Lou

Por trás de toda grande mulher... Há uma grande filosofia autoral

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11 de janeiro de 2018

Eis a típica história verídica que é muito maior do que o filme que versa sobre ela, e dificilmente a arte poderia provocar uma catarse no mesmo nível que a vida a lhe originar, especialmente em se tratando de uma biografia invisibilizada através de décadas. A personalidade notável se trata da filósofa Lou Andreas-Salomé, que acabou mais conhecida por vários mitos e concepções reducionistas ou equivocadas, vinculando estritamente a menção de seu nome às relações que teve com homens como Friedrich NietzscheSigmund FreudPaul Rée e Rainer Maria Rilke. Porém, mesmo com os rígidos obstáculos de época no caminho para a emancipação e realização plena da mulher na sociedade, Lou conseguiu alcançar feitos não apenas equivalentes como até superiores a seus pares masculinos, e, ainda assim, é lembrada geralmente à sombra deles. Uma injustiça que, em parte, este filme conduzido pela diretora alemã Cordula Kablitz-Post tenta corrigir.

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Com bela direção de arte e figurinos de época de Nikolai Ritter e Bettina Helmi, respectivamente, “Lou” como obra alcança momentos de extrema inspiração inovadora na reconstituição histórica do período, priorizando menos exatidão e mais lirismo. Como, por exemplo, o fato de usar cenas de transição e de apoio que são verdadeiros quadros, com a paisagem contemporânea onde a personagem vivia, dando-lhe vida a destacar depois o movimento da protagonista em meio àquela pintura inanimada, como se ela própria fizesse parte do quadro. Às vezes o lirismo pode soar um pouco exagerado, quando dá vida à imaginação da personagem, como na cena em que ela enxerga “Deus” como se fosse um “deus” interior, ou um superego. Mas o tom farsesco em geral, principalmente empregado pela intérprete que interpreta a fase adulta (Katharina Lorenz), é o maior acerto neste sentido, dando credibilidade ao espírito vanguardista e aventureiro da persona histórica, fazendo crível reformular o imaginário popular em relação a este cânone histórico injustiçado que foi Lou Salomé.

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Outro trunfo é a intérprete mais velha de Lou (Nicole Heesters), que amplia o ar brejeiro agora mais calejado com as experiências agridoces da vida. Porém, justamente pela escolha de abarcar vários momentos da biografia dela, talvez deixe de focar e aprofundar alguns detalhes que poderiam ser melhor priorizados se recortassem apenas uma fase completa. Não que a estrutura tradicional de cinebiografias de se começar pelo final e rememorar através de flashbacks a evolução linear da retratada deixe de passar o recado, mas o processo cognitivo da personagem é tão mais rico do que isso que sua transposição para a telona poderia pensar mais como ela própria.

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Até porque as cenas no passado que acabam deixando algumas lacunas, a serem preenchidas depois na formação de personalidade de Lou, fazem com que se demore a ingressar na trama, mesmo que depois o ritmo narrativo flua melhor e acabemos sendo tragados pelo enorme carisma irresistível da pessoa real que ela foi. Ainda assim, alcança resultados superiores a tentativas pregressas, pois algumas das relações a que “Lou” se propõe já foram abordadas em recortes mais microscópicos como no filme “Além do Bem e do Mal”, dirigido pela italiana Liliana Cavani e lançado em 1977, que abordava apenas o triângulo platônico entre Lou, Nietzsche e Paul Rée. Nesta obra, não era o interesse principal focar o protagonismo em Lou, ou no ponto de vista dela da história como merecia, mas sim na filosofia de Nietzsche e suas teorias que debatiam uma além-moral. Isto acabava por exotizar a figura da mulher que aceitaria morar com dois homens afrontando a moral da sociedade, quando o pensamento da própria filósofa ia bem além desta mera dicotomia.

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A única ressalva que se deve fazer é que, justamente para tentar desinvisibilizar a vida real por trás da figura apagada, e ao mesmo tempo não deixar de atender a curiosidade dos espectadores em conhecerem melhor as interseções da grande mulher que ela foi com homens que não deixam de ter seus nomes marcados na história com grande vulto, o que parece é acontecer uma priorização mais do ponto de vista amoroso de suas relações e menos dos processos intelectuais com que ela contribuiu. Sim, há vários momentos que mostram o quanto ela havia lido e decorado todos os escritos de seus pares filósofos, tanto quanto discordava veementemente e sem hesitação de inúmeros pensamentos deles, até mesmo influenciando alguns caminhos novos que eles tomaram. Mas não um cruzamento da obra dela particular com os momentos históricos que ela viveu. Parece mais um dispositivo contestativo a negar a sombra deles perante a participação histórica dela, do que propriamente dito uma exposição afirmativa e constitutiva de quem ela foi, independente deles. E, como diz a própria psicanálise, ciência sobre a qual todos estes filósofos supracitados beberam da fonte, inclusive ela, a negação de uma lembrança ou fato acaba por se tornar uma dupla afirmação daquele fato, e não uma (re)descoberta de um ângulo novo. Só faltou o filme também beber um pouco mais desta fonte para lembrar as lições de sua biografada.

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