Manchester à Beira-Mar

Mon Oncle made in USA

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13 de janeiro de 2017

É difícil se ver bons filmes que construam os alicerces narrativos sobre protagonistas que interpretem tios e sobrinhos. Não são arquétipos muito escolhidos como centrais, apenas coadjuvantes engraçados ou desestabilizadores, que chegam nas festas de família para estragar tudo. Talvez o mais famoso nesta seara tenha sido “Mon Oncle” do comediante francês Jacques Tati interpretando o próprio personagem-título. Mas num dos melhores filmes em língua inglesa a chegar nos cinemas brasileiros em 2017, “Manchester à Beira-Mar” de Kenneth Lonergan já é desde já um dos aproveitamentos mais criativos em termos dramáticos e de química entre personagens para o arquétipo de Tio e Sobrinho como condutores narrativos, e, o melhor, que os outros membros da família que deveriam ser os eixos gravitacionais em torno dos quais todos giram é que se tornam os desestabilizadores da relação.

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Em primeiro lugar pelo fato de, claro, tios e sobrinhos serem sempre filhos, irmãos ou mesmo pais de outrem, gerando uma interessante tensão entre a linha hereditária direta e a colateral. Aqui, o em geral automatizado Casey Affleck, que se apoia num estilo interpretativo de desprendimento dos personagens de modo a que pareça deixar lacunas intencionais (que poderiam ser interpretadas por alguns como preguiçosas), encontra finalmente o papel de sua vida, pois toda a presença taciturna e vaga encontra o momento perfeito de transformar seu protagonista num labirinto emocional que o espectador terá a maior satisfação em desvendar pelos caminhos do roteiro e da montagem. É a importância cênica juntando a fome com a vontade de comer do que se tinha a ser oferecido. Além de que o ator conseguiu uma química ímpar com seus colegas de elenco, provavelmente por escolhas de vivência do preparador de elenco, onde todos parecem que já se conheciam há décadas mesmo antes de começar a filmar, transformando o mergulho nesta família disfuncional em uma invasão de privacidade intimista, de diálogos sagazes e cortantes.

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Tudo começa, na verdade, com um arcabouço relativamente simples. O irmão do protagonista vem a falecer de uma doença congênita e lhe deixa em seu testamento a guarda do filho. Até aí, tudo bem, seria apenas mais um filme sobre convalescer do luto. Porém, o personagem do tio (Casey) tem sérios problemas em regressar para sua cidade natal, em segredos guardados a sete chaves que virão todos à tona, colocando-o na balança entre ficar pelo sobrinho que tem toda uma vida construída ali ou partir mais uma vez de forma autodestrutiva.

E é a partir daí que o prodigioso diretor/roteirista Kenneth Lonergan demonstra sua genialidade. Poderiam alegar que o forte do filme estaria unicamente em seu texto tão bem elaborado, roteiro este aliás indicado e laureado nesta temporada de prêmios, com diálogos que conseguem a proeza de extrair não apenas uma dramaturgia de doer na alma, de tantos traumas incutidos entre cada verbo e substantivo, como um inusitado humor que consegue ser complementar ao drama, dando-lhe pequenas agulhadas acupunturais, sem jamais ser desrespeitoso ao assunto sombrio sobre a morte e a perda. Todavia, o cineasta consegue demonstrar a imprescindibilidade de sua direção segura se fazendo presente em momentos cruciais, pela já elogiada direção de atores, advinda da sua experiência com teatro, já que este é apenas seu terceiro longa, como também na montagem fora de ordem cronológica, que consegue ir para o passado e presente de forma fluida e enriquecedora. O melhor exemplo é justamente o da leitura do testamento, que mistura todos os tempos de forma genial. Acrescentando-se a isso uma fotografia invernal e cinzenta cujo tempo está sempre fechado assim como a relação familiar em tela, tanto que a luz solar só começa a invadir os planos a partir das resoluções finais, e sem falar do mar presente no título que cerca a incomunicabilidade em Manchester como elemento de vida e ligação metafórica entre os personagens, através do barco pesqueiro escangalhado que os une em tentar consertar.

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E não para por aí. Há outro atributo crucial que não pode passar despercebido. O já referido humor ácido do filme contém uma vantagem para além do texto, pois cada tomada é prolongada para além dos diálogos para ampliar o tom de constrangimento que as frases causaram, ampliando o riso agridoce da plateia em se comover ao mesmo tempo que tira graça dos absurdos. Assim que aproveita o melhor da atuação cheia de lacunas do ator Casey Affleck, transformando os espaços vazios que ele provoca em mise-en-scène e espaços para o espectador preencher, e talvez por esta corajosa utilização vanguardista dos vazios para uma filmografia americana não acostumada com eles que o irmão mais talentoso cenicamente de Bem Affleck está ganhando todos os prêmios de atuação até agora, e deve ser o favorito para o Oscar. (Independente de Ben ser melhor diretor do que ator, isto é indiscutível).

Menção honrosa para o papel do sobrinho, na revelação do ator Lucas Hedge, que segura bem as pontas das lacunas deixadas por Casey e Lonergan, e cortando os diálogos do tio nas horas certas, com misto de autoconfiança e vulnerabilidade que seu personagem precisava. Mas, principalmente, a participação mais que especial de Michelle Williams, atriz tão generosa que já merecia um Oscar há um bom tempo, como com filmes tão desafiadores para uma atriz como “Entre o Amor e a Paixão” e “Namorados para Sempre”, e que em “Manchester à Beira-Mar” aceita um papel tão módico em tempo de projeção para ser o Coringa, a última carta na manga, que vai derrubar todo o castelo de cartas. Em uma única cena do filme, de implosão magistralmente construída, ela consegue dar um dos momentos mais dolorosos do ano, e somente por esta sequência já anda merecendo todas as indicações a que anda recebendo.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5