Masterclass com Laís Bodanzky no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Cineasta multipremiada ministra aula magna na última edição do Festival de Brasília

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10 de fevereiro de 2018

Masterclass com Laís Bodanzky, começando por agradecer o prazer em passar seu aniversário com o público aqui no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Mediação por João Paulo Procópio que começa perguntando como a história de Laís se cruza com a do Festival de Brasília, pois ate seu mais recente filme “Como Nossos Pais” teria se encaixado perfeitamente nesta edição. Assim como “Chega de Saudade” acabou na mostra em que competiu aqui convidando toda a plateia a dançar.

Berlinale 2017_Como Nossos Pais

Laís explica como sua história cruza a do Festival. Começou com curta, com vídeo onde se denominava camerawoman porque tinha definições diferentes do que era cinema e o que era vídeo. Queria muito filmar em película e fez “Cartão Vermelho” que ficou muito feliz de ter sido selecionado pelo Festival de Brasília. E gostaria de exibir um trecho, porque até hoje referenciam a este trabalho dela. Tinha 23 anos, na mostra Competitiva 35mm de 93.

Este curta tem tudo a ver com o que faz até hoje, mesmo que inconsciente. Até ali ela não reconhecia esta caligrafia, mas hoje enxerga. Leu um conto da Jane Malaquias e ficou encantada na época, estudando na FAAP durante o período. Mas hoje tem outro significado. Não tinha consciência em ser cineasta mulher, com autora literária mulher. Não foi o futebol por exemplo que a encantou na história. Mas a descoberta da sexualidade da menina e como ela era dura com os meninos para compensar.
Depois, para o próximo “O Canto dos Malditos” de Austregesilo Carrone Bueno e começou a adaptar seu primeiro longa com Luiz Luiz Roberto Bolognesi, seu grande parceiro, e na época havia lido que a lei não ia ser renovada e se desesperou.
Mas Sara Silveira e os irmãos Gullane já haviam auxiliado no primeiro curta. Parece simples mas deram segurança a ela como criadora e permanecem parceiros até hoje nesta forma colaborativa de dar força.
Sara deu roteiro do Bicho para Marco Miller que era produtor estrangeiro e perguntou se topava produzir enquanto finalizasse o filme lá na Itália (Laís nunca havia ido para Europa antes) e aceitou finalizar Bicho lá com todas as referências que fez de dever de casa, que ela queria mostrar que entendia de cinema pra ele confiar nela, mas ele disse que a referência que ele queria era a do curta dela. Deu força. Ela podia ser a si mesma. Esta frase a acompanha até hoje toda vez que começa projeto, que é sempre do zero. E ela sempre chora em todos os filmes porque é sempre visceral, ao mesmo tempo que bate insegurança de achar que talvez não toque a ninguém. Mas tem que saber o seu ponto de vista em primeiro lugar. Não é só na estreia de um filme, é pra vida toda.

Bicho de 7 Cabeças estreou aqui em 2000 e entrou em cartaz em 2001 e faz sentido até hoje pras pessoas que perguntam por ele. Também é um registro de uma linguagem. Como colocar numa cápsula do tempo quem somos nós hoje, como nos comportávamos e o que ouvíamos. Por isso memória e acervos são tão importantes, e se não faz sentido hoje pode um dia fazer.

E sua relação com o tempo?

Trabalhou com Antunes Filho no CPT que era difícil e depois sentiu que precisava sair. Porque entrou na Cia dele pensando em ser atriz, e queria ser Giulia Gam como no sucesso que ela fizera na peça do Antunes. Mas não sabia era que queria o glamour. E levou tapa na cara de Antunes porque ele trabalha com ator-autor, que também pesquisa, faz sonoplastia, dirige outros atores, varre palco, pensa e contribui de forma pró-ativa. E se vc está esperando os aplausos ele acaba com você. É tão sério quanto qualquer outra profissão, a investigação e o andar do caminho é o fazer que interessa. A produção é o fazer. Se for viver uma vida inteira pelos minutos de tapete vermelho e não a pesquisa, desista. A diretora se sente pelada quando bota discurso na tela, então o ator está mais pelado ainda. Porque sua cara está na tela. Ao mesmo tempo que descobriu que não queria ser atriz, descobriu que amava a concepção do espetáculo, e descobrou que queria ser diretora, e não de teatro, pois já fazia cursos de vídeo e comprou uma câmera VHS. E filmava casamento, editava e achava aquilo incrível. Mesmo durante a Cia do Antunes se propunha a fazer um curta de ficção todo ano, de forma bem informal mesmo, tanto que fez um que ganhou o Festival do Minuto logo em sua 2a edição, o “Bia Bai”.

Só descobriu o que aconteceu em sua vida muito recentemente graças aos movimentos das mulheres do audiovisual que entendeu enfim o que passou. Ela queria muito no início da carreira ser diretora de fotografia, era um curta sobre obras de arte num museu, e mandaram ela carregar os cases subindo e descendo escadas. Quando chegou ao fim agradeceu pelo estágio mas achou que não tinha condições de fazer isso e achava normal. Logo algo que é o exercício de mais poesia do olhar porque não tinha músculos para carregar cases. Eles já diziam de cara que isso não era para você. Tipo, havia feito “Cartão Vermelho” e não percebia a questão de ser mulher num meio impeditivo, mesmo que a história de seu curta falasse sobre isso e não percebeu.

E foi fazendo vídeo porque era muito próativa. Não se acha muito cinéfila a não ser quando vai filmar um novo projeto.

Veio do Antunes Filho o trabalho de direção do ator. Quando selecionou as crianças para o “Cartão Vermelho” percebeu que não queriam atuar, e sim jogar bola. E trouxe dinâmicas do teatro de atuar sem precisar da consciência de estar atuando, e sim na dinâmica com o outro. E precisava saber como ia tirar isso das crianças. E issose mostrou especialmente para escolher a menina principal. A primeira fcou com vergonha de a família saber que tiravam a calcinha de sua personagem. E viu que não ia dar para ela, porque ela não conseguia viver a personagem. E escolheu outra que tinha disposição e abraçava as questões como se fossem dela, mesmo que ela desconhecesse ainda não haver passado por aquilo.

A questão do ator para Laís é o quanto eles querem trocar com ela. O ator é um solitário. Só da pra entender quando você está com ele no palco, porque se o filme dá certo ou não, o que fica é o rosto dele. Tudo some. Ele fica. E ele não vê o que a lente da câmera vê. Precisa confiar no diretor que é quem vê. Por isso Laís crê em dar carinho numa relação de confiança, para dar espaço para criar.
Em “As Melhores Coisas do Mundo” ela tinha certeza que precisava ser o Francisco, mesmo que muita gente tenha duvidado. E ela disse que ele precisava fazer essa travessia com ela, porque muita gente pode duvidar dele, mas tem que acreditar nesta relação. Pois um filme com técnica e fotografia brilhantes mas atuações medíocres é esquecível. Mas o oposto não. Técnica ruim pode marcar com um bom ator que traga aquela verdade absoluta que não pareça que está atuando. Se apropriar do texto e parecer que está acontecendo com você. A fissura dela com o ator vai ao extremo. Como imitar a vida real em seus defeitos? Porque é imperfeita. A gente tropeça, gagueja etc… um exemplo foi Rodrigo Santoro que levou para um manicômio e perguntaram: como ele vai ficar no meio dos internos? E ela disse que ele seria um dos internos, então não tinha problema algum. Eram todos iguais ali.

(Exibiu trecho de “Bicho de sete cabeças”)

Laís se inspirou muito que Bicho parecesse um documentário. O personagem de Santoro estava impactado e precisava a câmera acompanhar ele primeiro. E quando o Gero Camilo atrai a câmerapara outros personagens, o plano abre e segue os outros. Todos no manicômio tinham que estar atuando o tempo inteiro mesmo fora do plano. Ela se inspirou em “Profeta das Cores” sobre artista plástico que trabalhava pintando nas ruas a câmera seguia dentro de um manicômio que também chocava quando entrava e não se preocupava se alguns internos olhassem “sem querer” como se fosse vida pulsando na frente da câmera (teve gente que achou que era manicômio de verdade, mas era tudo atuação), ela pedia até para olharem. Ela tentou fazer isso em todos os trabalhos seguintes almejando a mesma naturalidade mas sem olhar para a câmera necessariamente, há de exemplo Como Nossos Pais. Há diálogos em Bicho que permaneceram do livro original na adaptação. (Aliás, ela trouxe alguns exemplares dos seus roteiros publicados para sortear). Laís leu alguns trechos do roteiro.

Como chegar nesse estado em que ator tem que lhe surpreender e ser autor? (Qualidade do conjunto de atuações em Bicho foi notada desde o Festival que ela concorreu).
Queria tomar muito cuidado em lidar com um assunto que não conhecia direito. Mas o livro do Carrano ensinava muito também. E pesquisou o trabalho da não-internação e o trabalho de Sergio Pena que trabalhava com atores que tinham passado por tratamentos psicológicos, e ela chamou o Pena no trabalho de preparação de atores desde a escalação para não ficar caricatural. E a loucura não era para fora, era para dentro. E tinha testes coletivos, com umas 30 pessoas, e cada um interpretava do seu jeito, gritando etc….Mas muitos internos andavam no silêncio parecendo filme de terror, e eles tinham olhar vazio que te atravessava como se não te olhasse mesmo na sua direção e assustava. Por isso mandava olharem pra câmera, para passar isso. Ela dizia isso e mandava esquecer aquela loucura gritada. E eles não tem controle do interruptor. Houve palestra para equipe inteira de filósofo, inclusive técnico de som ou luz, e a equipe tinha que entender os atores mesmo quando ensaiavam antes mesmo de ligar a câmera (para ninguém pensar que era Maluquinho)…. E é uma denúncia, amplificando o grito do Carrano. E a finalização na Itália só depois lhe fez perceber que teve depressão na época e só percebeu depois. As filmagens por maior densidade que o tema tivesse foi uma equipe muito feliz e animada fazendo longa pela primeira vez pra quase todos (menos o fotógrafo, e ele percebia que era um set especial, único). Ela até havia tentado ser uma terceira assistente de direção antes mas não conseguiu, e teve que fazer direto um longa.
E o Marco Miller quando bancou a finalização na Itália e levou um montador estrangeiro para Laís e Bolognesi fazerem isso pela primeira vez com 3 selos pesados: ser primeiro longa, ser latino-americana (3° mundo) e ser mulher (e não percebeu isso na época). E ele passava por cima dela e falava direto com Marco. E ele dizia que não gostava do material bruto (material bruto eh assim mesmo, mas não sabia na época). Hoje são amigos, rsrs. Mas como Marco bancou, queria botar em Festival grande, Veneza, e a comissão elogiou mas disse que não era o perfil. E tiveram que sair do hotel no dia seguinte. Tinha parecido que tudo deu errado e não sabia o quê. Ate rezou numa igreja. E voltaram para o Rio logo em seguida, e fez uma sessão de manhã no Festival do Rio e seu pai Jorge Bodanzky que também é cineasta amou. E só depois entendeu que era OK não ir para Veneza (ate porque o filme depois fez carreira internacional incrível, só não foi para Veneza). Antunes já tinha ensinado isso, todo ego quer Veneza, mas não pode ser a motivação para fazer. Laís também queria o Oscar….rsrs

Sempre que pode ensaiar na locação, ela até prefere. Mas há momento bem antes, desde preparação de elenco. Até antes, o olhar da diretora de mundo como as pessoas reagem naquela situação e que vai dirigir o ator…
Quando formulou a forma de conversa com que ela testa o ator ela tinha acabado de ver o filme “Kids” que a impressionou, e viu entrevista com ator que era ele mesmo no gestual e tom de voz numa conversa simples na prévia do teste. Para Laís já começa aí quando vê alguma coisa que a interessa para o personagem e vai pedir para ser generoso em ceder para o personagem. Até 50% já vem com o ator, e outros 50% ela acrescenta.
Em Como Nossos Pais a Maria Ribeiro se disponibilizou a participar do teste dos outros atores, para já saber quando rir ou chorar com eles…Claro, nem sempre ator tem agenda. Mas depende do projeto….Bicho precisava disso. As Melhores Coisas do Mundo precisava de entrosamento entre eles e improviso da jovialidade. Precisa de muita leitura e compreensão do texto e subtexto, para saber motivação por trás da entonação.
A Clarisse Abujamra entrou uma semana antes sem a preparação que precisava, pois a atriz escalada como mãe da Maria Ribeiro ia ser outra pessoa que teve emergência. Mas tinha muito texto e preparo que chegou para Clarisse… Assim como Paulinho Vilhena que ia ser o amante e foi bom sair do estereótipo de Ricardão….rs. Para alguns atores faz toda a diferença dar ou não dar todos os diálogos antes. O único com exceção foi Jorge Mautner, que admitiu não conseguir decorar, então avisava aos outros para se prepararem para o improviso, e usou 2 câmeras só com ele (Procópio brincou que ele saiu caro, mas ela respondeu que saiu barato rsrs). E Laís até brincou de se desconstruir que

Cada vez mais Laís se interessa na construção de personagem, na complexidade de quem somos nós, mesmo que goste de cinema de ação, como Star Wars. Por exemplo, desde a época de Bicho de sete cabeças ela entendia de tal forma o personagem Ceará do Gero Camilo que podia retomar ele a qualquer momento. Mesmo quando faz documentário e faz mais tradicional, de entrevistas, mas os entrevistados tinham que ser personagens para ela se interessar. Tanto que em Bicho recebeu crítica de não ter trabalhado não bem os coadjuvantes então no Chega de Saudades tentou fazer um filme sem protagonistas.

Todo filme tem seu caminho. Depois de pensar nisso e que faz sentido eles existir e vale o empenho, aí deve seguir o caminho que ele precisa. Cada Festival tem seu selo….e cada Mostra tem seu perfil dentro do Festival. Botar filme em todo Festival e lugar vai gastar dinheiro de forma dispersa. Tem que entender o seu discurso, senão ele não passa em nenhum lugar.

Laís começou mesmo com vídeo institucional (e não publicidade) e pode parecer não ter nada a ver com cinema, mas aprendeu muito. Fez um sobre elevadores Atlas e teve exercício de teste e perguntou para a equipe qual filme amavam? Disseram “Inferno na Torre” porque amavam que o elevador não caía porque a trava 1 não funcionava mas a trava 2 funcionou…E ela pensou: mas eu não vi trava nenhuma. Mas o filme conseguiu enganar até os técnicos. Isso tirou a lição de conhecer seu público alvo. Que vai acreditar naquele filme especialista naquela história e personagem. E Bicho enganou todo mundo até especialistas de que havia se passado num manicômio, e o Chega de saudade convenceu que aquelas atrizes famosas não eram reconhecidas no meio de duplas de verdade de dança de salão. E As Melhores Coisas do Mundo convenceu que era um universo adolescente. E Como Nossos Pais trouxe a própria Lais como público alvo, sobre entender a si mesma e quem é a mulher moderna tão cobrada da sociedade atual. E que bom que tanta gente se identificou.

Como Laís vê a opressão silenciosa do macho alfa hoje em dia?

Por isso que Laís mostrou o “Cartão Vermelho” que é Laís até hoje mas com outra consciência de si. Aquela menina entra no time dos meninos do futebol mesmo que os meninos não necessariamente a aceitassem ali. Ela entre no tipo dos sem camisa e amarra a camisa. Agora em Como Nossos Pais ela enfim tira a camisa. E o cinema é um pouco como a sociedade. O cinema ainda tem um comando muito masculino, a Ancine divulgou as porcentagens da GEMAA de quantas mulheres estão na direção e roteiro (por volta de 20% apenas) pois os homens ainda mandam no discurso, aa funções de ordem. E quando escreve um roteiro passa por um pitching de homens. E quando é distribuído as majors são de homens, e os críticos são em maioria homens também (alguém na plateia ressaltou a existência das #Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema, que estão mapeando críticas de todo Brasil, e as quais inclusive estiveram representadas numa mesa oficial neste 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro). E a Wild Bunch distribuidora que acabou de ter uma mulher como nova presidente e o 1° filme que ela comprou foi justamente Como Nossos Pais, e as distribuidoras europeias que o compraram coincidentemente foram presidentes mulheres. E ela achou que a Comissão do Oscar teria tido a sensibilidade de entender isso. Ou os jornais, onde críticos homens elogiaram em primeiro lugar o som, e não o protagonismo feminino (so um homem conseguiria falar de som antes da força da presença da mulher elogiada internacionalmente). Tem de haver quotas, tem de haver paridade nos Júris, e se é ruim para as mulheres é pior ainda para as pessoas negras. A Ancine também divulgou os dados da GEMAA sobre as mulheres negras que são 0% até o ano passado como roteiristas ou diretoras de longas lançados em circuito comercial. (Vale acrescentar que este ano foi lançado apenas UM filme no circuito comercial até agora ainda não contabilizado nestes dados, o “Pitanga” codirigido por Camila Pitanga e Beto Brant).
Talvez Como Nossos Pais incomode os homens porque seus personagens masculinos têm defeitos que eles não estão acostumados. E até existe o teste de Bechdel para testar a presença feminina perguntando se há pelo menos uma cena com duas personagens femininas com nome próprio e que dialoguem não apenas sobre homem ou sobre o tempo… Laís sugeriu que ao invés de rotularem com selos os poucos filmes aprovados pelo Bechdel, que criassem um selo de reprovação que aí quase todos teriam o rótulo de que precisariam aprender com seus filmes.
Pelo histórico do filme no exterior e repercussão de revistas especializadas estrangeiras Laís achou que seu filme tinha alguma chance. Não que não tenha ficado feliz com a escolha de Bingo, que tem uma equipe grande de amigos e produzido também pela Gullane, que também é sua produtora, então permanece em “casa”. Mas com uma comissão de seleção para o Oscar apenas com uma mulher e o restante de gerações anteriores e posições mais arcaicas não há chance de se escolher outras narrativas.