Mate-o e deixa esta cidade

Tem até participação póstuma de mestre do cinema polonês

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04 de novembro de 2020

Há filmes melancólicos também na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, porém extremamente belos, como o ousado “Mate-o e Deixe Esta Cidade” do polonês Mariusz Wilczynski, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Annecy, numa animação feita para adultos com algumas coisas que apenas são possíveis em desenho animado (vide uma cena pesada de necropsia e uma bela homenagem póstuma ao cineasta Andrzej Wajda, cuja voz é usada em uma das personagens desta cidade fantasma).

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Acompanhamos o alter ego do próprio diretor num eu lírico bastante autoral que desenha a si próprio e a suas lembranças na cidade onde nasceu. Ele regressa a ela com todos os seus fantasmas e familiares povoando o imaginário daqueles espaços. Sentimos o regime rígido vivido na época, mas também como a fabulação pode se libertar, ainda que também possa ser uma esponja que absorve a opressão em distorções e doenças do subconsciente.

Decerto, não é uma animação para crianças. Não só pela classificação etária, como pela destinação de público alvo, com maturidade transbordante de reflexões árduas, que mesmo adultos podem não estar preparados, ainda que numa desafiadora animação (sem com isto aceitar a expressão “animação” como nenhum demérito de forma). A questão é que até hoje algumas pessoas ainda encaram as técnicas de animação como uma asbtração da realidade, talvez como se fossem facilitadores, porém, como qualquer cinéfilo pode atestar, existem animações mais pesadas do que muitos filmes live action. E devemos encarar a técnica apenas como uma opção de dispositivo utilizado de recurso visual, mas continua sendo uma representação da realidade como qualquer filme de ficção ou até de documentário (lembremos que existem ótimos documentários e filmes-denúncia em formato de animação, como “Carne” de Camila Kater e “Torre” de Nadia Mangolini).

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Uma narrativa espiral do subconsciente, como se deitássemos no divã junto com o realizador, e tivéssemos de encarar suas maiores angústias e medos de forma cíclica, na forma de pesadelos ou sonhos frustrados. Algumas cenas realmente chocantes, outras poéticas, como a possibilidade retromencionada de reencontro póstumo com o mestre Wajda, algo só possível através de recursos asbtratos como o dispositivo da animação bem colocado.

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