Mary Shelley (Netflix)

Biografia mais impressionante que o filme

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08 de janeiro de 2019

“Mary Shelley” de 2017 é um longa-metragem de época dirigido por Haifaa al-Mansour (do fofo cult “O Sonho de Wadjda”) e escrito por Emma Jensen, disponível na #Netflix. A trama discorre sobre a vida da famosa escritora Mary Shelley, autora de livros como “Frankenstein ou O Prometeu Moderno”, considerado por muitos como a pedra fundamental da literatura moderna e também a primeira obra de ficção científica da história. Mary Shelley escreveu a história quando tinha apenas 19 anos, entre 1816 e 1817, e a obra foi primeiramente publicada em 1818, sem crédito para a autora na primeira edição.

Porém, apesar de a autora possuir uma trajetória incrível e fascinante de vida e de superações por si só, para além de ter sido filha de um casal igualmente imprescindível para a História, William Godwin e Mary Wollstonecraft (esta uma das maiores pioneiras do feminismo na literatura), o filme ancora toda esta nobre magnificência num pacote reducionista de romance clássico, uma história de amor amargurada, mas sem deixar de ser uma história de amor. Muito decepcionante o enfoque e desenvolvimento dados, com inúmeros arcos narrativos levianos e de rotina conjugal vista sob a égide do presente sobre um relacionamento pop com o poeta Percy Bysshe Shelley, um ególatra autocentrado que refletia bem a sua época e acabou inspirando um pouco a criação de “Frankenstein”. — apesar de que o pai de Shelley também seria crucial para entender o surgimento da criatura no imaginário da filha, como Mary demonstraria em outro romance seu, bem mais diretamente metafórico com passagens de sua vida: “Matilda”.

Porém, toda a construção do filme é pueril e rasa, até mesmo quando insere personagens que agregariam camadas bastante intrigantes como o famoso amigo do casal, o poeta Lord Byron, aqui retratado em sua versão “The Vampire Diaries”. Especialmente no retrato de sua época que empalidece perante o ego retratado dos sujeitos históricos. E a complexa relação dos pais de Mary em relação ao legado que deixaram para ela e a resposta da sociedade em relação a este legado é muito pouco explorada. Ainda assim, mesmo que o filme seja tão fraco, vale e muito conhecer melhor a história irresistível e incontornável desta família e, se o filme ao menos servir de aperitivo para mais, pelo menos já serviu ao seu propósito.

O elenco pouco inspirado conta com uma interpretação bastante verde de Elle Fanning como a personagem título, Douglas Booth como um Percy egresso da MTV, e ainda Maisie Williams, Bel Powley, e Ben Hardy.