Margueritte

Ária estridente para um retrato irônico e trágico de nossa sociedade.

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20 de junho de 2016

Tendo como ponto de partida a história da cantora norte americana Florence Foster Jenkins, conhecida como a “diva do grito”, por não alcançar uma única nota corretamente, “Marguerite” (2015) toma um caminho diferente e levanta relevantes questões que passam por superestimação da arte, falsas aparências e os estragos que a carência pode provocar.

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O diretor Xavier Giannoli (também autor do roteiro) situa a ação na Paris dos anos 20, época de grande ebulição artística, antes de o mundo entrar em conflito com guerras e crises econômicas. Madame Marguerite Dumont (Catherine Frost) é uma duquesa que financia a música erudita através de saraus regados a champanhe, canapés e boas somas de dinheiro para aproveitadores de associações artísticas. O principal foco deste filme reside na construção da personagem principal, idealizada como alguém que apenas queria ser amada e reconhecida. A vantagem (ou desvantagem) é que madame é rica, muito rica e isso a impede de separar o joio do trigo, atraindo impostores e admiradores na mesma proporção. Esta carência é reforçada através dos personagens secundários como o mordomo Madelbus (Denis Mpunga) e o jornalista Lucien Beaumont (Sylvain Dieuaide) que igualmente buscam no olhar do outro, a validação de seu trabalho.

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A atriz Catherine Frost compõe um personagem de complexidade ímpar sem jamais cair na caricatura, nem depender de artifícios extras. Sua ferrenha disposição é traçada lentamente ganhando a identificação primária do público que entende sua convicção, mas percebe que é impossível aturar seus devaneios líricos. O canto esganiçado dos pavões que circundam os jardins do palacete serve de contraponto para a forma estridente da expressão de Marguerite, que na verdade não passa de um desesperado apelo de sua fragilidade abalada por um marido ausente, muito pouco interessado pelas artes em geral. O instinto de sobrevivência animal é usado como paralelo para a dissimulação humana denunciando a falsidade que aflora quando há interesses financeiros e pessoais.

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Assim como Marguerite, a duquesa; “Marguerite”, o filme, atende muito bem às necessidades de todo tipo de público, tanto aqueles que buscam um entretenimento descompromissado, como aqueles que enxergam um retrato irônico e trágico de nossa sociedade.

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Festival Varilux 2016

 

Marguerite (Marguerite)

França, República Tcheca, Bélgica, 2015. 129 min.

Direção: Xavier Giannoli

Com: Catherine Frot, André Marcon, Denis Mpunga, Michel Fau, Christa Théret, Sylvain Dieuaide


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