Marjorie Prime

Memórias como xerox, cópias que vão desvanecendo

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17 de outubro de 2017

Não nos lembramos dos momentos que passamos, exatamente, apenas revisitamos a última vez que acessamos nossas recordações sobre aqueles momentos, as imagens deles que ficam em nossas mentes. As memórias são como xerox, cópias umas das outras cujos detalhes vão desvanecendo. Essa ideia é levantada por uma personagem em certo ponto do longa e evoca com precisão todo o exercício de recordação feito pelos personagens ao longo da projeção. Exercício que nos faz questionar: afinal, quem somos senão uma construção de memórias?

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Ao assistir Marjorie Prime é inevitável associar sua trama a outras duas obras recentes, o filme “Ela”, de Spike Jonze, que conta a história de um homem que se apaixona e começa um romance com a voz do seu sistema operacional, e o episódio “Volto Já”, da segunda temporada da série antológica “Black Mirror”, que traz uma mulher cujo marido morre repentinamente e, devido ao luto, adquire um sistema de inteligência artificial capaz de representar uma pessoa falecida, no comportamento e até fisicamente, estudando todos os registros dessa pessoa nas mídias sociais. O fascínio do ser humano pela tecnologia é antigo e é o que faz da ficção científica um gênero tão atraente e popular, principalmente no meio audiovisual com suas muitas possibilidades técnicas. E se há filmes que se aproveitam de um cenário futurístico para experimentar essas possibilidades, outros utilizam o mesmo contexto para investigar com mais cuidado a relação do homem com as novas tecnologias e consigo mesmo. Se Marjorie Prime se apresenta como uma ambiciosa ficção científica devido a sua trama principal, trazendo um futuro próximo com recriações holográficas de entes queridos falecidos programados para confortar aqueles que ficaram, ela progride para um conto sensível e intimista que gera muitas reflexões sobre memória, amor e perda.

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O longa é majoritariamente preenchido por diálogos expositivos filmados de forma a transmitir uma sessão de conversas em tempo real – que por vezes nos parecem um pouco ensaiadas, artificiais -, sem uma edição rítmica. As transições temporais são feitas de forma sutil e, ao mesmo tempo, brusca, conforme os personagens vão nos deixando e dando lugar às suas versões holográficas sem aviso, em um jogo de cena. Esses recursos de direção e montagem escolhidos pelo diretor Michael Almereyda e pela montadora Kathryn J. Schubert funcionam muito bem em grande parte pelas belíssimas interpretações de Lois Smith (Marjorie), Jon Hamm (Walter), Geena Davis (Tess) e Tim Robbins (Jon). Lois Smith reprisa no longa o papel que já havia feito na peça de teatro de Jordan Harrison, material de origem do longa, e entrega uma tocante performance. O holograma em uma versão mais jovem de seu falecido marido busca relembrá-la de várias passagens de seu longo relacionamento, uma vez que ela, em idade avançada e com a saúde debilitada, tem dificuldade de fazer isso por si mesma. A dinâmica entre humanos e holografias na busca por reconstituir as narrativas das vidas dos personagens em cena, nos permite ir conhecendo um pouco mais sobre quem eles são, como são vistos, seus medos e angústias. Os hologramas precisam que alguém os conte as histórias da pessoa que eles encarnam e vão aprendendo, gradativamente, através da observação, como parecer mais humanos. Sem as histórias, eles não são nada além de um eco visual. Uma possibilidade tecnológica que intriga ao sugerir que a morte não precisa ser, necessariamente, o fim, que se apresenta como uma opção incrivelmente sedutora diante da dor e do vazio da perda.

É interessante notar a falta de interesse do filme em se aprofundar na tecnologia utilizada na criação dos hologramas ou mesmo em mostrar através de objetos de cena, cenário e paleta de cores que a história se passa no futuro. O foco de Almereyda é inteiramente no aspecto humano, mesmo naqueles – os primes – que não o são de fato, dando tempo de tela e desenvolvimento para todos os seus personagens principais. As poucas cenas externas, que trazem uma praia e um dia chuvoso, por exemplo, nos remetem a uma ideia de algo natural e orgânico, bastante distante do conceito tecnológico futurista dos primes. Além disso, a constante mudança de primes e pessoas em conversas particulares nos possibilita um olhar multifacetado e pequenas surpresas. Podemos observar diferentes ângulos de uma mesma história, o que nos leva a tomar um tempo maior para reflexão sobre tudo o que é contado, ao invés de tirar conclusões apressadamente. Com uma abordagem bastante filosófica, a jornada emocional e racional em que Marjorie Prime nos leva em seus 99 minutos de duração nos deixa, ao final, com muitas perguntas e perdidos uma vez mais em memórias.