Masterclass de Vani Catani no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Uma das mais importantes produtoras brasileiras ministra aula magna na última edição do Festival de Brasília

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10 de fevereiro de 2018

Masterclass de Vania Catani sobre o ofício de produção e espírito cooperativo de equipes. Mediação por Mari Brasil.

Vania elogia como tanto ela quanto seus parceiros agregam nomes aos projetos, como no “Deserto” de Guilherme Weber, onde ele a procurou e ela recusou porque achava parecido com “O Palhaço” em ter trupe de circo também. Mas ele retrabalhou e levou pra ela até ela aceitar um ano depois, no que Vania moldou o projeto sugerindo equipe técnica como Renata Belo Pinheiro na direção de arte fantástica que até ganhou nesta categoria aqui em Brasília, e Rui Poças o fotógrafo indicado pela Anita Rocha da Silveira do outro filme que Vania havia produzido, “Mate-me, Por Favor”, e a assistente de produção de quase todos os seus filmes por ser uma baita assistente de direção que seria melhor cineasta que muita gente por aí, mas não gosta de direção e sim da função de assistente de direção, Kity Féo.

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Escolas não estimulam o ofício da produção e precisa encontrar e estimular o talento de produtores, pois as escolas incentivam muitos diretores, roteiristas, fotógrafos…mas quem vai produzir todos esses profissionais? Tem que ter talento também para produção assim como para atuar etc.

Como levar um sim ou um não de Vania para produzir um projeto?
Muitas vezes é falta de tempo. Um projeto que passou na mesa dela e não conseguiram esperar foi “O Lobo Atrás da Porta”.

Outra questão é que Vania adora pesquisar e conhecer novos talentos e curtas-metragens em Festivais e em Júris que ela participa, como foi o caso de Gramado, onde conheceu Lucas que convidou para fazer o making of de seu novo filme, “Serial Kelly” de René Guerra. E assim vai aproximando profissionais para futuros projetos.

Fica 3 anos para fazer um filme, enquanto que às vezes se passam apenas 3 semanas no set. Existe um mundo ao redor desse trabalho, e a produção está dentro desde encontrar a ideia até encontrar o público (que tem a liberdade de amar ou detonar), mas ela permanece com o filme mesmo depois disso.

E visita muito o set durante o set porque senão eles pensam que a produção não estaria agindo mesmo durante a fase do set, como a Luana, uma das integrantes da Bananeira Filmes, coordenadora de projeto que está neste exato instante no set do novo filme.

Ela gosta desse espírito de união, de, por exemplo, o motorista do caminhão da produção, Carlão, sentir pertencimento de chamar também de “o nosso projeto” porque é de todos. E não tem nada de fazer catering diferente para a equipe, como faziam antigamente até com ela antes de ser produtora. Banheiros disponíveis para todos, pois todos têm as mesmas necessidades. E quem tem necessidades especiais também estas são atendidas. Figurinos em extremo calor são pensados em tecido de algodão mais leve ou o que for necessário.

Quando o “Mate-me, Por Favor” estreou no Festival do Rio, a Bananeira comemorou 15 anos, e ela fez uma festa que era justamente para todas as equipes de os todos seus filmes. Respeita-se a equipe toda. Tanto que dois membros até já tomaram rumos e projetos próprios como Matheus Peçanha e Erica de Freitas, cada qual com sua própria produtora, como Erica com a Encantamento Filmes.

A relação com Selton Mello por exemplo vem de longe. Quando acabaram “Feliz Natal” já tinham “O Palhaço” engatilhado. E tinham outro projeto planejado como 3° filme, mas o livro de Skármeta caiu no seu colo.

Vania não vai para set dizer onde tem que botar a câmera, mas às vezes é boa para sugerir soluções. Não tem intenção nenhuma de ser cineasta, mas é boa de colaboração.

Seu mais novo projeto realizado neste momento é “Serial Kelly”, sendo filmado agora em Maceió e é mais um primeiro projeto, o décimo debut de cineastas que Vania descobre.

E respeita outras linhas de produção, sendo amiga de produtoras de projetos grandes, mesmo que não sinta que seja o seu perfil. Grande produtoras não conseguem manter o nível de pessoalidade de conhecer o nome de todos no set, por exemplo, coisa que Vania consegue manter. Mesmo que os filmes mais comerciais brasileiros não sejam do seu gosto, e os de pequeno porte que faz ou “cabeças” que Vania faz são tidos como chatos pelas produtoras grandes ou não entendem os filmes mais autorais.

Ja aconteceu case no meio de set, como quebrar gerador no meio das filmagens no meio do sertão da Paraíba. Precisa ter sangue frio e até saber atuar. Na época de “A Festa da Menina Morta” de Matheus Nachtergaele, filmado em Manaus, ainda era inteiramente pela Lei Rouanet, mas no meio das atividades a lei mudou em 2007 e passou parte da responsabilidade do que era inteiramente da Rouanet para a na época nova Lei de Audiovisual, e o dinheiro que estava aprovado pela Lei anterior pela burocracia da nova não foi liberado. E tiveram de enxugar as filmagens na hora para poder continuar mantendo e alimentando todos lá, senão ficariam todos presos rs.

Vania gosta de fazer casting, mas é sempre uma sugestão, como Daniel Oliveira em “A Festa da Menina Morta”, Paulo José em “O Palhaço” e agora Gaby Amarantos em “Serial Kelly”, todas sugestões de Vania etc…

Mesmo morando no Rio há 20 anos, porém pouco filmou no Rio, mas já teve sets em vários lugares como Paraíba, Ceará, Amazônia, Rio, Maceió etc e agora até fora do Brasil como na Argentina. E mesmo porque o Rio às vezes tem menos segurança que nos outros lugares que já filmou, como o filme de Belmonte e de Anita, que passaram por tiroteio na linha Vermelha por exemplo no caso do filme de Belmonte. Convida pessoas de todos os lugares também na equipe. Mas não gosta muito de filmar no Rio.

Já ocorreu de vizinhos de set de filmagem ter aniversário (nenhum produtor pode adivinhar aniversário de vizinhos), e concordaram em fazer menos barulho, contanto que se pagasse. No Rio tudo é pago no Rio e caro. A Cidade das Artes por exemplo cobrou 20 mil.

Vania foi Júri de Festival só para filmes dirigidos por mulheres e amou o filme “O Vampiro do Meio-dia” de Anita Rocha da Silveira e acabou ganhando a competição e Vania ficou encantada e convidou para trabalhar junto, mas ela achava que não tinha um longa pronto para oferecer ainda, fez mais dois curtas até oferecer o longa que achava ideal para Vania produzir. Ela usou do recurso inteligentemente. Agora está produzindo um segundo longa dela, “Medusa”, mesmo que nem sempre produza segundos filmes, mas ama descobrir talentos e revelar seus primeiros trabalhos.

Seu modelo de trabalho não existe sem financiamento. Não faz trabalho sem dinheiro que precise ficar devendo ou peça para confiarem na palavra dela e não teria como pagar depois.

Trabalha muito com Fundo Setorial (“O Palhaço” foi um dos filmes que mais deu retorno ao Fundo), também com artigo 1°, com Globo Filmes às vezes, mesmo que as pessoaa vejam com preconceito e nem todo filme da Globo sejam aqueles que todos torcem nariz, ou Telecine, ou parcerias intenacionais que alguns projetos atraem como os da Anita graças aos prêmios internacionais. E também recursos automáticos, de rendimentos de seus próprios filmes que às vezes pagam os próximos. Como “O Palhaço” e “Mate-me, Por Favor” que estreou internacionalmente e a renda vai poder financiar os próximos. Financiou assim por exemplo “Todos os Paulos do Mundo”, doc sobre Paulo José que vai estrear no Festival do Rio. E se um dia o governo parar de financiar mesmo, ela vai deixar de poder trabalhar, ao menos como faz, ou inventar novas maneiras. Porque Vania explica que não nasceu em berço de ouro, e sem suporte não conseguiria produzir. A possibilidade de Vania e outras pessoas sem recursos poderem fazer cinema adveio de políticas públicas dos últimos anos que pavimentaram o caminho para começar a democratizar os meios para quem nunca teve recursos.

Quando Vania trabalhava como assistente de dentista, os amigos haviam ganhado recursos do DCE Cultural da UFMG e começou produzindo shows para estes amigos. Depois foi transferida para Secretaria de Cultura e depois TV Minas, onde encontrou seus pares, o que não havia encontrado em faculdade, que é o mais legal, conhecer as pessoas com quem se fará cinema. E começou uma geração de videoarte, de imagens em movimento (que não gosta de chamar de Audiovisual). Produziu, por exemplo, um doc sobre Arnaldo Batista que era do grupo Mutantes. Fizeram o Forum BHZ Vídeo. Até virar produtora de arte no primeiro filme “O Menino Maluquinho”, onde conheceu sua 1a amiga do meio, Kika Lopes, que faz figurino até hoje em seus filmes. Até Pedro Bial que na época apresentava o Fantástico, e ligou porque foi indicada por Carla Esmeralda (atual Rio Content Market) para produção do filme do Pedro. E assim ingressou no cinema.