‘Love story’ à francesa leva Cannes ao tédio

Dirigido pela beldade Maïwenn, o drama romântico 'Mon roi', concorrente da França à Palma de Ouro, foi acolhido com uma pergunta nada animadora: 'O que um filme desses faz na competição?'

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17 de maio de 2015

Mon roi

CANNES – Laureada na Croisette há quatro anos com o prêmio do júri pelo superestimado “Polissia”, a modelo, atriz e cineasta Maïwenn, dona de um dos rostos mais belos da historia do cinema francês, conseguiu aborrecer até seus conterrâneos com o drama romântico “Mon roi”. Em concurso pela Palma de Ouro de 2015,a produção foi responsável por aplicar uma injeção de tédio nas veias de Cannes na manhã deste domingo. Apesar do desempenho impecável do ator Vincent Cassel, o longa-metragem – centrado no relacionamento de dez anos de um casal – patina entre a monotonia, um feminismo dos mais preconceituosos e a obviedade. Não como ser negar a beleza plástica da produção, na fotografia de Jakob Ihre. Mas a força visual não foi suficiente para justificar a presença de um filme tão quadradro em concurso, o que levou a gritos de “Nepotismo”, ao fim da projeção. Não se sabe ao certo se Maïwenn tem ou não laços de parentesco com alguém da organização como a palavra gritada sugere. Mas houve em volta desse berro a justificativa de que o longa estaria concorrendo apenas por benevolência com o cinema francês de médio porte, para promover a industria local. Não por acaso, sua protagonista é a também atriz e cineasta Emmanuelle Bercot, que dirigiu o filme de abertura do festival: “La tête haute”, exibido na quarta passada e já lançado no circuito local com enorme sucesso popular.

– Eu venho de uma trilogia narcisista como diretora, onde atuava nos filmes que rodava. Em “Mon roi”, eu preferi me afastar, para poder ver com distanciamento o que se passa numa vida a dois num intervalo de dez anos – disse Maïwenn ao fim da projeção.

Nos primeiros minutos de “Mon roi”, a advogada Tony (Emmanuelle) sofre um acidente de esqui e machuca o joelho gravemente. Enquanto se recupera, ela relembra de seu passado afetivo, abrindo uma deixa para Maïwenn fundir passado e presente para contar o encontro da protagonista com seu amado, Georgio, defendido por Cassel com a maestria habitual. Georgio é uma espécie de cancêr em vida para Tony. Ao mesmo tempo em que chega todo sedutor, oferecendo a ela um prazer sexual nunca antes provado e dando-lhe um filho, Georgio destrói todo o equilíbrio emocional de sua mulher, entre mil traições, mentiras e ausências.

– A abordagem de Maïwenn não é acadêmica na filmagem nem é sexista em sua dramaturgia. Este filme fala da passionalidade de todos os sexos, indistintamente – disse Cassel.

O outro destaque do longa – notável em sua primeira hora, enquanto o ritmo não derrapa – é o desempenho de Louis Garrel, o galã dos galãs jovens da França na atualidade. Para viver o irmão de Tony, Garrel abre mão de seu charme habitual, vivendo um tipo de pouco viço, conformado em ser um ombro amigo para sua maninha carente. Garrel esta noite vai exibir um trabalho seu como diretor de longas na seção paralela Semana da Critica: o filme “Les deux amis”, com a bela iraniana Golshifteh Farahani, vista faz pouco no Brasil em “A padre de paciência”.

"The High Sun" é uma produção croata

“The High Sun” é uma produção croata

Frente aos ventos mornos trazidos por “Mon roi”, Cannes suou neste domingo apenas com a alta pressão do drama croata “The high Sun” (“Zvizdan”), de Dalibor Matanic. O longa acompanha três historias de amor nos Balcãs, à sombra de guerras étnicas. Chamou a atenção da Croisette também o documentário “Allende mi abuelo Allende”, no qual a cineasta Marcia Tambutti Allende revë o golpe de estado no Chile e a derrocada do governo de seu avô para os militares.