Makuru – Um Musical de Ninar

Preciosa encenação minimalista de puro encantamento folclórico

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24 de agosto de 2018

Makuru – Um Musical de Ninar, é o espetáculo infantil que leva a assinatura de Tim Rescala e José Mauro Brant. Esteve em sua terceira temporada no Espaço Furnas Cultural em Botafogo, no Rio de Janeiro. Ele reúne música ao vivo e personagens folclóricos para contar a história de uma família que enfrenta vários desafios sempre que tenta colocar para dormir o pequeno Makuru. A família, no entanto, não sabe que seres mágicos vivem sobre o telhado da casa – a Murucututu, a Tutu e o João Pestana – e que tentam, a todo custo, escapar do esquecimento. O espetáculo, em um formato de contação de histórias luxuoso, é amplamente cercado por qualidades e excelências. A começar pela engenhosa construção do rico texto por Brant que nos apresenta personagens de grande impacto mítico. Personagens que simbolizam e perpetuam a nossa ancestralidade e lendas brasileiras e portuguesas, carregadas de força poética e filosófica como o Murucututu, que é o nome indígena, de origem tupi, Murucutu’tu, dado a uma coruja das florestas e das noites brasileiras que figura em nossas canções de ninar. Para os povos da região amazônica a coruja é uma das formas assumidas por Anandu, divindade que rege um dos ciclos da terra, do céu e do homem. Também conhecida como “o grande mistério”, ou o Tutu, que é um animal sem forma e negro que aparece nas cantigas de ninar. Não é descrito nem há a menor alusão a um detalhe físico. Sabe-se apenas que, à sua simples menção, as crianças fecham os olhos e procuram adormecer sob o império do medo. Sendo o mais delicado deles o João Pestana, que é uma entidade mítica do sono, e é um personagem da mitologia portuguesa. O João Pestana é o sono a chegar, um ser muito tímido e assustadiço que aparece devagar quando está tudo silencioso e foge ao mínimo barulho. Quando ele chega, os olhos se fecham, as pestanas se juntam, por isso, nenhuma criança o viu. É equivalente ao Homem de Areia alemão e ao Sandman inglês, que jogam areia nos olhos dos meninos para que eles adormeçam; e também ao personagem de Andersen Ole Lukeoje ou Olavo Fecha Olho que, ao invés de areia, joga doce de leite nos olhos das crianças para fazê-las dormir. O João Pestana é sempre aguardado com ansiedade, ao contrário de outras entidades assustadoras do sono. É tema frequente nas canções de ninar e nas rimas infantis: “João Pestana, João Pestana, faz dormir o menino na cama.”

Tim Rescala - diretor musical / compositor Carol Lobato - figurinista Mona Magalhães - visagista Marcia Vilella - assessora de imprensa Fabrício Polido - Produtor George Prates - assistente de produção e direção Cacau Gondomar - produtora

 

Tim Rescala - diretor musical / compositor Carol Lobato - figurinista Mona Magalhães - visagista Marcia Vilella - assessora de imprensa Fabrício Polido - Produtor George Prates - assistente de produção e direção Cacau Gondomar - produtora

Com essa riqueza de pesquisa e texto, podemos acompanhar com muita atenção, também na direção do mesmo Brant, o universo, os anseios e o desejo das personagens, com destaque para a dor de João Pestana, que teme o esquecimento. Tudo isso em uma preciosa encenação minimalista de puro encantamento folclórico. Partindo de um conto Tupi-Guarani, “Makaru” e com libreto de Tim Rescala; nos leva a diversos mundos de encantamento. Recheado de metáforas e de mundos paralelos, podemos voar por questões mais profundas da existência, a partir da maternidade e do nascimento do primeiro filho. A proposta do espetáculo dá um enorme salto qualitativo em tocar e se aprofundar em temas delicados, sem perder tempo algum com explicações didáticas ou construção de cenas banais como seria o dia a dia de quem é mãe e pai pela primeira vez! Um grande mérito de um dos mais atuantes e criativos artistas de nosso melhor Teatro para a Infância e Juventude carioca, José Mauro Brant. Brant criou um espaço mágico, recheado de delicadezas, e que fazem elevar a nossa alma, principalmente pelo formato de opereta, onde o espetáculo é cantado suavemente pelo quarteto de atores, que passam por várias fases da vida, e por viagens de conhecimentos. Do nascimento do primeiro filho até o início do envelhecimento. Tim Rescala, é o responsável pela lindíssima direção musical, música original e arranjos, executados pelos músicos Paula Martins (flauta), Débora Cheyne (viola), Cássia Menezes (violoncelo), Tibor Fittel (acordeon), que trazem à cena referências musicais populares e eruditas. Natália Lana cria um cenário delicado, de encaixe virtual, onde temos a metade da casa em miniatura detalhadíssima, em uma bela “casinha de bonecas”, e a outra parte emoldura o fundo de cena, em tamanho real. Tudo em ferro branco, que nos leva também a flutuar, pela sua leveza e paz.  Ricardo e Renato Villarouca, são os responsáveis pelos vídeos de animação que compõem e complementam toda a cenografia da peça. Suas imagens são também muito delicadas e que dialogam muito bem com um mundo onírico e fantástico. Bruno Dante cria os expressivos, e não realistas, bonecos e adereços, com a sua peculiaridade singular. Os figurinos de Carol Lobato são também expressivos e de bom gosto, trabalhando com a ideia de um figurino com uma cabeça, que se posta, acima da cabeça do ator para a criação dos seres mitológicos. Completam a equipe artística a sempre competente Sueli Guerra e a boa maquiagem de Mona Magalhães. Os atores/narradores/cantores Ester Elias, Janaína Azevedo, José Mauro Brant e Ester Freitas, que se revezam em dois personagens cada um, apresentam suas especificidades e diferenças. Potencializando nas atrizes as suas belas e robustas vozes no contar cantado; e no ator José Mauro Brant, a sua delicadeza no contar do pai, e na construção do sofrimento ao esquecimento de sua personagem João Pestana.

Makuru – Um Musical de Ninar é uma bonita e requintada contação, que mantêm viva, em sua simplicidade e delicadeza, a nossa ancestralidade e tradição oral.

Tim Rescala - diretor musical / compositor Carol Lobato - figurinista Mona Magalhães - visagista Marcia Vilella - assessora de imprensa Fabrício Polido - Produtor George Prates - assistente de produção e direção Cacau Gondomar - produtora

[Foto 01] José Mauro Brant, neste momento como o pai, e o seu filho Makuru – em boneco de Bruno Dante. Foto Marian Starosta.

[Foto 02] Ester Elias e José Mauro Brant, como os pais de Makuru.  Foto Marian Starosta.

[Foto 03] Janaína Azevedo como a avó e seu neto Makuru. Foto Marian Starosta.

 

Ficha técnica

Texto, letras e direção: José Mauro Brant

Direção musical, música original e arranjos: Tim Rescala

Elenco: Ester Elias, Janaína Azevedo, José Mauro Brant e Ester Freitas

Músicos: Paula Martins (flauta), Débora Cheyne (viola), Cássia Menezes (violoncelo), Tibor Fittel (acordeon)

Direção de movimento e coreografia: Sueli Guerra

Cenário: Natália Lana

Figurino: Carol Lobato

Bonecos e Adereços: Bruno Dante

Iluminação: Paulo César Medeiros

Ilustrações: Rosinha

Vídeo Animação: Ricardo e Renato Villarouca

Maquiagem: Mona Magalhães

Preparação Vocal: Janaína Azevedo e Marcello Sader

Pianista Ensaiador: Tibor Fittel

Designer de Som: Andrea Zeni

Assistente de Direção: George Luís

Assistente de Figurino: Gabi Castro

Assistente de Confecção de Bonecos: Cleyton Diirr

Consultor de Prosódia: Armando Nascimento Rosa

Costureira: Ateliê das Meninas e Sueli Gerhardt

Cenoténico: Andre Salles & Equipe

Costureira de Cenário: Nice Tramontim

Equipe de Montagem de Luz: Luiza Ventura e Vilmar Olos

Operador de Som: Joyce Santiago

Operador de Luz: Pedro Carneiro

Operador de Vídeo: Debora Amorim

Contrarregra: Roberto Kalpakian

Camareiro: José Roberto

Fotos: Marian Starosta

Design Gráfico: Marcos Corrêa

Assessoria de Imprensa: Márcia Vilella e Letícia Reitberger (Target Assessoria de Comunicação)

Produção Executiva: George Luís e Silvana Didonet

Direção de Produção: Cacau Gondomar e Fabrício Polido

Realização: Belazarte Realizações Artísticas

 

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4