar no elenco pessoas comuns, a naturalidade do longa fica quase palpável. É muito difícil de compreender quem não consegue se conectar com o olhar de Amparo, que carrega a dor reprimida de quem não tem outra alternativa que não seja lutar para seguir em frente – a jornada da mãe solo é ainda mais dura quando diante da perda de tudo, que já era antes pouco, lhe sobrando apenas as lembranças, suas raízes, sua semente, seu corpo… e os silêncios.

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O que difere “Roma” (Alfonso Cuarón) de “Los Silencios” para que sua recepção e percepção não tenham sido niveladas? Ambos os filmes retratam pessoas que têm suas narrativas constantemente apagadas pela colonização e, sequentemente, pelo capitalismo selvagem e exploratório. Ambos usam histórias tão pequenas de pessoas igualmente pequenas – quando postas lado a lado com o macro dos conflitos percebidos em segundo plano – explorando a grandiosidade do não dito que explode em catarse no fim. Ainda assim, há quem diga que o impacto da obra de Seigner não foi tão grande. A diretora – que não só é mulher como também é mãe – trabalha a comunicação através de elementos do extracampo nos espaços da história e seu olhar, dotado de grande sensibilidade, conseguiu captar a alma daquele local, seu povo e cultura, enriquecendo a história.

“Los Silencios” é um filme que diz muito falando pouco. É preciso sentir os vazios e os silêncios, pois a recompensa no final é sonora, cantada e com ela vem a tristeza de saber o quão desconexo nós brasileiros estamos de nossas raízes e de nossos vizinhos continentais.

Referência: Texto: “Los Silencios A guerra fantasma”, por Bruno Carmelo. http://www.adorocinema.com/filmes/filme-259243/criticas-adorocinema/