Máquinas Mortais

Deus Ex Machinas Mortais

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10 de janeiro de 2019

“Máquinas Mortais” (“Mortal Engines”, no original, é um filme de aventura pós-apocalíptico de 2018 com pegada RPG à la steampunk (explico melhor o significado desta palavra mais abaixo), dirigido por Christian Rivers e com produção e roteiro de Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson (o trio por trás do sucesso “O Senhor dos Anéis” e do decepcionante “O Hobbit”). O longa-metragem adapta o romance homônimo de Philip Reeve, e conta no elenco com o ator-assinatura de Peter Jackson, Hugo Weaving (ator também da trilogia “Matrix” e de “V de Vingança”), além de elenco misturado de jovens mais desconhecidos do grande público e alguns veteranos, dentre eles Hera Hilmar (revelação de “Life in a Fishtank” e na série The Romanoff’s da Amazon), Robert Sheehan, Jihae, Ronan Raftery, Leila George, Patrick Malahide, and Stephen Lang (ator famoso como vilão de “Avatar” e que aqui faz apenas a voz de personagem em CGI).

A equipe pode parecer valorosa, com mil trabalhos de estima do público, mas infelizmente já vimos este filme antes…e, inclusive, melhor. O gênero steampunk ou Vapor Punk versa sobre uma ficção especulativa, dando ênfase a um suposto avanço futurista numa era com cara de vitoriana e de Revolução Industrial, mas com possantes máquinas voadoras. Não que sejam inúmeros trabalhos fora da literatura que adaptem este conceito, como uma incrível HQ com o nome simplesmente de “Steampunk” que jamais foi lançada no Brasil, criada pelo famoso desenhista Chris Bachalo. Nos games, a principal citação é “Final Fantasy”, especialmente aqui “Final Fantasy IX”, cujas cenas às vezes parecem copiadas quadro a quadro visualmente em “Máquinas Mortais”. Já no cinema, citaria em primeiríssimo lugar, a obra-prima “Castelo Animado” do gênio japonês da animação Hayao Miyazaki. Se você não viu até hoje esta ou outras obras dele, assista para ontem!

Não que um filme precise ser 100% original para ser bom, longe disso. Há muitas cópias ou homenagens ou meras coincidências tão bem feitas que se tornam quase tão boas quanto o que veio antes, vide produções gêmeas siamesas que tiveram o azar de ser lançadas em partos separados, como “FormiguinhaZ” e “Vida de Inseto”. Mas o caso de “Máquinas Mortais”, até por ser adaptado de um livro, reside entre a obra e quem adaptou. Existe uma lacuna enorme entre a proposta e a entrega. Até porque a exímia equipe responsável pelo projeto carrega alguns vícios de linguagem que, quando mal dosados, levam ao desequilíbrio das fórmulas — vide a derrocada entre “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.

Vamos começar pelo título desta crítica: “Deus Ex Machinas Mortais”, parafraseando o nome do filme. Deus ex Machina é uma expressão comumente apregoada a soluções estapafúrdias ou completamente sem embasamento que possam até contradizer o caminho narrativo do roteiro até então. Quanto mais absurdas, menos valor o roteiro terá, pois deixa de importar a construção evolutiva e tão somente respostas mágicas que solucionam algo imediato, mas que nada respondem de fato.

E “Máquinas Mortais” é toda construída nesta acepção. Não digo nem apenas como adaptação, ou melhor, condensação, do livro original, e sim pela própria montagem e decupagem, que parecem operar a subestimar a inteligência do espectador. Desde o coprotagonista exibir tudo o que o vilão precisa, apenas para introduzir a história de forma diegética também para o público, mas bem aberto igualmente aos invejosos personagens menores de plantão que levarão a informação danosa até o alto escalão… Até o tal “amuleto em forma de olho”, que é lembrado o tempo inteiro através de flashbacks e desenhos pelas paredes na direção de arte, e que subitamente guarda em seu interior a solução para o filme inteirinho, sem nenhum esforço. Sem nenhum passo a mais. Só ele já bastava e teria solucionado tudo desde o princípio.

Existe sim estofo em contextualização deste universo, evidentemente, como aludir à mitologia grega com a Caixa de Pandora ou tentar travar uma reflexão filosófica como com o que os personagens denominam de “Darwinismo municipal” (uma lei de sobrevivência, onde subsiste o Município mais forte), e o movimento libertário “antitracionista” (sobre os que são contrários às cidades que se movimentam de forma predatória a engolfar outras cidades menores). Porém tudo se resume a uma miscelânea frágil e difusa que acaba resultando em algo raso que anula a tentativa de embasamento referencial.

Mas não pára por aí. Tudo o que se propõe é esvaziado. Os efeitos visuais até que bem feitos para criar verdadeiras cidades em movimento como se fossem carros gigantescos, caçando uns aos outros na terra e no ar à la Mad Max, deixam de esmiuçar ou maravilhar as potencialidades desta tecnologia logo no princípio, quando as lojas da praça comercial no centro da cidade se retraem para entrar em modo de guerra. Depois disso, os detalhes que poderiam humanizar a cidade para o espectador são esquecidos. Você não sabe como as pessoas vivem ali. Não vê seus quartos, ou como comem… As cidades-máquinas gigantes que deveriam fascinar viram carcaças sem emoção. Então você não sente se uma é destruída ou não… Até mesmo para a direção de arte e técnicos de efeitos o trabalho passa a ser uma repetição por engradecimento dos cenários e saturação da informação na tela. Detalhes já foram mostrados no cinema com mais êxito, como já mencionei a pintura à mão do brilhante “Castelo Animado”, tanto quanto posso até citar filmes inferiores, mas satisfatórios como Stardust – O Mistério da Estrela e etc.

Outra proposta não alcançada é o trabalho com os artistas. Quase nenhum é desenvolvido a contento para além de arquétipos rasos, bem como os personagens geralmente numerosos de elencos de aventura e que costumam ser lembrados mais por anedotas ou situações marcantes que carregam seu carisma até o fim da narrativa — mas aqui nem isto ocorre. Quase todos esquecíveis. Uma pena, pois havia potencial ali para correr um pouco menos com o desencadeamento dos fatos ou volúpia em relatar demais, e apenas deixar algumas coisas pra imaginação e outras para serem respiradas junto com os personagens. — até porque um ponto bastante válido é a boa caracterização e figurinos deles. O filme parece uma coletânea decupada de outras obras, especialmente na sequência final que é a cópia da Estrela da Morte contra as naves de “Star Wars”. O personagem de Hugo Weaving chega até a quase citar nominalmente uma frase famosa da saga estelar.

Por último, eu realmente gostaria que acabassem com este resquício gasto e subutilizado da tecnologia 3D… Parece até que nos força a ter depressão em colocar os óculos e achar que somos míopes em falhar miseravelmente na missão de encontrar algum efeito 3D que valha, num investimento de milhões que não conseguimos nem conceber.

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