Marrocos em tons rubros

Coprodução Brasil e Argentina, o thriller 'Vermelho Sol' é uma das atrações mais esperadas do Festival de Marrakech

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28 de novembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Vai ter dobradinha de Brasil e Argentina na briga pelos prêmios do Festival de Marrakech de 2018, que inaugura sua maratona cinematográfica nesta sexta, com a projeção de “No portal da Eternidade”, de Julian Schnabel, com Willem Dafoe vivendo Van Gogh. O representante da dupla de rivais futebolísticos e cinéfilos da América do Sul é “Vermelho Sol” (“Rojo”), que foi uma sensação no Festival do Rio, no início do mês. Velho conhecido do público brasileiro por sucessos de Almodóvar como “Fale com ela” (2002) e “Julieta” (2016), além de ter participado de “Relatos selvagens” (2014), o argentino Darío Grandinetti empresta a austeridade que faz dele um dos mais disputados atores da cena teatral de Buenos Aires e de toda a indústria audiovisual de seu país a este thriller que se candidata a cult no cardápio do Marrocos. Há cerca de dois meses, o filme do hermano Benjamin Naishtat, fotografado pelo pernambucano Pedro Sotero (de “Aquarius”) deixou o Festival de San Sebastián, na Espanha, com um balde de prêmios. Benjamin levou a Concha de melhor direção; Sotero, a de melhor fotografia; e Dario, a de melhor ator. A projeção em Toronto também foi consagradora, com elogios sobretudo para uma apoteótica sequência de um eclipse, retratada em tons rubros.

“Há algo de atual neste projeto quando se pensa no atual estado da política brasileira e no futuro de vocês sob uma nova presidência. Há ecos de autoritarismo no meu filme. No cartaz argentino de ‘Rojo’ há uma frase: ‘Quando todos se calam, ninguém é inocente’, mostrando que há um elemento político de distorção no silêncio que pontua essa narrativa fotografada pelo Sotero com elementos dos filmes de Sideny Lumet, de Sam Peckinpah e de ‘A conversação’ de Coppola”, define Naishtat, em entrevista ao Almanaque Virtual. “Esbocei um olhar para as idiossincrasias do ódio que se manifestam no medo da classe média de perder o que tem. Existe uma transformação latente sob as aparências”.

Responsável pelo estonteante visual de “O som ao redor”, Pedro Sotero surpreende olhares aqui com a cena de um eclipse de uma vermelhidão entorpecente. “Houve muita conversa com Benjamin, que é um diretor muito objetivo em seus desejos. Ele me deu, além do roteiro, uma série de fotos de época que serviram de referência, numa pesquisa que nos levou a clássicos do cinema policial americano dos anos 1970”, diz Sotero.

Na tela, secura hiper-realista à moda Peckinpah e a explosão de vermelho que dá nome ao filme se manifestam nas transformações pelas quais a rotina do advogado Claudio (papel de Grandinetti, em inspiradíssima atuação) passa após uma acalorada (mas vaga) discussão em um restaurante. Há um freguês que ocupa a mesa sem pedir nada e ele reage. Daí estoura a trama. Estamos na Argentina dos anos 1970. E a briga, por conta do atendimento do garçom, revela sutilmente uma tensão política. Esta vai inflamar a narrativa quando Claudio visita uma casa que um amigo pretende comprar e vê sinais de violência e sangue no local. A presença de um detetive interessado em saber o rumo da vida de Claudio amplia a paranoia.  “A ideia era de que essa conjuntura política fosse entendida pela lógica do cinema policial”, diz Naishtat. “Nosso interesse era retratar o início do horror estatal, a ditadura, na Argentina”.

“Vermelho sol” concorre com “Las niñas bien”, de Alejandra Márquez Abella (México); “The load”, de Ognjen Glavonic (Sévia); “Diane”, de Kent Jones (EUA); “Red snow”, de Sayaka Kai (Japão), “Joy”, de Sudabeh Mortezai (Áustria); “Look at me”, de Nejib Belkhadi (Tunísia); “Vanishing days”, de Zhu Xin (China); “Une urgence ordinaire”, de Mohcine Besri (Marrocos); “Akasha”, de Hajooj Kuka (Sudão); “All good”, de Eva Trobish; e “La camarista”, de Lila Avilés (México). A essa programação em concurso soma-se uma seleção de títulos de peso em mostras internacionais mas que vão para Marrakech fora da disputa oficial, como o drama americano “Vida selvagem”, de Paul Dano, e a experiência narrativa colombiana “Pássaros de Verão”, de Ciro Guerra e Cristina Gallego. A atração mais esperada é “Green book – O Guia”, o favorito ao Oscar de 2019, com direção de Peter Farrelly.

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Quem vai julgar os concorrentes à Estrela de Ouro deste ano será um time formado por atrizes  (Dakota Johnson, Ileana D’Cruz), artistas visuais (Joana Hadjithomas), cineastas (Lynne Ramsay, Laurent Cantet, Tala Hadid e Michel Franco) e o ator alemão Daniel Brühl. A presidência desse júri foi confiada ao cineasta James Gray, que está finalizando o thriller espacial sci-fi “Ad Astra”, com Brad Pitt (e produção do brasileiro Rodrigo Teixeira).

Este ano, o Festival de Marrakech presta um tributo à prata da casa, homenageando o diretor marroquino Jillali Ferhati, consagrado na Europa desde os anos 1980 com filmes premiados em Cannes como “Bamboo brides”. Serão homenageadas ainda a diretora Agnès Varda e o ator Robert De Niro. Serão exibidas ainda versões restauradas de cults como “Os intocáveis” (1987), de Brian De Palma, e “Kundun” (1997), de Martin Scorsese, que passará por Marrakech para dar uma palestra sobre sua carreira.