“Madrigal para Um Poeta Vivo”, “Fernando” e “Inaudito”

Três filmes em sintonia, três soluções diferenciadas

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26 de janeiro de 2018

Curioso notar logo na 21ª edição da Mostra de Tiradentes, cujo tema foi cunhado como “Chamado Realista”, e ainda mais se considerando dentro de um espectro tido como ‘realidade’, que a maioria dos filmes selecionados, na verdade, evoca certa força lúdica e fabular para catalisar a realidade. Seria metaforicamente como olhos que não poderiam enxergar sem óculos especiais, cujo grau pode distorcer para uns ou cair como uma luva para outros. Ainda que três filmes de Mostras diferentes tenham focado no mesmo tipo de lentes norteadoras. Cada uma dessas três obras acompanha uma personalidade verídica que vai ser documentada sob um microscópio. E ao mesmo tempo que esta captura do momento distinto de três personagens seja objetiva e baseada em veracidades, também é subjetivo a partir da entrega do imaginário documental para acompanhar a abstração de pensamento dos personagens centrais, de mãos dadas com os quais acompanhamos a história. Estamos falando dos filmes “Fernando” de Igor Angelkorte, Julia Arani e Paula Vilela, “Inaudito” de Gregorio Gananian e “Madrigal para Um Poeta Vivo” de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho.

“Fernando” de Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela já havia sido conferido pelo Almanaque Virtual no 6° Olhar de Cinema em Curitiba/2017, e talvez seja o mais afetuoso dos três filmes citados. Acompanhando um casal homoafetivo de dois senhores de idade, a possibilidade de filmar estes seres como personagens centrais de uma narrativa cinematográfica dá a chance de desinvisibilizar e ressignificar uma história que talvez sem isso não viesse à luz. Um dos diretores, o também ator Igor Angelkorte, informa inclusive que seu personagem central, Fernando, já foi seu preparador de papéis e de muitos colegas de profissão, além de ter educado muitas crianças por meio das artes para que se realizassem melhor na vida como um todo. As artes podem salvar. E são as artes nas grandes e pequenas coisas que guiam a vida cotidiana do personagem. Tudo o que ele faz. De certo modo, até pela relação com seu companheiro em casa, é permeado por uma extrema complexidade em sua simplicidade doce, apesar de o roteiro dar mais subjetiva ao próprio Fernando do que ao companheiro.

Estes atravessamentos de soslaio, como de sexualidade e raça por parte do casal interracial, não necessariamente se preocupam em se autorreconhecer como questões afirmativas, apesar de que nem precisariam fazê-lo como tal: Ao existirem em tela, apenas pelo espaço que ocupam, já estão fazendo uma declaração nas telas. Porém, como o foco é bem mais no protagonista do que no companheiro, talvez fique faltando um pouco de pluralidade subjetiva que poderia ser melhor aproveitada, como no maravilhoso “Esse Amor que Nos Consome” de Allan Ribeiro. Neste, um resultado bastante equilibrado e feliz, também de um casal interracial do meio das artes, se fazia dividir a narrativa e os pontos de vista através de ambos parceiros, um o diretor artístico e outro o coreógrafo de uma Companhia de Dança que faz de um imóvel desutilizado na Lapa sua ocupação de resistência artística. O conteúdo político é claro e evidente, mesmo sem precisar ser pronunciado. Afinal, durante o filme eles enfrentam processos e pressões de despejo da casa a que eles estão dando função social e liberdade de comportamento social, como uma pequena utopia que abraça todos os dançarinos com quem trabalham.

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“Fernando” é lírico e também resiste em sua pequena vivência pacífica, nas praias de Niteroi ou nas rodas de samba da Lapa. Com uma câmera de fluxo, como se os três diretores soubessem onde deixá-la ligada e para onde apontar até que ocorra algo ímpar, os personagens vão simplesmente existindo. Mas é na cena final que alcança a bela catarse que justifica escolher e focar neste personagem magnético que é Fernando: um jogo de tabuleiro entre ele e seu companheiro de modo a exemplificar que nossas pequenas existências se tocam e são sentidas, mesmo que à distância e por afinidade de afetos.

Já no segundo filme, “Inaudito” de Gregorio Gananian, outro concorrendo na Mostra Olhos Livres, talvez tenhamos um dos melhores exemplares que aterrissaram em Tiradentes este ano com esta temática: o filme segue o músico Alexander Gordin, ou simplesmente Lanny Gordin, importante guitarrista brasileiro que já gravou com Gal Costa, Caetano Veloso, Jards Macalé e etc. Com uma das melhores fotografias do Festival inteiro, não apenas por ser bonita como também diegética, as imagens conseguem materializar em força tangível a imagem visual da música do retratado. Especialmente pelo próprio possuir caminhos e embrenhamentos da mente muito peculiares a ele mesmo, uma pessoa ímpar de alma pura, cujo trabalho de vida não se pretende decifrado neste filme como uma receita de bolo, mas sim sentido e absorvido.

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Lanny é uma figura excêntrica. E, para combinar, também teve uma vida excêntrica. Nasceu na China e foi criado no Brasil, fato que o filme desenvolve de forma acertada embarcando o biografado em uma viagem pelos dois continentes. Como o processo psíquico de recordação do passado e de transmissão das memórias para o presente se dá através de suas composições, começamos a ver a fusão destas experiências de acordo com que entramos na psiquê dele e suas músicas ganham formas nos cenários e fotografia do filme, assinada por Toni Nogueira. Extremamente criativo, o trabalho de enquadramento, luz e cores de Toni se dá no campo do imaginário, podendo as formas e silhuetas urbanas tomarem ritmo ou semântica de partitura musical, como quando algumas sequências começam a brincar com camadas de tinta que se pintam sobrepostas umas às outras.

Cada parte do filme é guiada pelo próprio Lanny e um de seus ensinamentos como se fossem versículos de um livro sagrado do mestre musical. E ao mesmo tempo a orientação mística de ordem bastante oriental, mais ligada ao espírito do que à matéria, vai fazendo com que se acesse o subconsciente do espectador, como num processo de hipnose, onde adentram alguns números musicais como um estudo mais do personagem do que de sua obra. A famosa tabula rasa, ou tábua em branco, de onde podem surgir novas fontes de ideias a partir do desapego de todas as fórmulas e noções pré-concebidas. Uma técnica que sugere a livre conexão de técnicas e a espontaneidade e improvisação, mas com o uso da experiência no subconsciente. — neste sentido o uso de tintas, cores e luzes para criar uma identificação com o espectador de fato surte efeito, ainda que os artistas que lidam com as tintas não precisassem explicar verbalmente cada etapa da arte que estão metaforizando à luz da música do amigo.

Ao mesmo tempo, Lanny possui um senso de humor único, e inclusive gera alguns sorrisos cúmplices em quem aceita o convite para embarcar na jornada com ele. Poderia ser encarado, neste momento, como certa condescendência do filme ou mesmo um pouco de exploração da ingenuidade da condição especial de Lanny, da idade e saúde dele, de modo a que o exotificasse. Porém, a narração do guitarrista segue todo o desenvolvimento da projeção, não deixando de se permear em subjetividade o tempo todo. Até mesmo sem querer empregando mais de um final ao filme, que aparenta se encerrar algumas vezes. Ainda assim, nada que diminua o lirismo, pois até mesmo a repetição de finais pode ser encarado como a rima de um refrão que constrói um clímax musicado até mesmo na montagem. Com certeza o melhor dos três.

Enfim, temos “Madrigal Para um Poeta Vivo” de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho, que foi o primeiro filme inédito competindo na Mostra Aurora da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes. E o sujeito documentado é o mesmo protagonista do curta anterior dirigido pela mesma dupla e que havia concorrido na Mostra Foco de Curtas em Tiradentes no ano passado, “Ferroada”. Acontece que o curta tinha excelentes qualidades, e trazia muitas das imagens que aqui estão contidas no longa também, dando certa sensação de déjà vu. Mas, então, por que transformar num longa o que já havia dado certo como curta? Bem, o curta já havia tido uma catarse bem grande ao revelar em seu final que o protagonista, Tico, havia falecido após a composição do filme, e não pôde ver a concretização do projeto. Porém, muito mais havia sido filmado com ele de material bruto, e disto adveio a ideia de transpor para um longa.

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O que faz um curta valer a ampliação para se tornar um longa-metragem? Será que o estofo alcança um embasamento que justifique? A dupla de cineastas acrescentou entrevistas e encenações ao longa, para além das que o curta tinha, como procurando testemunhos de amigos e parentes, bem como a inserção dramatúrgica de uma adaptação teatral circense de um texto de Plínio Marcos que seria um ídolo para Tico. O problema é que esta preferência de Tico só aparece no final, e antes disso, até o meio da projeção, a encenação no circo vestindo Tico de palhaço pelo texto de Plínio parece forçada e deslocada. Além deste fator, o próprio Tico insiste com a equipe do filme, que aparece em cena, que não se considera um ator e estaria longe de querer arriscar, ainda que eles tentem estimulá-lo à coragem de concretizar este sonho, o que infelizmente acaba tirando um pouco a força cênica do restante do filme que já dava certo no curta antes dos excessos.

Até mesmo a interpretação do ator Renan Rovida que dava certo também no curta, encenando como se fosse um dos amigos íntimos de Tico em quem se espelharia a esperança de futuro ao ler as obras dele, aqui parece ficar sobrando, além de quebrar a eficiência do acordo dramatúrgico de que não estaríamos vendo ali um ator, Renan, e sim um amigo de fato. O que se esvazia ao colocarem os dois vestidos de palhaço para o texto de Plínio.

Por fim, as entrevistas também parecem um pouco engessadas, como se cobrissem uma trilha de migalhas da construção da personalidade de Tico através do olhar de terceiros quando na verdade o próprio Tico era um ermitão mais isolado e que se autodefinia muito bem por conta própria. Ele e seus livros e escritos, os quais até que são lidos em cena para lhe dar sobrevida e ênfase no lirismo do título escolhido para o longa que mantêm de forma metafísica sua chama acesa: “Madrigal para Um Poeta Vivo”.