Manchester à Beira-Mar

Longe de ser apenas um entretenimento, “Manchester à Beira-Mar” surge como uma pequena obra-prima sobre o luto

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18 de outubro de 2016

Dizem que só conhecemos alguém de verdade quando vemos essa pessoa atravessar uma crise. Quando está submetida a situações de estresse, muitas vezes, as pessoas tendem a se comportarem de forma diferente do que fazem normalmente. Por isso, podemos extrair ângulos interessantes de um filme que opta por apresentar um protagonista enquanto esse sofre um processo de luto.

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O filme conta a história de Lee Chandler, uma espécie de faz-tudo do subúrbio de Boston. Em sua rotina vazia e solitária, Lee bebe cerveja no bar local e arruma confusão. Quando recebe a notícia da morte de seu irmão mais velho, Lee vê-se obrigado a voltar para Manchester e confrontar o seu passado.

Trata-se, em uma análise explícita, de um filme sobre a superação do luto e a dificuldade comum de expressar seus sentimentos. Lee é um personagem de poucas palavras, mais inclinado a conversar com seus punhos. Quando seu irmão sofre um ataque cardíaco, a sua força física torna-se inútil diante da necessidade de expressar dor e organizar seus sentimentos.

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O filme pode parecer ter uma história aparentemente simples, mas ele – assim como seu protagonista – conversa muito mais com imagens que com palavras. Enquanto vive sua pacata vida, o seu redor é repleto de céus cinzas e  neve. Enquanto dirige para sua cidade de origem, a câmera posiciona-se do lado externo do veículo, apontada para o rosto do motorista. O que vemos nessa cena, enquanto o carro avança, é a estrada ficando para trás. É uma representação clara que o filme começará a apontar seu foco para o passado. E, de fato, assim o faz, iniciando uma sequência de flashbacks que descortina o passado de Lee.

Não é só a direção enriquece a história do filme. O próprio roteiro, como disse, aparentemente simples, tem subtextos que podem escapar ao espectador mais casual. Um exemplo é o barco, deixado pelo irmão de Lee como herança. O barco é a clara representação do irmão morto. O barco tinha um problema no motor, o irmão tinha um problema crônico no coração. A decisão de vender ou de manter o barco, pode ser interpretada como a indecisão dos personagens em superar o luto.

O filme opta por uma linha narrativa não-cronológica, o que faz com que a curva dramática que acompanhamos seja diferente da curva dramática  dos personagens. Essa opção, além de tornar possível ao expectador surpreender-se com revelações do passado do protagonista além de extrair  momentos de humor mesmo em situações em que os personagens passam por uma situação dolorosa.

Essa análise não estaria completa se não falarmos do primoroso trabalho feito por todo elenco. Casey Affleck, irmão mais novo de Ben Affleck, faz um trabalho primoroso ao encarnar um protagonista absolutamente transparente para seu público, utilizando pouquíssimas palavras. Por meio de suas pausas e seus momentos de silêncio nos diálogos, conseguimos mergulhar na psique do personagem de forma orgânica, sem a necessidade de diálogos óbvios.

Todo elenco, em sua maioria encarnando personagens com problemas de expressar seus sentimentos, mostra-se hábil em comunicar-se através do silêncio. A exceção fica por conta da personagem de Michelle Williams que, apesar de pouco tempo de tela, mostra uma força ao descortinar a sua fragilidade.

Mais que contar uma história, trata-se de um filme de um filme que aprofunda imensamente em seus personagens. Longe de ser apenas um entretenimento, “Manchester à Beira-Mar” surge como uma pequena obra-prima sobre o luto.

 

 

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea )

Estados Unidos da América, 2016. 135 min.

De KENNETH LONERGAN

Com CASEY AFFLECK, MICHELLE WILLIAMS, KYLE CHANDLER, LUCAS HEDGES

Avaliação Gabriel Gaspar

Nota 5