Massagem Cega

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07 de outubro de 2014

A proposta de “Massagem Cega” do cineasta chinês Lou Ye é possibilitar ao espectador uma imersão ao universo dos cegos. Ao centralizar com sua câmera um nicho muito bem organizado, apesar das complexidades humanas ali estabelecidas, uma clínica de massagem composta de profissionais desprovidos de visão, o cineasta chinês assevera que há mais de uma maneira de enxergar, tão eficaz e até mesmo mais penetrante, que aquela proporcionada por olhos saudáveis. Em sua introdução, o filme apresenta o personagem Ma (Huang Xuan), cego desde um acidente que sofreu quando criança. Da revolta com a irreversibilidade da deficiência, algo que rende uma tentativa de suicídio muito bem orquestrada e impactante logo nos minutos iniciais, o filme salta ao processo de aceitação ― Ma é introduzido em uma escola especial para deficientes visuais e se profissionaliza para ganhar o próprio dinheiro na clínica de massagem Nanjing.

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Com o foco na massagem feita pelos cegos, na China esse tipo de serviço é cotidiano no ramo empregatício, o filme valoriza literalmente o toque, o contato, a necessidade de apurar um sentido para compensar a falta do outro. Por falar em contato, em “Massagem Cega” o toque de ordem afetiva não é deixado de lado. Alguns vivem suas paixões e outros sofrem por não serem correspondidos. Mais uma vez, é pelo tato que um deles, o chefe Sha Fumming (Qin Hao), tem suas chances de conhecer a beleza. Assim como é pelo toque, ainda assim forçado e traumático, que Ma tenta dar vazão ao seu desejo por uma mulher.

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É com a relação de Ma com uma prostituta que o filme ganha um contorno mais romântico. Ma se apaixona pela moça, que por sua vez é capaz de perceber, sem o auxílio da visão perfeita, que o rapaz se difere de seus clientes recorrentes. Um bom movimento técnico do filme é a alteração do aspecto convencional da imagem, para propiciar ao espectador a sensação de visibilidade comprometida, durante crises emocionais de Ma. O foco deixa de ser límpido e os sons ao redor agravam o desconforto. Filme que promove a homogeneização de um elenco com atores que enxergam e deficientes visuais, “Massagem Cega” acerta ao colocar o caráter legitimamente humano do roteiro acima da condição física de seus personagens.

Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama

Massagem Cega (Tui Na)

China – França, 2014; 114 minutos

Direção: Lou Ye

Com: Guo Xiaodong, Qin Hao, Zhang Lei


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