Madrigal Para Um Poeta Vivo

Filme inaugurou a competição da Mostra Aurora na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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27 de janeiro de 2018

Curioso notar logo na 21ª edição da Mostra de Tiradentes, cujo tema foi cunhado como “Chamado Realista”, e ainda mais se considerando dentro de um espectro tido como ‘realidade’, que a maioria dos filmes selecionados, na verdade, evoca certa força lúdica e fabular para catalisar a realidade. Seria metaforicamente como olhos que não poderiam enxergar sem óculos especiais, cujo grau pode distorcer para uns ou cair como uma luva para outros. Ainda que três filmes de Mostras diferentes tenham focado no mesmo tipo de lentes norteadoras. Cada uma dessas três obras acompanha uma personalidade verídica que vai ser documentada sob um microscópio. E ao mesmo tempo que esta captura do momento distinto de três personagens seja objetiva e baseada em veracidades, também é subjetivo a partir da entrega do imaginário documental para acompanhar a abstração de pensamento dos personagens centrais, de mãos dadas com os quais acompanhamos a história. Estamos falando dos filmes “Fernando” de Igor Angelkorte, Julia Arani e Paula Vilela, “Inaudito” de Gregorio Gananian e “Madrigal para Um Poeta Vivo” de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho.

“Madrigal Para um Poeta Vivo” de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho foi o primeiro filme inédito competindo na Mostra Aurora da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes. E o sujeito documentado é o mesmo protagonista do curta anterior dirigido pela mesma dupla e que havia concorrido na Mostra Foco de Curtas em Tiradentes no ano passado, “Ferroada”. Acontece que o curta tinha excelentes qualidades, e trazia muitas das imagens que aqui estão contidas no longa também, dando certa sensação de déjà vu. Mas, então, por que transformar num longa o que já havia dado certo como curta? Bem, o curta já havia tido uma catarse bem grande ao revelar em seu final que o protagonista, Tico, havia falecido após a composição do filme, e não pôde ver a concretização do projeto. Porém, muito mais havia sido filmado com ele de material bruto, e disto adveio a ideia de transpor para um longa.

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O que faz um curta valer a ampliação para se tornar um longa-metragem? Será que o estofo alcança um embasamento que justifique? A dupla de cineastas acrescentou entrevistas e encenações ao longa, para além das que o curta tinha, como procurando testemunhos de amigos e parentes, bem como a inserção dramatúrgica de uma adaptação teatral circense de um texto de Plínio Marcos que seria um ídolo para Tico. O problema é que esta preferência de Tico só aparece no final, e antes disso, até o meio da projeção, a encenação no circo vestindo Tico de palhaço pelo texto de Plínio parece forçada e deslocada. Além deste fator, o próprio Tico insiste com a equipe do filme, que aparece em cena, que não se considera um ator e estaria longe de querer arriscar, ainda que eles tentem estimulá-lo à coragem de concretizar este sonho, o que infelizmente acaba tirando um pouco a força cênica do restante do filme que já dava certo no curta antes dos excessos.

Até mesmo a interpretação do ator Renan Rovida que dava certo também no curta, encenando como se fosse um dos amigos íntimos de Tico em quem se espelharia a esperança de futuro ao ler as obras dele, aqui parece ficar sobrando, além de quebrar a eficiência do acordo dramatúrgico de que não estaríamos vendo ali um ator, Renan, e sim um amigo de fato. O que se esvazia ao colocarem os dois vestidos de palhaço para o texto de Plínio.

Por fim, as entrevistas também parecem um pouco engessadas, como se cobrissem uma trilha de migalhas da construção da personalidade de Tico através do olhar de terceiros quando na verdade o próprio Tico era um ermitão mais isolado e que se autodefinia muito bem por conta própria. Ele e seus livros e escritos, os quais até que são lidos em cena para lhe dar sobrevida e ênfase no lirismo do título escolhido para o longa que mantêm de forma metafísica sua chama acesa: “Madrigal para Um Poeta Vivo”.