Madame Bovary

Bonita releitura realizada a oito mãos de um clássico escrito em 1857 por Gustavo Flaubert

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26 de junho de 2015

Cercado por nomes de grande peso no teatro, como Aderbal Freire Filho – na clara inspiração -, Marcio Abreu e André Lepecki, “Madame Bovary” de Gustavo Flaubert e direção de Rafaela Amado e Bruno Lara Resende, às terças e quartas, no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, é um projeto realizado com muitas qualidades, qualidades estas, vistas anteriormente em muitas das obras destes criadores citados acima. Quantas vezes já nos perguntamos, o por quê, de se produzir um clássico da dramaturgia mundial, nos dias de hoje? Principalmente no espaço físico de um teatro? Apesar de possuirmos, no teatro, diversos mecanismos técnicos, a arte de iludir imitando a realidade, e a vida como ela é, não é a melhor expressão a ser escolhida para representarmos no teatro. Dito isto, é de se impressionar, e nos preencher de satisfação, assistir à releitura dada ao espetáculo “Madame Bovary”.  A tradução e adaptação de Bruno Lara Resende, para uma obra escrita em 1857, é bastante fluida, ágil e consisa. Utilizando-se do ótimo mecanismo de narração das cenas, das marcas e rubricas das personagens, intercaladas com os diálogos – um formato explorado com primazia por Freire-Filho, em suas épicas montagens no Teatro Gláucio Gill, dentre elas: “A Mulher Carioca aos 22 anos” -, Resende se sai bem na tarefa de nos contar esta bonita história, da rica literatura de Flaubert, com riqueza de detalhes, e imagens, construídas diante de nossos olhos.

1_Madame Bovary_Crédito Milton Montenegro

Raquel Iantas tem muito boa atuação como Ema (Madame Bovary).

2_Madame Bovary_Crédito Milton Montenegro

Alcemar Vieira se reveza em várias personagens e tem ótima atuação.

O romance “Madame Bovary” conta a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico interiorano, tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao indissolúvel casamento ao qual a protagonista se sente presa. Emma, cada vez mais angustiada e frustrada, busca no adultério uma forma de encontrar a liberdade e a felicidade. Apesar da intensa procura de uma vida digna, dificilmente consegue sentir-se satisfeita com o que é e o que tem. A direção de Rafaela Amado e Bruno Lara Resende tira ótimo proveito do espaço cênico, utilizando-se também do expediente de coxias aparentes, – recurso muito usado também por Freire Filho- , uma grande mesa com rodinhas e bancos – concebidas por Marcelo Lipiani -, que se transformam em todo o ambiente e objetos, por onde os atores, com exceção de Raquel Iantas – que vive apenas a personagem central Ema (Madame) Bovary – , interpretam e narram com bastante desenvoltura suas diversas personagens. Todos se saem muito bem (Raquel Iantas, Joelson Medeiros, Alcemar Vieira, Lourival Prudêncio e Vilma Mello), e imprimem uma atuação bem definida e precisa.

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Em montagem despojada Rafalela Amado e Bruno Lara Resende, auxiiiado por grandes nomes do teatro, realizam uma bonita encenação

4_Madame Bovary_Crédito Milton Montenegro

A cenografia de Marcelo Lipiani é composta de uma grande mesa e alguns bancos.

A concepção geral de “Madame Bovary” é bastante coesa, dialoga muito bem com todos os itens que compõem o espetáculo: a delicada luz de Renato Machado, os figurinos elegantes e muito funcionais de Patricia Lambert, a linda trilha sonora de Antonio Saraiva, e a precisa direção de movimento de Marcia Rubin. Cercado de uma competente equipe de nomes já consagrados – que souberam acrescentar o seu melhor, sem sobrepujarem uns aos outros -, o espetáculo “Madame Bovary” consegue manter um padrão alto de encenação.


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