Mãe Só Há Uma

Mais uma análise de um dos filmes do ano à luz da ressignificação política do cinema com sua retirada da competição para o Oscar

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27 de agosto de 2016

O novo filme de Anna Muylaert Mãe só há uma (2016) promove uma experiência estética em vários níveis. Como já salientado em outras críticas, a obra fala do Brasil contemporâneo e sua indefinição política. Para muitos brasileiros, a situação do personagem principal do filme, Pierre/Felipe, espelha, em certa medida, a sua: estamos sendo obrigados a conviver com um governo interino, não escolhido por nós, assim como Pierre/Felipe vê sua vida virada de cabeça para baixo a partir do momento em que sua família biológica descobre seu paradeiro e o obriga a ir viver com ela. Vivemos, como Pierre, uma situação de enorme indefinição e revolta.

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Há, porém, outro aspecto do filme de Muylaert que merece nossa atenção: o seu esforço em não manipular as emoções dos espectadores, em não dizer o que ele ou ela deve sentir sobre este ou aquele personagem. Para o espectador brasileiro, a estética não manipuladora de Muylaert traz um grande alívio. Infelizmente, a falta de comprometimento com a profundidade da reflexão, com a elevação do senso crítico, com a apresentação dos diversos pontos de vista sobre um assunto, têm sido a tônica das produções artísticas e jornalísticas da televisão e do cinema brasileiros. A imagem, mesmo a jornalística, já nos chega manipulada pelo maniqueísmo condenatório e emotivista. Dessa maneira, a mídia priva o espectador brasileiro da sua atividade interpretativa, da atividade de avaliação da informação. O filme de Muylaert faz justamente o contrário.

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Quem vai a esse filme esperando um drama, no qual mães e filhos se desesperam com situações de separação e reencontro, sairá do cinema decepcionado. A mãe postiça não chora desesperada quando a polícia vem prendê-la, mas trata da organização da casa na sua ausência e das medidas necessárias para que os filhos fiquem bem. Tão pouco o reencontro dos filhos com seus pais biológicos é cercado de festa e choro. As relações humanas na vida ‘real’ são muito mais complexas do que as apresentadas pela mídia nacional. Amar não é simples e fácil. Um filho não vai automaticamente amar sua mãe biológica depois de 16 anos de separação. Um filho não vai passar a amar simplesmente por saber que tal pessoa, totalmente desconhecida até então, é sua mãe verdadeira. O amor e o afeto são frutos de convivência, de situações vividas juntos, de cuidado. A construção do afeto só começa a surgir quando é possível estabelecer um laço de cumplicidade, como a cena final do filme nos mostra.

Nós precisamos de mais filmes como os de Muylaert, pois estamos intoxicados com imagens maniqueístas, manipuladas, principalmente, pela televisão. Filmes que nos ensinem o valor de silêncio, o valor do conflito.

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A estética de Muylaert lembra, por um lado, a técnica interpretativa de Bertolt Brecht, chamada de ‘épica’ e, por outro, a poesia imagética dos filmes iranianos. Brecht ansiava por fazer um teatro no qual as emoções dos espectadores não eram manipuladas, isto é, um teatro no qual a platéia saísse da sessão sem estar impregnada por uma interpretação dominante do espetáculo, em geral, a interpretação ou do dramaturgo ou do diretor. Como deve ser difícil sair para jantar com uma família que você acaba de conhecer, com pais e irmãos que você não conhecia antes. Não há o que falar. Não há papo possível. A situação é constrangedora e seria artificial demais querer propor outra coisa. Assim como, no jantar com toda família é absurdo pedir que o jovem Pierre toque violão na frente de pessoas totalmente desconhecidas para ele. Seria ingênuo supor um desabrochar espontâneo de um amor arrebatador nessas situações, mas isso é justamente o que ocorre em grande parte da teledramaturgia brasileira. No filme Nahid da cineasta iraniana Ida Panahandeh, encontramos a mesma preocupação em não definir de imediato o caráter dos personagens. Nahid a personagem principal não pretende ser uma santa, imune a críticas, mas um ser de carne e osso que defende com unhas e garras seu filho e que, ao mesmo tempo, não quer abrir mão do direito a um novo relacionamento amoroso. Como o filme mostra muito bem, na sociedade iraniana é muito difícil para uma mulher separada manter a guarda do filho nestas circunstâncias.

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Tanto Panahandeh quanto Muylaert estão preocupadas em descrever a realidade social de seus países sem ‘carregar’ o roteiro, a direção de arte e a direção de atores, e a fotografia com julgamentos prévios acerca do caráter de seus personagens, em definir quem está com a razão e quem não. No fundo todo mundo está com a razão. Em algumas situações não é possível que todos saiam ganhando e o conflito é inevitável.

 


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