Mate-me, Por Favor

Quando a Caça se torna o caçador de si mesmo

por

15 de setembro de 2016

Não é fácil para jovens cineastas fazer cinema no Brasil. Menos ainda é inovar. Talvez seja um paradoxo afirmar isto, pois quanto mais um diretor amadurece e vai constituindo seu perfil, talvez mais difícil de quebrar o gesso. A dificuldade para os jovens é que apostar no novo não garante patrocinador ou distribuidor para seu filme. É por isso que defender o novo se torna ainda mais importante, para público e crítica a fazer pressão que se crie uma demanda de mercado. E este é o trabalho corajoso que Anita Rocha está fazendo. Em seu primeiro longa-metragem, apesar da já firme carreira em curtas, ao invés de enveredar sua trama para uma narrativa claramente policial ou de terror sobre um serial killer que assola os adolescentes abastados da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, ela desbrava a linguagem cinematográfica em um finíssimo suspense com traços de humor negro em meio ao drama de adolescentes cuja vida conformista deixou de ter ideologias ou desafios reais. Este marasmo explorado por ela é o maior perigo do filme, e não o serial killer, pois é o que mais aproxima as jovens e belas meninas de poderem ser a próxima vítima em potencial ou mesmo futuras assassinas em formação. Não se preocupe, isto não é um spoiler, pois o filme diz muito mais através do não-dito do que do revelado expressamente, cabendo ao desenvolvimento do elenco trabalhar este constante tom ameaçado e ameaçador, até com resultados ainda mais eficazes do que o também recente e inovador “Corrente do Mal”.

Tarantula

Quão abençoada foi Anita, então, por descobrir e lapidar o talento do conjunto de meninas que forma o elenco principal, não à toa ganhador do prêmio de crítica internacional no Festival de Veneza deste ano, e lembrando a sintonia possante de outros elencos femininos como do ano passado no filme “Garotas” ou do cult “As Virgens Suicidas”. Todas e cada uma contribuindo com a química e empatia imediata do público, onde ao mesmo tempo em que passam a sensação de que poderiam ser a melhor amiga ou a namoradinha dos espectadores, conseguem enganá-los de quais são suas verdadeiras faces numa vida vazia em que todas as perspectivas se tornam tédio. E o tédio pode ser muito perigoso, ainda mais numa vitrine social. Ao mesmo tempo em que a desolação da fotografia em meio às obras eternamente faraônicas e inacabadas na Barra da Tijuca se torna palco para a claustrofobia social acuada por um sociopata que está matando jovens baladeiras, como se elas não pudessem se divertir sem serem perigosamente desejadas (vide a chamada cultura do estupro, muito em voga hoje em dia, e que o filme deseja combater). Acuando a juventude feito gado, como geralmente belas moças são julgadas à mercê de uma sociedade misógina. E num cenário onde estes jovens já se acham imortais mesmo ante todos os problemas.

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Cabe, a partir daí, para a atuação segura e bem ensaiada da revelação Valentina Herszage tomar as rédeas e começar a cuspir o mesmo veneno com qual estava sendo envenenada, deixando claro que qualquer uma delas sob pressão poderia ser tanto vítima quanto culpada. Sua atuação alude a outra magistral recente no filme alemão “14 Estações de Maria”, onde a protagonista vai se deteriorando de acordo com que internaliza um turbilhão alheio. Ao mesmo tempo, “Mate-me, Por favor” em todas as suas sutilezas, diálogos afiados, trilha sonora moderna através das letras críticas do funk (até funk evangélico, futuro meme instantâneo pra web), vai se aproximando de obras de extrema relevância sobre os riscos irrealizados do naipe do novo cult “O Som ao Redor”, na crista do cinema nacional. E que venham ainda mais trabalhos na evolução desta promissora cineasta.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Mate-me, Por Favor (Idem)

Brasil, 2015. 105 min.

De Anita Rocha da Silveira

Com: Valentina Herszage, Mari Oliveira, Julia Roliz, Dora Freind, Bernardo Marinho, Carol Baptista, Vitor Mayer

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Patricia Niedermeier

    Sensacional a critica!!! Bravo!!! Adorei o filme e ler o esse texto me ajudou a organizar minhas ideias e emoções!