Mascarados

Quem é o verdadeiro mascarado aqui?

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31 de janeiro de 2020

Apesar de a Mostra Aurora estar sendo bem morna aqui na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes este ano, com exceção do questionador e intenso doc “Cadê Edson?” de Dácia Ibiapina (por enquanto, o único vencedor possível), vale ressaltar destaques como também o interessante filme goiano “Mascarados” de Marcela e Henrique Borela que reflete quem de fato é mascarado ou não na pirâmide social do capital.

O filme começa com filmagens poderosas de uma imponente pedreira, com planos abertos e panorâmicas que demonstram o quão diminuídos podem ser os trabalhadores subalternizados naquele sistema opressor. Conforme somos introduzidos a cada um daqueles operários do sistema de moer gente, vamos também aprendendo que o mesmo equilíbrio de forças a subjugá-los pode ser igualmente o substrato político usado pelo governo local para manter a sociedade no cabresto… Tudo por causa da festa do Divino, típica do lugar, e cujas máscaras que dão título ao filme justificaram que o governo exigisse identificação de todos os cidadãos que fossem mascarados à Festa… Ou seja, um ato regulatório e discricionário de censura e repressão preventiva, como se não confiasse no próprio poder das tradições em detrimento da suposta “ordem e progresso” com que todos devam ser tijolos obedientes de uma construção de concreto. — não há lugar para o abstrato ou para sonhos.

Vale ressaltar que o presente crítico adora tanto dramaturgias de pedreira (vale ressaltar obras esteticamente possantes que já se utilizaram dessa estética como a obra-prima “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois” de Petrus Cariry), ou mesmo de dramaturgias de festas regionais para descortinar mazelas sociais (como o ótimo exemplar recente “Azougue Nazaré”, que demonstra na tessitura musical do maracatu atômico como transmissão geracional de tradições e resistência). Contudo, ficou faltando um pouco mais de investimento emocional em alguma das duas escolhas, fosse a da pedreira ou a da festa regional, para que se definisse melhor a pungência por sob as camadas da história, mesmo com ótimo intérpretes como Aristides de Sousa (Juninho), ator também do paradigmático “Arábia” de João Dumans e Affonso Uchôa (não à toa, este último é também o montador de “Mascarados”).

O desenvolvimento possui seus pontos altos, como o mestre da fabricação das máscaras típicas da Festa, cujos ensinamentos repassam muito do valor do trabalhador brasileiro como baluartes e guardiões da cultura e da ancestralidade, mesmo que o filme acabe perdendo um pouco da força dramatúrgica com que começou… TODAVIA, ainda assim, é a MELHOR FOTOGRAFIA nesta edição do Festival, assinada por Wilssa Esser (fotógrafa do novo clássio “Temporada” de André Novais, o qual vocês podem encontrar na #Netflix). Valendo ressaltar as monumentais cenas de explosões na pedreira e a penúltima sequência do filme (MUITO PODEROSA), numa correria de um dos protagonistas através de travelling dificílimo em meio à mata densa (pela qual estou perdidamente apaixonado e já quero making of de como foi feita). Já é minha aposta francamente favorita para o prêmio Helena Ignez de maior contribuição artística na 23° Mostra de Cinema de Tiradentes.

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