Mãe!

Yang e Yang: uma sociedade masculina às custas do feminino

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04 de novembro de 2017

Hoje mais cedo dois amigos críticos estavam debatendo a frase da Ministra Luislinda Valois, sendo que apenas um reconhecia o privilégio que nós homens brancos possuímos sim e que, mesmo quando não o utilizamos, consentimos que jamais se desconstrua um sistema opressivo e silencioso (às vezes até gritado, porém o maior perigo está ainda no que é aceito através do não-dito) que permita idiossincrasias como os debates gerados hoje pela frase da Ministra coincidentemente dos Direitos Humanos.

DA 7 mãe Aronofsky

O fato é que temos um privilégio sim. E “Mãe!” de Darren Aronofsky tem a coragem de se pronunciar em relação a isso, mesmo sendo acusado de megalomaníaco pela pretensão revisionista da Bíblia e os conceitos de sagrado feminino e patriarcalismo. Nada novo no campo das ideias, já que Darren anda sendo acusado disso desde seus primeiros filmes, especialmente o rocambolesco “A Fonte da Vida”, o qual devo ser um dos únicos críticos do mundo a amar.

Surpreende muito um filme com tal valor de produção, e momentos extremamente complexos de se filmar (sobre os quais me debruçarei mais abaixo), sendo atacado tão deliberadamente como pior filme do ano. Podem chamá-lo de escalafobético ou até de esquizofrênico, mas “pior filme” é impensável para algo pensado com extrema precisão para incomodar e tensionar questões de gênero tão óbvias, que surpreende serem atacadas ao mero sinal de menção na sociedade. O fato é que a petulância em rever a história Criacionista através do poder de concepção da mulher, silenciado pela divinização constante do homem, tem vazão SIM. Vivemos a sociedade extremamente calcada nos preceitos de poder masculino quando grande parte da criação do mundo se deu às custas das mulheres. Apagamos o fato gestacional de dar “à luz” que só é possível através do matriarcado, mas aceitamos as várias idades das trevas geradas pela toxicidade masculina do patriarcado. Não estamos dizendo que se a sociedade tivesse se guiado pelo matriarcado teria sido melhor ou pior do que o patriarcado, mas ao menos teria a chance de ser diferente.

Mãe! Aronofsky

E ainda podemos ver os efeitos de séculos de vantagem masculina quando até hoje testemunho diferenças no tratamento de casais, inclusive comigo e com minha companheira. Pessoas que falam diante de ambos, mas olham apenas para mim. Ou respondem a uma pergunta que ela fez como se eu tivesse feito. Dão crédito a mim por algo dela, ou mesmo “ao casal” por méritos dos quais não participei. Sim. Quem nunca? Os homens brancos quase nunca. Quando passam por isso é por hierarquia entre os seus pares, com raras exceções que às vezes reproduzem o comportamento opressor.

Sem falar nas diferenças naturais que poderiam ser vistas apenas como personalidades distintas, porém há todo um estímulo de condicionamento do meio de usos e costumes para manter certas características com cada gênero à parte. Eu sou naturalmente e excessivamente sociável, ao ponto de poder me tornar às vezes invasivo, alienado ou mesmo castrador, ao que minha companheira é mais reservada e tímida, levando a que o contraste faça parecer com que o sociável que expõe sempre a palavra primeiro pareça inequivocamente ter a razão. Enquanto que a postura mais reservada, quando se pronuncia de forma contrária à do companheiro extrovertido, possa ser tida como suprimida ou mesmo desagradável. E se fizer se repetir para ser ouvida, ou elevar a voz ou sair do decoro módico esperado, pode soar como louca ou histérica, ambos papéis crucificados nas personagens femininas da história e no audiovisual — Vide a polêmica sobre a palavra Iracunda no Festival de Brasília. Sem falar que ao homem sempre se é estimulado exigir os louros de suas conquistas, e à mulher durante muito tempo foi relegado se contentar apenas em saber ter alcançado um grande feito, sem necessariamente acompanhar o devido reconhecimento público proporcional a isso. Porque seria “errado” querer o contrário.

Um escritor taciturno (Javier Bardem) joga sua jovem esposa (Jennifer Lawrence) num show de horrores em "mãe!'

A verdade é que o filme “Mãe!” é extremamente estético conceitualmente, até mesmo cruelmente opressor em sua (est)ética. Decide assumidamente seguir a câmera rente ao rosto da protagonista interpretada por Jennifer Lawrence, num movimento peristáltico de micromovimentações, ainda que as expressões da personagem permaneçam compassivas e condescendentes em contradição a uma força gravitacional que escolhe seguir uma personagem impedida de ter subjetividade. A câmera não lhe dá protagonismo, e sim aprisionamento. E não importa o quando a cena se afaste dela em raros momentos que enxergue um pouco mais de seu corpo fragmentado, retorna na montagem a seu rosto e à janela de sua alma, independente de onde tenha se encerrado o último corte, como uma assombração das mise-en-scènes passadas. Sem falar que a maquiagem e cabelo dela reforçam a ataraxia como uma personagem de porcelana, com uma face impecável de vidro e madeixas que parecem uma peruca.

Não temos dúvida, trata-se de um filme sobre a criação. A recriação. Sobre quem é objeto e quem é sujeito na arte criativa, tema mais do que em voga hoje em dia. Mas isso é evidente. Um casal mora em casa isolada para que o marido (interpretado por Javier Bardem) possa escrever livremente. Mas enquanto ele sofre de crise criativa, é sua esposa (J. Lawrence) quem reforma a casa e propicia as condições ideiais para a liberdade criativa dele. Nossa…, a história do mundo. Até que um casal de estranhos chega e é extremamente bem recebido pelo marido, mesmo acuando e assediando a esposa. Lógico, o personagem de Bardem é um escritor famoso, um “deus” da literatura que atrai fãs. Então, evidentemente ele “deve” ser o “senhor da casa”, e não ela. Deve-se obedecer a ele (em excelente trabalho de voz de Bardem)…, e não a ela. Mas essa é a parte da história que todos conhecem. Todos já viram isso. Então porque o mundo ainda tem tanta dificuldade em evoluir afora disso?

Ah, mas podem me tacar pedras e dizer: tudo isso era o óbvio. Não estamos falando nada de novo. Não?! Então o que será que incomodou tanto as pessoas neste filme? Este incômodo muito me interessa, faz parte de meus estudos no cinema. É digno de estudos mesmo. Até porque a primeira metade do filme não possui incômodos de fato a não ser a ausência de resposta para inúmeras perguntas levantadas. O não-dito incomoda. Na primeira metade o suspense todo está em não se saber de nada. Está na interpretação dos atores. Especialmente da dupla feminina formada pela enervante atuação contida de Lawrence, que demora séculos para começar a se colocar, e sofre continuamente oposição da personagem do impressionante retorno de Michelle Pfeiffer às grandes produções. Aliás, só de se escalar a atriz veterana para um papel dionísico como este já seria um feito notável por si só. Ela está arrebatadora, além de sua carreira trazer mil camadas à escolha da persona adotada. Ela é a perfeita contraposição à ninfa de Lawrence, demonstrando as raízes do estímulo à competitividade entre as mulheres (vide a caracterização do ciúme e da inveja equivocadamente associados a Deusas de religiões politeístas como Hera esposa de Zeus na Grécia Antiga), diferente dos homens que naturalmente se unem para lutar. Até porque engana-se quem pensa que Pfeiffer seria a deusa ali e Lawrence uma Eva tentada pelo pecado da existência, quando na verdade é o inverso, com direito a dois filhos no melhor estilo Caim matou Abel para a personagem mais velha.

Aronofsky Mãe

Mas não é a primeira metade do filme que tanto causa desconforto por si só. Para alguns a primeira metade mal lhes toca. Ou é parte do problema, em construir uma tensão tão sutil que pareça subaproveitada. Já eu creio que a construção seja na medida para o aproveitamento excessivo da segunda metade. Estamos vendo inúmeros filmes esse ano que se desdobram de forma completamente diversa a partir da segunda metade. Aqui até filme de guerra vira sem sair daquela casa, ainda continuamente guiado pela câmera no rosto de Lawrence como principal combatente grávida (!) Onde já vimos um parto de um bebê ser tão catastroficamente representado em toda a sua dor de usurpação social que retira os direitos de uma mãe?!?! E isso ocorre todo dia. Era para incomodar mesmo, com aqueles ângulos extremamente fechados na mãe que está parindo. — Decisão arriscada em perder ângulos mais abertos do espetáculo que ocorre simultaneamente ao redor assim como na quase subjetiva câmera no ombro de “O Filho de Saul”. Aliás, “Mãe!” é filme de guerra com requintes de canibalismo. Algo esquizofrênico que pode não ser tão bem aceito aqui, ainda que devidamente aclamado na esquizofrenia alheia em obras cujo conteúdo talvez não seja tão radioativo quanto a forma, porém tão pretensiosamente alegórico quanto, como nos premiados “A Árvore da Vida” de Terrence Malick ou “A Origem” de Christopher Nolan. Portanto, sim, nós nos retroalimentamos antropofagicamente dos diversos campos de dominação que se apropriam da história alheia como se os vitoriosos apagassem os vencidos. Quem seriam vecedores e vencidos, afinal? Especialmente se a vitória imoral der razão ao derrotado? Só porque um lado foi dado como perdedor da batalha não quer dizer que deixe de existir ou até não esteja em maior número. Número cuja maioria esmagadora quando se percebesse vencedor moral poderia destronar os decadentes e moribundos monarcas mantidos pela inércia de rejeição às mudanças.

Sim, o filme “Mãe!” fala de misoginia, relações abusivas, hierarquia social, sujeitos e objetos, mas isso não quer dizer que o filme é misógino ou abusivo. Só porque seus personagens cometem misoginias e abusos, não quer dizer que seja esta a intenção de seu diretor. Sua personagem é a origem de tudo, a Mãe Natureza. E, mesmo sendo a protagonista do elenco, é propositadamente coadjuvante de sua própria história. Objeto antes de se perceber sujeito. E torna, por comparação, até mesmo um dos maiores atores de nossa geração, Javier Bardem, em um personagem na maior parte do tempo tolhido pela câmera como um monstro débil e vão, sem o estofo de Lawrence para consubstanciá-lo. A metáfora de seus personagens, o marido escritor com crise criativa e a esposa conivente se ocupando do lar, atravessando a atuação na vida real: ele um Deus vazio e ultrapassado, e ela uma Deusa que não se permite reconhecer nem metade dos poderes que ainda pode despertar. Ou seja, e ainda se perguntam por que houve tanta rejeição a este filme…?!

Talvez a parte mais cruel de fato do filme esteja em seu extracampo, onde o diretor/roteirista Darren Aronofsky faz suas protagonistas sofrerem o pão que o Diabo amassou, apenas para entendermos como a sociedade oprime, às custas de suas próprias companheiras na vida real. Pois assim como sua ex-esposa Rachel Weisz era a musa sofredora de “A Fonte da Vida”, agora Jennifer Lawrence é a atual namorada que protagoniza o calvário em cena. Mas os tempos cada vez mais sensacionalistas, colocando a vida privada numa vitrine excessivamente pública, jamais perdoariam o fato de um cineasta fazer sua cara metade sofrer sadicamente apenas pelo bel prazer de sua tirania atrás das câmeras — como pode já ter sido o caso de várias musas-esposas de velhos cânones. Ao invés disso, ao menos este crítico humildemente acredita que o diretor se utilizou do extracampo de sua intimidade descortinada publicamente para expiar seu próprio mito. Um mito opressor como criador e Deus de suas próprias histórias, numa desconstrução da figura dominante de privilégios que exibe em toda sua deformidade desconfortável e monstruosamente radioativa. Não pode ser a toa nem inconscientemente que alguém colocasse um espelho diante de suas maiores distorções, e as de Hollywood junto, pois quantos nomes tidos como mestres já não estiveram e ainda permanecem nesta posição. Talvez o maior defeito do filme seja apenas ainda fazer essa história SOBRE uma mulher, já que utiliza-se da intimidade diegética do extracampo personificada na vida mútua pessoal, ao invés de fazer COM A SUA MULHER, coassinando a autoralidade plural como sujeito também atrás das câmeras, não mais apenas como um objeto da mesma forma que desejava denunciar…

E isso jamais vai mudar enquanto nós homens brancos privilegiados não começarmos a nos desconstruir voluntariamente e coletivamente. O filme fala sobre recriar essa história da humanidade justamente para mostrar o quão absurda a apropriação masculina é e ninguém fica apontando dedos por aí no sistema maior, como foi a inversão de acusações em relação à Ministra Valois. Todo mundo apontou dedo para ela….mas ninguém quase parou para falar da culpa branca e masculina que oprime e permite situações de inversão como essa. Enquanto violências como essa existirem até no Congresso que deveria nos representar, ou como Bolsonaro usar Ustra contra Dilma em pleno Golpe Parlamentar, filmes como este continuarão a fazer denúncias tão incômodas.