Marias

Documentário investiga o poder do feminino através da figura da Virgem Maria na América Latina

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17 de novembro de 2016

A Virgem Maria é uma figura religiosa bastante popular no Brasil e em outros países da América Latina, senão a mais popular. Não importa como é chamada – Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Caridade do Cobre, A Puríssima, Virgem da Candelária, Nossa Senhora de Guadalupe, Iemanjá – ou como sua imagem é representada: Maria carrega uma simbologia muito forte. Mãe de Jesus, filho de Deus, segundo a fé cristã, Maria é a representação do feminino e da mãe numa sociedade em que a mulher é, na maioria dos casos, a matriarca da família e o pai, ausente ou inexistente. A mulher é o pilar e o norte da maioria das famílias latinas, que depositam sua fé em Maria para que ela interceda junto a Deus, figura maior de quase todas as religiões, masculina – o que diz muito sobre o mundo e o machismo nele existente.

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Em busca de desvendar várias questões em torno da Virgem Maria e o poder do feminino, a diretora Joana Mariani viajou pelo Brasil, Cuba, México, Peru e Nicarágua observando festas das padroeiras de cada país e entrevistando pessoas de diferentes religiões e culturas, mas com a fé e o nome Maria em comum. O resultado é o documentário “Marias”, que marca a estreia de Mariani na direção de longas-metragens. O poder mariano, outro nome para o poder feminino encarnado por Maria, é o grande cerne do filme e é equiparado ao poder que a mulher possui dentro de si, o poder do amor que suporta as maiores adversidades, acolhe quem precisa e luta pelo que acredita. Neste ponto e na recorrência do nome Maria, “Marias” compartilha semelhanças com o documentário curta-metragem “Maria – A história das mulheres no Brasil” (2012), de Anaísa Toledo, que também tem “a mãe de todas as mães” citada durante entrevistas com mulheres chamadas Maria.

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Com roteiro de Mariani, o curta-metragem “Fé nas Marias”, dirigido por Fábio Ximba, Ale Eschenbach e Paula Trabulsi, é uma homenagem de Feltros Santa Fé a todas as mulheres e artesãs do Brasil e abre as sessões de “Marias” por todo o país. Narrado por Maria Fernanda Cândido, este curta animado é uma espécie de introdução ao documentário, mostrando diferentes imagens da Virgem Maria, feitas em feltro, que serão analisadas nele em seguida. Ao fugir do sentimentalismo, da tentativa de doutrinação e da propaganda religiosa, Mariani volta seu foco para as histórias pessoais de mulheres, alguns homens, e suas relações com a fé e a devoção a Nossa Senhora, além das particularidades culturais que a figura da Maria possui em cada país, que servem para aproximá-la mais das populações. Cada cultura dá um nome e celebra a crença em Maria a seu modo, mas uma coisa não muda: todas ofertam a ela o que têm de melhor, seja música, dança, alegria ou orações e oferendas. Se por um lado as questões do machismo entranhado na sociedade latina e da representatividade feminista por meio da Virgem Maria – que tem sua suposta virgindade questionada por uma das entrevistadas – não tenham sido desenvolvidas no documentário, o que teria elevado o longa a outro nível, por outro “Marias” cumpre muito bem o seu papel como retrato de fé e devoção a Nossa Senhora, que é um importante elemento da identidade latino-americana.

  • Curta-metragem “Fé nas Marias”

 

Marias

Brasil – 2016. 75 minutos.

Direção: Joana Mariani


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