Maia- A lenda da menina água

Trupe do Experimento apresenta um de seus projetos mais descompassados em sua interessante trajetória de 10 anos

por

18 de maio de 2016

Partindo de uma junção de lendas brasileiras, Marco dos Anjos escreveu – em processo colaborativo com o elenco -, e dirigiu a peça “Maia- A lenda da menina água”, em cartaz no Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal no Rio de Janeiro, aos sábados e domingos às 16h. “Maia” conta a história de Maia, uma menina criada em uma família ribeirinha, que tem por sustento a pesca, ofício de seu pai. Como resultado da poluição excessiva dos homens, o rio que beira sua casa não tem mais peixes, o que faz com que seu pai tenha que se afastar cada vez mais para garantir o alimento da família. Em uma noite de lua cheia, o rio seca de forma abrupta e sem explicações. Maia, achando ver a imagem do pai no meio do rio seco, corre em sua direção e quando se dá conta está longe de casa e no meio de uma aventura, junto a personagens do folclore nacional, para trazer as águas do rio de volta. O texto de Marco dos Anjos prende durante meia hora o desenrolar da trama, onde não acontece nada de muito útil a dramaturgia e a história, a não ser o fato de Maia encontrar algum lixo na água. Uma água também situada em lugar nenhum, pois o pai de Maia busca um sotaque nordestino, assim como a mãe, sendo que Maia não tem sotaque algum. Assim, as próximas meia horas são escolhidas para apresentar de forma simplista várias personagens mitológicas de nosso imaginário popular coletivo, e da mitologia e lendas brasileiras: a Iara, o Boto, a Lua, o Uirapuru e a Vitória-Régia. Juntos, eles se unem para que as águas do rio, que haviam secado, voltem a correr.

Maia a Lenda da Menina água (Maia e Jaci) Foto Marco dos Anjos (1)

O espetáculo apresenta diversas formas cênicas para contar a história, sendo a máscara da Lua, a mais apropriada à cena. Foto Marco dos Anjos.

Iara (foto Lúcia Tavares)

A personagem Iara parece ter saído do filme “Avatar”. Foto Marco dos Anjos.

A direção de dos Anjos cria assim um ambiente sombrio e por demais escuro para poder contar este drama folclórico. Exagerando demais na frontalidade da cena, e com isso comprometendo os desenhos e as marcas cênicas, que aliás se resumem a ficar basicamente no centro da cena e com muitos movimentos aleatórios. Como por exemplo na movimentação do Boto, da Iara, da Lua e do Uirapuru. Sendo a personagem Maia a mais prejudicada, seja por esta opção de marca, como também no estereótipo de uma criança infantiloide. O cenário e adereços da Trupe do Experimento é satisfatório, apesar de ser também muito cru e escuro, e não pontuar com clareza os seus formatos e de onde são as suas origens. Dá-se uma ideia de uma grande mistura carnavalizada de materiais. As máscaras também da Trupe do Experimento, sob a orientação de Flavia Lopes e Marise Nogueira, são muito misturadas e carecem de um bom conceito definido. A Iara parece uma personagem saída do filme “Avatar” (?!), o Boto parece uma mascara de Boto em miniatura, a Lua se aproxima um pouco de um universo mágico e o Uirapuru é de um marrom muito chapado que não traduz as cores do pássaro e também se aproxima do filme “Avatar”. No que diz respeito ao figurino, sob orientação de Carol Barros, e executado também pela Trupe do Experimento, ele cria uma justaposição aleatória de materiais diversos e indefinidos conceitualmente. Todos eles são muito excessivos e apresentam muitas informações, muito mais no que diz respeito à materiais encontrados na região, do que propriamente, ou sobre o universo da personagem propriamente dito. A iluminação também de Marco dos Anjos é absolutamente escura, com uma quantidade mínima de refletores – que deixam os atores as escuras -, com efeitos que se repetem a todo o tempo, e angulando também os refletores frontais em lateralidade, provocando inúmeros campos de sombras de imagens das personagens, uma nas outras, quando o papel dos refletores laterais são para dar volume e preenchimento.A direção de movimento de Fabrício Ligeiro, ou não foi bem executada, ou se limitou a fazer os atores se balançarem para um lado e outro. A trilha sonora tímida de Daniel Carneiro é um ponto mais positivo do trabalho, inspiradas em sons de mata, junto com o bom canto dos atores em coro, e da atriz Maria Penna Firme. Conforme já dito, o elenco da Trupe do Experimento apresenta um trabalho muito irregular de interpretação, onde cada um caminha em uma direção, e com muitas deficiências em suas composições.

final (foto Lúcia Tavares)

O elenco em cena de “Maia- A lenda da menina água”. Foto Marco dos Anjos.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 2