Mamãe, mamãe, mamãe

“A infância é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano” Jean Piaget

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03 de novembro de 2020

Diante das quase duzentas opções presentes no catálogo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, que excepcionalmente acontecerá online por causa da pandemia de Covid-19, pode ser que o longa-metragem argentino Mamá, Mamá, Mamápasse despercebido. Dirigido e roteirizado pela jovem diretora argentina Sol BerruezoPichon-Rivière, o filme conta a história de uma família formada unicamente por mulheresvivendo juntasdepois de um grande trauma. Após receber Menção Especial do Júri da seção GenerationKplus no Festival de Berlim, a poética produção merece destaque na programação.

Com uma estética que se assemelha ao filme As Virgens Suicidaslançado em 1999e dirigido por Sofia Coppola, Mamá, Mamá, Mamápossuiuma narrativa cujo desenvolvimento ocorre em uma casa isolada e de atmosfera onírica. A completa ausência de figuras masculinas é facilmente percebida – à exceção de dois trabalhadores que realizam um serviço no local – ou seja, somos apresentados a um ambiente completamente feminino em tela.

Um trágico acontecimento marca o início do longa-metragem: um acidente resulta na morte de uma das crianças,afogada na piscina da casa. A mãe, ao “mergulhar” em um estado de profundo luto e depressão após o ocorrido, conta com a ajuda de sua irmã para cuidar do local e também de sua outra filha. Desta forma a casa passa a ser habitada por um grupo de meninas de diversas idades e suas respectivas mães. Porém, com as adultas ausentes e ocupadas com suas próprias questões, as garotas criam um universo próprio e juntas passam por diferentes marcos do amadurecimento feminino, como a descoberta da sexualidade, a primeira menstruação e a consciência dos perigos diários pelas quais uma mulher pode passar.

A efemeridade da vida e o conceito de mortalidade também são apresentadosprematuramente às meninas após o acidente.Como consequência do trauma,as crianças são obrigadas a enxergarem suas mães como seres humanosque são, e que ao lidarem com suas dores podem tornar-se incapazes de zelar por elas, como de fato acontece. Importante frisar que para crianças em processo de amadurecimento, enxergar a inefabilidade de seus próprios pais é algo bastante complexo, e a diretora faz um bom trabalho ao abordar o tema, com diversas cenas e usos de câmera que deixam a irmã “sobrevivente” à margem da falta de atenção e ausência de sua mãe, traumatizada.

A produção entrega cenas com imagens etéreas belíssimas, para citar um exemplo asequência que envolve uma catarse e bichinhos de pelúcia arremessados através de um muro. A cenografia também merece destaque com a preciosa escolha de todos os objetos e detalhes que uma casa habitada só por figuras femininas de diversas idades pode ter: revistas, maquiagem, brinquedos, roupas, livros, fotos, cores, música, etc.

Concluindo, pode-se dizer que Sol BerruezoPichon-Rivière coloca seu espectador na posição de voyeur daquelas mulheres ao acompanhar o dia-a-dia delas, estejam elas sofrendo ou amadurecendo. Ao final do longa a sensação deixada é que assistimos a um sonho com alguns toques de nostalgia e uma boa carga de tristeza também. A diretora estreante entrega, sem dúvidas, um competente trabalho.

Os: texto elaborado com colaboração do crítico Iuri Souza.