Lua Vermelha

Poesia metafísica nas águas do tempo

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04 de novembro de 2020

Há filmes extremamente poéticos na 44° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, sem deixar de ser extremamente cinematográficos, como o poema visual “Lua Vermelha” de Lois Patiño, belamente fotografado, cuja história do naufrágio numa vila na costa da Galícia na Espanha, metaforizando a inércia das vidas pacatas através da magia oculta na rotina, dialoga bem com a transcendência quântica de “Evolution” de Lucile Hadzihalilovic (2015) e “O Barco” de Petrus Cariry (2018).

Na trama, numa aldeia onde o mar e a lua estão próximos, havia um monstro, três bruxas, muitos fantasmas e um homem naufragado. E este jogo de imagens e simbologias que cada uma destas palavras significa e carrega de camadas narrativas. Não há diálogos, apenas narração em off passeando através de imagens quase estáticas, quase uma soma de vários quadros vivos (tableau vivant). Portanto, cada símbolo ali colocado é exatamente a medida da bagagem evocada. As “bruxas”, os “fantasmas”… — todos equivalentes a ícones Junguianos como cartas de tarot sem aprofundamento, porém até o limite da necessidade de suas significações. Quando aparecem na tela, são solventes que liquefazem os códigos humanos, concretos e materializados, e criam um diálogo sobre a gênese do mito fundador que nos faz humanos a partir das reflexões do encontro com a morte e a finitude do ser perante a magnitude da natureza.

O filme pode soar um pouco impenetrável, mas não temam. Não encarem a narrativa como prosa, e sim como poesia, com versos e estrofes e refrões. A narração quase hipnótica e a fluência sequenciada de imagens em períodos fluidos, deslizando pela tela, são formas sensoriais muito mais do que explicações sobre o tal naufrágio que começa o filme.

Vale harmonizar “Lua Vermelha” com outro exemplar já comentado no Almanaque Virtual, “As Órbitas da Água” de Frederico Machado, sobre o qual também tracei correlações com “O Barco”, de Petrus Cariry (em breve nos cinemas) e “Evolução”, de Luciele Hadzihalilovic – todos estes fabulando uma dramaturgia a partir de vilarejos remotos e transbordados apenas pelas águas do tempo como metáfora da origem das espécies.”