Marlina, Assassina em Quatro Atos

Curioso faroeste feminino

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26 de outubro de 2017

A 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua bastante interessante, agora com uma estética de faroeste sem perder o regionalismo na Indonésia do interior retratada na história, pois apesar das referências aos clássicos americanos e western spaghetti, a obra não tenta ser uma reprodução do gênero, e sim apenas um interessante flerte. “Marlina – Assassina em Quatro Atos” de Mouly Surya segue uma recém-viúva que por ser a única pessoa que restou na fazenda no alto cume isolado das montanhas, passa a ser cobrada por mercenários que desejam levar suas posses se aproveitando da situação…e dela. Só que a protagonista sabe se virar e prepara um plano de vingança.

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Esta premissa batida é desenvolvida de forma própria pela diretora que aplica um bom exercício estilístico desde a direção de arte à fotografia que se aproveita das panorâmicas de planos abertos e amplos para fazer uma espécie de revisão do deserto e do duelo ao pôr-do-sol clássicos. Cada capítulo é colocado de modo a desenvolver o núcleo principal e os coadjuvantes das subtramas paralelas, que quase roubam o show, como a jovem grávida e a mãe levando dois cavalos para cumprir com o dote para o filho poder casar. Percebe-se pelas personagens um forte grau de consciência afirmativa dos direitos das mulheres, e daí advém uma análise intrigante da escolha do cinema de gênero e da violência típica deste sistema para poder subverter o mundo usualmente misógino… Ou mesmo subverter o próprio público-alvo deste tipo de cinema, pois quem disse que não pode ser dirigido também igualmente para as mulheres tanto quanto para os homens.

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Decorrentes disso, quem espera banhos torrenciais de banho pode esquecer. Apesar de inicialmente o estilo poder aludir a filmes de Tarantino ou irmãos Coen, afasta-se deles na mesma medida, sem necessitar comparações. Utiliza-se de simbologias mais pontuais e cotidianas do universo feminino para verter a violência contra as mulheres de volta para os homens, usando ambientes domésticos como arma, há de exemplo a comida ou o quarto… Pode sem querer escorregar entre os capítulos 2 e 3, com um pouco de excesso narrativo que poderia ser um pouco enxugado ou aprofundado, mas recupera na quarta parte final, não pela violência, porém pelo jogo de cena e inversão de polaridades de forças. Uma experiência curiosa.

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