Masters of Short

Jia e Panahi se sobressaem

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06 de novembro de 2020

Longa-metragem episódico composto por curtas-metragens, “Masters of Short” possui capítulos de diretores consagrados, como “A Visita”, de Jia Zhangke, “Escondida”, de Jafar Panahi, “Os Caçadores de Coelhos” e “O Adivinhador”, de Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson, e “Uma Noite na Ópera”, de Sergei Loznitsa.

Há alguma proposta atravessando todas estas obras, apesar de haver bastante autonomia entre elas, o que acaba nos obrigando a analiá-las tanto individualmente quanto em conjunto, o que destaca algumas e empobrece outras, por comparação. É inevitável apreciar que os filmes que iniciam e finalizam o longa, tanto o de Jia quanto o de Panahi, respectivamente, são obras ímpares, porém acabam até conflitando com o restante por tabela. Vamos colocar as ideias lado a lado:

O primeiro curta começa com o próprio cineasta se revelando na tela, filmando a si mesmo dentro do momento histórico da pandemia, recebendo um convidado em seu escritório, ambos de máscaras e álcool em gel. Como sempre, ele salta da tela para além da imagem dada, com uma aura mágica no extracampo, realçando sons e ruídos potentes até para objetos tão saturdos para nós hoje em dia como o álcool em gel, signo normalmente indissociável do caos na pandemia histórica, mas aqui uma pequena peça lúdica. Além disso, ambos se dirigem justamente a uma pequena sala particular de exibição de cinema, e somos levados para dentro dela como se os outros episódios do filme viessem a se desvelar… Aliás, a cena final desta obra é extremamente catártica e resume o ano inteiro num só plano, com aglomeração e confraternização física ao som de ondas do mar, como se fôssemos todos cachoeira, e reiterássemos a certeza de que iremos sobrevir ao pesadelo do novo coronavírus.

Depois, temos dois curtas-metragens dirigidos por Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson, que, apesar de serem bonitos visualmente, com técnicas misturadas de linguagem, acabam destoando da proposta do filme inteiro — e, como esse trio foi também o idealizador do projeto como um todo, às vezes parece um capricho afetado de convidar nomes como os dos outros cineastas. Não que ignoremos o valor artítico dos tais capítulos do meio, até porque são ferramentas narrativas bastante atraentes ao olhar, como o uso de animação, stop motion, mise-en-scène visual farsesca e onírica de algo ligeiramente fantasioso. Como no primeiro curta que começa bem, apesar de um pouco repetitivo no truque narrativo-visual de acompanharmos um adivinho que consegue prever qualquer número ou situação oculta à sua frente. Porém, como história propriamente dita, passa a certa convencionalidade de jornada do herói tentando compor um par romântico desnecessário…

No terceiro curta, o trio de diretores consegue algo maior, acompanhando a protagonista interpretada por Isabella Rossellini que encarna o papel de um homem, e que passeia por suas memórias de vida reimaginadas livremente. E, apesar de podermos até tentar um encaixe forçado do episódio na proposta geral, especialmente a partir da autorreflexão propiciada pela quarentena deste ano pandêmico. Porém, ainda assim parecem anomalias berrantes perate o todo.

Ainda que recupere o tema de novo proposto pela união de forças destes cineastas afastados em seus trabalhos respectivos em home office, o quarto episódio é um experimento visual muito mais do que narrativo, mais uma vez criando outra nova cisão da continuidade. Se o espectador permaneceu dentro do filme até o presente momento sem se deixar alienar pelas expressões extremamente díspares e difusas, até podemos apreciar a interessante tentativa do consagrado diretor ucraniano Sergei Loznitsa de trabalhar estritamente imagens de arquivo de tapetes vermelhos do passado, onde desfilarão algumas das saudosas maiores estrelas do cinema, culminando na música cantada pela grande Maria Callas no anfiteatro onde todas estão presentes. No entanto, para além da beleza pontual e circunstancial desta experiência, mais uma vez pode soar como afetação dissociada e perdida na obra total… Mesmo que haja alguma catarse sim de ver aglomeração de estrelas que, elas próprias, aquelas que estão vivas no presente, encontram-se na mesma situação que todos nós de confinamento e isolamento social. Não deixa de ser interessante ver os maiores astros da história possuindo uma liberdade no passado que até eles no presente não possuem mais, como reles mortais, assim como todos nós.

Por fim, é a última peça deste quebra-cabeça que faz o todo valer a pena. Agregando à magia já trazida por Zhangke no início do filme, agora temos Jafar Panahi (“Isto não é um filme”, “Táxi Teerã”) encerra o projeto com outro curta-metragem poderoso. Usando da estética com que anda trabalhando ultimamente, desde que foi condenado e preso em seu próprio país (Irã) só por fazer seus filmes, ele se infiltra na realidade possível e começa a deslocar o olhar de seus filmes vigiados pela censura do governo a partir de dentro do seu próprio carro, dirigindo para cidades e países vizinhos, de modo a desvelar pequenas histórias afora de opressões imilares a seu lar. Neste caso, seu episódio segue com duas convidadas (uma delas, sua filha) à cata de uma aspirante a cantora que é proibida pelos homens e usos e costumes de sua vila de cantar publicamente. Não apenas encerrada pelo véu (que não precisa ser um elemento de opressão, vide as convidadas extremamente emancipadas que vão com ele e que o usam também)… mas sim uma prisão social e cultural que não permite que a jovem sequer seja vista, mesmo de véu, ao cantar… E ela no final do curta canta detrás de uma cortina como se provasse que o extracampo pode trazer liberdade e emencipação afora do quadro a qualquer momento através do cinema. Não obstante quaisquer barreiras que possam se interpor (algo que nos liberta até mesmo de nossas próprias quarentenas psicológicas).

Um longa irregular, que poderia ser encarado como curtas-metragens separados.