Loucura é perder Maria Padilha nos palcos

Ao reviver, no CCBB, as memórias da escritora Maura Lopes Cançado, em seu inferno manicomial, a atriz carioca - uma das mais catárticas do teatro brasileiro - chega a seu apogeu em cena, discutindo a lucidez da sociedade

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22 de outubro de 2018

WhatsApp Image 2018-10-21 at 23.53.47 7a Diários do Abismo Maria Padilha 7 Diários do Abismo

Rodrigo Fonseca
Definida em suas próprias palavras como “um anjo com vocação para demônio”, ou como “a mais bela invenção que conheço”, Maura Lopes Cançado (1929-1993), jornalista, escritora e objeto do monólogo candidato ao posto de “melhor peça de 2018”, arrisca um delicado balé em dado ponto da encenação em cartaz até 5 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). Chama-se “Diários de um abismo”, num título que faz jus aos escritos confessionais que servem de argamassa ao texto teatral, adaptado por Pedro Brício. A tal dança, sequela de transcendência da direção de movimento de Marcia Rubin, traz à tona aforismas de Nietzsche, talvez o mais necessário acompanhante que o espectador da montagem pilotada por Sergio Módena deve ter. Diz o filósofo: “É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”. Há um caos demiúrgico em cada gesto de Cançado, cada um com um colorido sensorial (puerilidade, fúria, erotismo, agonia) na aquarela humana chamada Maria Padilha. É um momento de apogeu para uma estrela que sempre nos surpreende, mas que, aqui, num “bloco do eu sozinha”, põe a si mesma à prova. Sua economia de recursos é franciscana. E com o mínimo ela faz muito, por nós, da plateia, e pelo Teatro.

Há um livro seminal decalcado de uma tese universitária chamado “O voo cego do ator do teatro brasileiro”, de Nikita Paula, que evoca um filme fundamental dos anos 1990 ao fazer um estudo sobre a dimensão plástica (vetorial) do corpo em cena: “Os matadores”, de Beto Brant. Ainda que o foco de Nikita seja o desempenho de Murilo Benício neste longa-metragem, fala-se sobre o conjunto de intérpretes que o cercam, entre eles, Maria Padilha. Com suas feições mondiglianescas e sua lourice nórdica, a atriz parece um ser etéreo num universo abrutalhado de assassinos de aluguel. Suas palavras, na tela grande, pareciam contadas no compasso de um metrônomo. Seu gestual era milimétrico. Algo incomum à maneira de se atuar em nosso cinema. O mesmo exotismo se faz sentir agora, na genealogia da moral opressora dos anos 1950 que Maria Padilha leva ao CCBB, sob a iluminação de Paulo Cesar Medeiros.

Maria Padilha com Beto Brant em "Os matadores"

Maria Padilha com Beto Brant em “Os matadores”

Temos um vomitório em cena, decalcado da prosa deixada por Cançado em “Hospício é Deus” e “O sofredor do ver”. Mas o vômito soa como um sopro num ventilador… uma brisa da dor dos interditos sociais, profissionais e culturais, sobretudo contra uma força feminina que exercitava o empoderamento em tempos ainda mais sexistas. Estamos na década de 1950 e Cançado – ciente de sua potência criativa (como repórter do “Jornal do Brasil”) e de sua beleza sem parâmetro para sua época – vai parar em um manicômio, em meio a um calvário em prol da sanidade e da liberdade. Maria Padilha investe frontalmente no ferramental literário de sua personagem: sua encenação, em forma de gira, contabiliza todo o conhecimento que Cançado tem sobre livros, ópera, música. O saber da escritora e sua irônica forma de descrever o Real são aríetes no corpo a corpo da atriz contra a ideia da repressão à loucura – ou a ideia de que ser autêntico é ser louco.

Retângulos dispostos pelo palco, como colchões de hospício, desenham a metonímica noção de claustrofobia do arranjo cenográfico de André Cortez. Maria Padilha se lança contra eles furiosa, reproduzindo a peleja da própria Cançado para se manter sã, em uma narrativa que desvela a mecânica foucaultiana da permanente vigília e da implacável punição aqueles que, como a escritora, desafiam o claustro normativo da sociedade. Vale frisar que o desempenho de Maria Padilha é, em si, um desafio às convenções da atuação na arte brasileira. Daí a relevância de “Diários do abismo” para quem cria… para quem assiste… para quem sonha.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5