Mamãe

Álamo Facó transforma dignamente a sua grande perda em pura arte

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27 de janeiro de 2016

Desnudar, é um verbo que caminha junto com teatro, em paralelo, em consonância ao ato de atuar. Constantemente temos que vestir os nus, os nus de nós mesmos. Ficamos nus, sem pele, e logo nos vestimos, trocamos de pele e uma nova vida surge, ou um pequeno esboço, ou um bom rascunho do que é o real para nós, e ficcional para a plateia, se faz. Se torna vivo. Pulsante. Em “Mamãe”, em cartaz no Espaço Municipal Cultural Sergio Porto, Álamo Facó funde verdade cênica, com “verdade real” e faz um tocante libelo em homenagem aos últimos momentos de vida de sua mãe, acometida por um tumor na cabeça. Depois da arquiteta Marpe Facó receber um diagnóstico de um tumor cerebral, em 2010, Álamo Facó vivenciou 100 dias de uma verdadeira jornada emocional. Sempre ao seu lado, o ator e dramaturgo acompanhou em detalhes o tratamento, a luta e o dia a dia de sua mãe. Após seu falecimento, mergulhou em um processo de criação que chamou de “A Síntese do Relevante”, de onde nasceu o monólogo “Mamãe”.

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Álamo Facó, em cena de “Mamãe”, transforma dignamente a sua grande perda em pura arte. Foto de Ana Alexandrino.

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A concepção cênica/instalação de Bia Junqueira repete muitos conceitos já utilizados no teatro contemporâneo. Foto de Ana Alexandrino.

Concebido pelo próprio Facó, o texto é muito objetivo, e construído de forma muito lúcida e lógica. Sem conter uma linha melodramática ou piegas, que seja. Toda a narração da história pelo próprio Facó é feita com grande naturalidade, distanciamento e completa lucidez hercúlea – diante de drama tão pessoal. Dividindo com equilíbrio textos da história e comentários sobre a própria encenação. A direção de Cesar Augusto e também de Facó, valorizou justamente este momento especial que viveu o ator Álamo Facó – que atua no espetáculo com sinceríssima e digníssima entrega, onde o texto dá voz à personagem Marta que, perdendo suas faculdades, começa a expandir sua consciência a limites inesperados. Facó funciona como o cérebro dela, entre variações do consciente e dos limites de vivência do amor entre mãe e filho. Um lindo gesto ao retratar uma história verídica de sua estimada mãe. Louvável e tocante. Em relação aos elementos/instalação que compõem a cena – atribuídos a Bia Junqueira -, na verdade, eles até se tornam irrelevantes diante de tão forte gesto. Eles se apresentam mais como um complemento da encenação, e repetindo infelizmente algumas convenções já enraizadas no teatro contemporâneo: o uso de persianas prateadas para compor o ambiente, cadeiras de acrílico vermelhas, luz de néon vermelha e microfone. Ainda que no teatro se possa fazer tudo, como o próprio texto de Facó diz, esta estética utilizada tem sido bastante recorrente em dezenas de espetáculos contemporâneos, na mesma velocidade em que realizamos estes mesmos espetáculos. Essa velocidade precisa vir sempre repleta de reflexões acerca de nosso tempo e espaço nas artes cênicas.  Nossas escolhas são fundamentais para criamos todas as relações de nosso espetáculo. Mesmo que influenciado, em sua estética, por artistas como Sophie Callle, Lygia Clark e Bruce Nauman, e não optando por um quarto de hospital realista, a concepção cai na armadilha de repetir o usual neste tipo de teatro. O mesmo acontecendo com a luz de néon em profusão – o cilma hig tech -, o claro e escuro de Felipe Lourenço. Ainda que nada disso venha a interferir no emocionante e sincero relato/depoimento de Facó, que soube transformar dignamente a sua grande perda em pura arte.

 

Ficha Técnica

Texto e atuação: Álamo Facó

Direção: Álamo Facó e Cesar Augusto

Direção de produção: Carlos Grun

Direção de moviment: Luciana Brites

Direção Musical: Rodrigo Marçal

Cenário: Bia Junqueira

Luz: Felipe Lourenço

Trilha Sonora: Álamo Facó e Rodrigo Marçal

Direção Musical do Performer: Lan Lanh

Figurino: Ticiana Passos

Preparação Vocal: Sonia Dumont

Fotos: Julio Andrade, Ana Alexandrino e Miguel Pinheiro

Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

Projeto gráfico: Mary Paz

Produção e Realização: Bem Legal Produções e Álamo Facó

Colaboração Artística: Dandara Guerra, Fernando Eiras, Remo Trajano, Julio Andrade, Tamara Barreto, Lidoka Martuscelli, Andrucha Waddington, Lully Villar, Marina Viana, Victor Garcia Peralta, Cristina Flores e Renato Linhares

 

SERVIÇO

Local:  Espaço Municipal Cultural Sergio Porto (Rua Humaitá, 163 – Humaitá – entrada pela Rua Visconde Silva, sem nº, ao lado do posto Petrobras)

Texto e atuação: Álamo Facó

Categoria: Drama

Elenco: Álamo Facó

Reestreia:  09 de janeiro

Temporada: de sexta a domingo até 31 de janeiro de 2016

Horário:  de sexta a domingo às 20h30

Preço: R$ 40,00

Bilheteria: das 17h às 20h30 (21 2535-3856)

Duração: 70min

Classificação: 12 anos

 

 


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