Mãe Negra

Homenagem ou Denúncia...?

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08 de junho de 2018

Existem filmes com assumida intenção de chocar. De impactar pelo mero impacto provocado. Claro, por trás disso pode haver muitas formas de penetrar no espectador uma vez que as defesas são abaixadas quando é pego fora de guarda. Mas há de se sopesar uma balança imaginária da quantidade de sofrimento que um cineasta pretende impor à sua plateia versus a potência da catarse provocada por choque infligido. “Mãe Preta” de Khalik Allah fala sobre a relação que o diretor vai estabelecer na busca pelas raízes de sua mãe na Jamaica, uma vez que ele cresceu nos EUA, distante de suas próprias origens.

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E fará isso se utilizando da própria experiência vasta como fotógrafo, e seu olhar apurado, para misturar cenas filmadas pelo próprio (aliás, um verdadeiro tour de force, pois muitas funções cinematográficas foram acumuladas pelo diretor/fotógrafo/montador…), além de imagens de arquivo e pós-produção no tratamento visual de modo a fazer com que às vezes não se saiba qual é qual… se digital ou originalmente película ou mesmo vídeo. E acrescenta uma narração em off de vários depoentes diferentes, não necessariamente casando com a imagem das respectivas pessoas que aparecem na tela. Pessoas comuns; nativas. Na teoria, sendo ele, o diretor, única identidade em deslocamento ali… quer dizer, ele e os espectadores para os quais Khalik dirige seu petardo.

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Começa, portanto, uma jornada documental de experimentação, abrindo mão de quase qualquer linearidade, ao trilhar apenas uma única âncora: como fala de raízes e de sua mãe, divide o filme em três capítulos, três trimestres de uma gestação, como se estivesse renascendo através do filme. Conceito interessantíssimo, porém execução estranhamente escruciante, e isto de forma consciente. O diretor nos leva numa jornada sofrida através da sucessão de códigos e simbologias que escolhe tecer sobre a Jamaica que turistas renegam. Prostitutas, moradores de rua, representantes religiosos e inúmeros outros transeuntes e locais. A ênfase é no que desestabilize, como passar sua câmera através de personagens exóticos ou debilitados, como deficientes físicos com deformidades de nascença ou aleijamentos por acidentes… Tanto quanto se utiliza de relações abusivas historicamente como entre colonizador e colonizado, europeu e africano, clientes e prostitutas e etc para traçar atalhos de denúncia em relação aos vícios de linguagem com que a Jamaica possa ser vista de forma equivocada ou deturpada.

Até aí, a plateia pode já ter visto muitos filmes que se utilizam de crueza ou imagens pesadas para sofrer uma catarse junto com o filme. Para receber uma denúncia ou ser denunciada… Porém, há momentos em que a narrativa se perde na dúvida se o diretor está criticando os colonizadores que distorceram as maravilhas naturais da Jamaica, ou se estaria ele mesmo criticando a Jamaica. Se denunciaria os maus tratos, ou seria condescendente com ele ao não mostrar quase nenhum olhar diferenciado ou pontos positivos, ainda mais sendo o próprio cineasta ele mesmo um descendente da terra ora em trânsito como estrangeiro. Poderia ele fazer todas as afirmações que faz com a câmera? Ou são apenas seus personagens que o estão fazendo? Como ele os selecionou? Como escolheu quem entrava e quem saía de cena durante a montagem? Para qual tipo de público fez seu filme? Teriam os próprios jamaicanos assistido o filme e se reconhecido por inteiro ali? Teria sido uma denúncia de exportação para apenas estrangeiros assistirem e assumirem também sua parcela de culpa nos maus tratos colonizatórios que de certa forma predominam até hoje mundialmente nas leis de mercado?

São muitas perguntas, mas sem o cineasta presente para argumentar. Talvez tenha sido sua intenção. Um filme extremamente abstrato e sofrido para cada um digerir livremente. O problema está apenas em talvez ter pesado demais a mão de modo a que não se consiga digerir qual foi de fato sua intenção original…que começara em simplesmente homenagear suas raízes maternas — e logo as representações femininas são estritamente as mais confrontadas e ainda condicionadas aos piores grilhões a serem libertos. Homenagem ou crítica? Homenagem e crítica?