Loveless

Mãe Rússia problemática

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29 de outubro de 2017

“Loveless” do cineasta russo Andrey Zvyagintsev, o mesmo diretor do filme “Leviatã”, foi um dos destaques da 41a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ganhou o Prêmio do Júri em Cannes 2017.

Apesar de seu último trabalho ter sido talvez mais redondinho e experimentar com a mistura de gêneros, com a pitada de humor em meio ao crescente suspense, “Loveless” é thriller dramático assumido mesmo. Põe os pés e as mãos na lama desde a primeira cena. E captura primeiro pelas vísceras através da beleza estética dialética, cada desenho de produção e locações perfeitamente reveladores das personalidades em jogo, enquadrados à perfeição. Planos que a princípio aparentam ser fixos, para depois acompanhar os personagens em travellings reenquadrados a cada instante. E, depois, o filme nos lembra que os personagens e suas relações vêm em primeiro lugar, pois até a parte técnica está dirigida para potencializar o elenco, como com o capricho visual de planos conjuntos que colocam a disposição social deles em xeque (como as cenas extremamente bem montadas na lanchonete do trabalho do protagonista ou no salão de sua esposa). E que atuações inspiradas.

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Tão bem dirigido com extrema elegância quanto o ganhador do Prêmio de Direção para Sofia Coppola, “O Estranho que Nós Amamos” (mas ainda mantenho o gostinho especial por Sofia ter ganho). Sem falar que a atuação de Maryana Spivak está hipnoticamente magnânima como a protagonista, dissecando cirurgicamente uma jovem mãe que está se divorciando e disputa com o marido qual dos dois quer menos aquela criança, fruto de um casamento sem amor. Até que a criança desaparece! Do nada. Sem precisar de explicação. Nem de resposta. E como no desaparecimento de uma criança o tempo opera uma tensão real e contínua, o cineasta Andrej soube aplicar bem o transcorrer do dia para noite para madrugada, e assim por diante, de forma incrivelmente pictoria, pintando os corpos muito bem fotografados sob efeito das luzes ou a falta delas por trás de seu sofrimento. O aproveitamento de contornos da penumbra crepuscular ou do alvorecer são extremamente belos, adentrando as casas de cada personagem a revelar, por seus exteriores, os seus interiores.

Infelizmente, por mais inverossímil que possa parecer a frieza emocional para com o sumiço de um filho inicialmente, todos já vimos esse tipo de pais estampar capas de jornais. Talvez a surpresa maior seja a elitização destas personas, já que as manchetes costumam só ter coragem de criticar o abandono parental de camadas mais humildes, e nunca pensa na elite com suas babás, viagens e motoristas… Uma coisa meio Medeia, para os 2 lados. Sem falar que o marido é a perfeita alegoria de macho que não cresceu e segue engravidando adiante irresponsavelmente e sem amor nem maturidade, nem vínculo familiar… Tipo, como ele há muitos, apesar de nele ter sido conjugada toda a virulência metafórica do abandono às famílias anteriores. O que parece ter sido novidade, e muito vantajoso mesmo que o filme tenha colocado, é a personagem da mãe ser tão bem-sucedida, independente de gostar de se associar a maridos ricos, e querer o mesmo que estes homens, seguir a vida adiante sem a responsabilidade da família anterior… Digo, pode parecer uma inversão cruel, e ninguém aqui está dizendo que as mulheres batalharam por direitos iguais para poder fazer o que já era monstruoso para os homens quando eles faziam (e ainda fazem). Mas eles sempre saíram impunes com isso. Diferente do personagem do pai, a mãe parecia estar em um relacionamento verdadeiramente bom para ela (mesmo que se formos analisar profundamente de forma psicoanalítica, o novo parceiro deve ter se atraído por ela como substituto compensatório pela filha jovem, bela e inteligente estar trabalhando fora do país, em Portugal). Ninguém ali presta. Ok. Mas não recaem em meras repetições de arquétipos por creditar o comportamento meio Medeia da personagem de Maryana Spivak na primeira metade da projeção bem mais inédito para as mulheres, que quase nunca são retratadas desta forma, enquanto os homens o são até os dias de hoje, unilateralmente.

Todos aqueles personagens problemáticos esqueceram de querer aquele filho metafórico de uma pátria cindida e despersonalizada pela abertura de mercado, numa crise à la Medeia, dicotômica pela paisagem de concreto com dois mundos, um industrial e um urbano, nenhum dos dois arquitetado para o lado humano. Nenhum para acolher. Concreto para proteger por imposição da força ante a dureza do frio da narureza e das pessoas, apenas para ser mais forte do que as adversidades auto-impostas — Como se demonstra nas locações abandonadas na busca pelo menino desaparecido, com incrível direção de arte que desvela o abandono de parte da sociedade que não se preparou para o futuro de uma nação. Uma enorme Mãe Rússia provocadora e orgulhosa, em meio a conflitos com quase todas as regiões ao seu redor, muitos deles com raízes culposas e imperialistas. Uma anomalia que não se encaixa direito no G8 dos países mais poderosos do mundo, mas que se não for aceita ou se encaixar, pode gerar novas guerras mundiais — questões constantes no pano de fundo do rádio à televisão, na maior parte das vezes com mais sutileza e eficiência do que em “Leviatã”, com raras escorregadelas mais declaratórias não diegéticas à trama.

Por isso é tão bem-vinda a maior integração com a natureza ao redor. Enquanto em “Leviatã” o mar era metáfora direta do mistério que o horizonte infinito sempre esconde, como a principal incógnita que não é respondida até o final, ficando a critério da imaginação do espectador, aqui a dureza natural retoma a principal característica da paisagem russa, a neve. Só que ao invés de apenas se encerrar na não-solução ou na culpa pelo fatalismo inescapável, que permeia todo o imaginário cultural do país, a neve consegue servir de catarse poética para preparar o espectador para um novo tipo de final em aberto, mais crítico e doloroso. É curiosa a diferença da filmografia europeia ocidental para a oriental. Existe uma dor crua no cinema russo ou no romeno, por exemplo, que não consegue se traduzir no resto do velho continente aliviado pelo banhar mediterrâneo e pelo Oceano Atlântico. Não há alívio no cinema russo, de formas diferentes com que não se tem também no cinema romeno.

Engraçado que a única coisa que tira um pouco do impacto da surpresa do filme é ter se visto antes na 41a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o filme romeno “Pororoca” de Constantin Popescu, pois, ironicamente comparando, versam sobre o mesmo assunto, o desaparecimento de uma criança que destrói uma família. Mas com dores completamente diversas. O primeiro através de pais horrendos que não merecem aquela criança, e no segundo através de como a culpabilização da responsabilidade conjunta pelas crianças pode desconstruir até uma família perfeita. Dois motes, dois êxitos. E com pelo menos uma sequência como forte candidata à cena do ano, a antepenúltima do filme (o que curiosamente disputará com a cena final de “Pororoca”). Uma dubialidade de arrepiar a espinha. Só por esta cena a atriz Maryana Spivak, caso fosse americana, ganharia indicação CERTA ao Oscar de melhor atuação…mas sabemos como a Academia mal reconhece candidatas de fora dos EUA…imaginem russa?!rs

“Loveless” era exatamente o típico candidato anual grandioso que estava se esperando dentre os concorrentes à Palma de Ouro no Festival de Cannes este ano, e que ainda não havia se visto. Não se está com isto discordando da Palma para “The Square”, pois entende-se que este era o diálogo que a Europa estava precisando ter consigo mesma, mas “Loveless” possui a grandiosidade para disputar como uma das obras do ano. Se bem que é bom reiterar ter se esperado mais dos cadidatos em geral, pois todo ano os concorrentes à Palma geram mais obras-primas do que os principais vencedores propriamente ditos (só ano passado tiveram fortes candidatos ao teste do tempo como Toni Erdmann, A Criada, Aquarius, Sieranevada, O Apartamento, e até os controversos Elle e Demônio de Neon, isso tudo só em 2016). Talvez falte a Cannes quebrar o próprio molde de Cannes-tização e inserir na Competição principal filmes mais heterodoxos ao formato esperado, como uma das obras-primas do ano “The Florida Project” — um absurdo não ter concorrido em nenhuma Mostra paralela que não a principal. Além de candidatos que concorreram em outros Festivais, como Pororoca, Me Chame Pelo Seu Nome, Custódia, A Forma da Água etc… Filmes que definitivamente teriam abrilhantado mais a corrida pela Palma este ano, como ideal de clímax cinematográfico.

Este ano, um Top 5 do almanaquista Filippo Pitanga, que concorreu oficialmente à Palma, por enquanto é:

Loveless

O Estranho que Nós Amamos

The Square

Esplendor

120 Batimentos Por Minuto