Ma Ma

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17 de outubro de 2016

Como qualquer gênero cinematográfico, o melodrama possui características próprias e todo filme que o assuma deve adotar tais peculiaridades. Ao longo da extensa história da sétima arte, alguns diretores eternizaram seus nomes com habilidades de mestre na condução de longas que, nos primórdios, receberam a alcunha de “filmes de mulher”. Na América, durante a “Era de Ouro de Hollywood”, Douglas Sirk é referência do melodrama com filmes como “Sublime Obsessão” (1954) e “Tudo o Que o Céu Permite” (1955). Seu estilo, quase uma assinatura, serviu de inspiração para os europeus Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar, donos de filmografias veneradas por estudiosos e amantes de cinema. O cineasta espanhol Julio Medem, conterrâneo de Pedro Almodóvar, faz de “Ma Ma” um fiel exemplar melodramático, com temas vitais do gênero — a força da feminilidade na superação de obstáculos erguidos por uma decepção amorosa e uma doença inesperada; no caso, o câncer de mama, problemática tão em voga nos dias de hoje.

No papel de protagonista de “Ma Ma”, a pujança dramática de Penélope Cruz, musa almodovariana em longas como “Volver” (2006) e “Abraços Partidos” (2009), não poderia ser mais acertada. No enredo, a atriz é Magda, diagnosticada com um câncer de mama em estado relativamente avançado; mas, de acordo com o ginecologista Julián (Asier Etxeandia), curável após uma mastectomia. Abandonada pelo marido Raúl (Alex Brendemühl), Magda recebe uma ajudinha do destino para evitar o desamparo: ela conhece Arturo (Luis Tosar) durante um jogo de futebol de Dani (Teo Planell), filho dela. Ele, um olheiro do clube espanhol Real Madrid, inicia uma conversa com Magda cujo assunto é o talento do garoto, enchendo-a de orgulho. De repente, Arturo é interrompido pelo celular — uma ligação informa que sua filha e mulher foram vítimas de um grave acidente. Os dois desconhecidos, prestes a desmoronar, fazem da tragédia de cada um o ensejo de um delicado romance.

O título “Ma Ma” tem mais de um significado para fazer alusão a importantes temas desdobrados pelo filme — é referência ao câncer de mama e a traumática extração de um dos seios, bem como se relaciona com o termo em espanhol “mamá”, diretamente vinculado com o aflorado instinto materno da protagonista. A propósito, é a maternidade, interpretada pelo filme como um motivo para viver, que faz da produção um melodrama lacrimoso, com selo de autenticidade. Na execução das exigências do gênero, sem moderação, poucos pecados tomam forma — a faceta de cantor sentimental do ginecologista, levada ao exagero; e a aparição incessante, como um fantasma, de uma garotinha loira de olhos azuis, cuja figura indefesa, exposta em uma foto no consultório médico, impressionou Magda.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Ma Ma, Espanha / França, 2015, 111’

Julio Medem

Elenco: Penélope Cruz, Luis Tosar, Asier Etxeandia, Teo Planell, Alex Brendemühl

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4