Mãe Só Há Uma

Anna Muylaert Só Há Uma: câmera prodigiosa ousando espaços de gênero e sexualidade fluida ante a liquefação familiar

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23 de julho de 2016

Após prêmios e consagração mundial com “Que Horas Ela Volta?” em 2015, qualquer cineasta poderia apostar em algo seguro, porém não Anna Muylaert. Um dos maiores nomes do cinema atual decidiu enveredar pelo risco e ousadia com seu novo “Mãe Só Há Uma”. E volveu seus enquadramentos e olhar artístico para a cromática moral mais rock and roll de seu primeiro longa-metragem arrebatador, “Durval Discos”, apesar de dar continuidade à evolução temática de seus filmes mais recentes. Ou seja, o deslocamento de novos lugares para a arcaica instituição familiar brasileira.

cena-do-filme-mae-so-ha-uma-da-diretora-anna-muylaert-1453407898704_956x500Se em “Que Horas Ela Volta?” Regina Casé encarnou a babá que vira segunda mãe do filho da patroa e se distancia da sua própria filha, agora Anna decidiu radicalizar, expandindo a noção jurídico-emocional de quem de fato é nossa família: Quem gera ou quem cria? Mas e se quem cria cometeu um crime? Na teoria, preservar a mente das crianças deveria ser prioridade, principalmente se a ética da educação dada aos filhos independe do crime que os pais cometeram. Mas são estas as melhores questões levantadas pela diretora, pois a sociedade tem ferramentas próprias para processar o criminoso à parte do destino dado aos menores ainda dependentes do sistema legal, e nem sempre o certo é justo e o errado injusto. Como seria de repente mudar tudo o que se acreditava e ser roubado da noção de identidade, sem saber a qual família pertencer, em uma metáfora do crescer e do conflito de gerações?

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Pra começar, Muylaert propõe um desafio metalinguístico com o título de seu filme, “Mãe Só Há Uma”, exigindo uma dupla catarse cênica de sua personagem-título, na pele de Dani Nefussi, nos dois papéis diferentes que encarna no roteiro, o que às vezes chega a passar despercebido, tamanha a delicadeza no desempenho da atriz. Isto para aproximar o que todas as mães deveriam ter em comum, o melhor interesse daqueles que acreditam ser seus filhos. Ao mesmo tempo, como Muylaert está também questionando esta posição familiar, ainda mais em tempos inconstantes de moral política fluida e desestabilização dos princípios basilares da sociedade, ela propositalmente dá a voz narrativa ao olhar do filho, e evita ao máximo direcionar a câmera à mãe, ou lhe cortando dos closes ou desfocando seu rosto e intenções. Não sabemos com o que ela trabalha, nem o que está fazendo quando some ou não está na mesma cena que o filho…

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Isto porque a confusão mental do adolescente é a prioridade, sendo através dele que o espectador receberá a história, e neste quesito a revelação segura do estreante Naomi Nero no papel de Pierre/Felipe segura e justifica a centralidade necessária. Sobrinho do ator Alexandre Nero, não apenas se encaixa nos planos livres da câmera na mão por qual opta a diretora de fotografia Bárbara Alvarez (“Whisky” e “Que Horas Ela Volta”), em contraste com a câmera no tripé típica dos trabalhos anteriores da cineasta, como acrescenta um novo elemento de desestabilização extremamente atual e que sequestra o filme oportunamente de supetão: a sexualidade fluida, tema que em muito adveio com as pesquisas do coautor do roteiro e também assistente de direção Marcelo Caetano. Em tempos de se falar tanto sobre equiparação de direitos de gênero e educação sexual nas escolas respeitando as diferenças, é com vibrante fulgor que Muylaert aproveita seu desde já personagem-cult, adolescente traumatizado num cabo-de-guerra emocional entre famílias, para transgredir socialmente com quaisquer amarras, autodeclarado com diversos protagonismos para além dos dois nomes próprios que ostenta. Veste-se com roupas tanto masculinas quanto femininas; assim como fica com garotas e garotos. Não quer mudar de sexo nem negar a si mesmo a chance de experimentar o mundo com suas próprias sensações, já que não pode confiar naquelas de que descendeu.

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Vale mencionar que o filme nasceu inspirado em uma história real, o “caso Pedrinho” sequestrado na década de 80? Talvez, mas a diretora transcende a necessidade de ser documental ou biográfica para criar em tom seco e reflexivo uma declaração dos novos tempos, sem precisar seguir qualquer veracidade à risca. Tanto que quaisquer imprecisões jurídicas retratadas em meio à polêmica inicial se esvaem justificadas pelo olhar narrativo sobre Pierre, que é só um adolescente no meio da tempestade e veria aquilo tudo de forma ingênua e errática. Muylaert realmente desenvolve sua linguagem cinematográfica, tanto em evitar sensacionalismos, ocultando ao máximo até a participação da imprensa no escândalo da época, quanto em evoluir o intimismo das relações entre personagens ao usar o ponto de vista de câmera como sinônimo de autorização para qual cômodo ela poderia entrar ou sair: através de portas ou janelas e grades, de dentro pra fora ou vice versa; como já usara bastante em “Que Horas Ela Volta?”. E demonstra elegância sensitiva em jamais permitir que a força gravitacional de seu protagonista multigênero esmoreça ante quaisquer posições, sejam escolares, amorosas ou de lazer; e é aí que agrega ao adicionar o meio-irmão menor, hétero e padronizado, no papel de Daniel Botelho, com o qual dialoga a juventude, o bullying, e o quanto o antigo papel esperado socialmente pode sofrer tanto quanto ou até mais do que os novos signos que nasceram para transgredir.

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Vale menção especial para as atuações contidas, porém autodesafiadoras para a gama de personagens já interpretados pelos gigantes em cena Matheus Nachtergaele, em papel feito sob medida, e Luciana Paes (de “Sinfonia da Necrópole”). “Mãe Só Há Uma” ganhou o prêmio Teddy da imprensa em temática LGBTS no último Festival de Berlim.

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