Mediterrânea

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13 de outubro de 2015

Em circulação veloz nos meios de comunicação espalhados pelo mundo, a foto de um menino sírio encontrado morto na beira de uma praia da Turquia surtiu o efeito do choque. A tragédia foi causada pelo naufrágio de duas embarcações que haviam partido de Bodrum, na Turquia, rumo à Ilha de Kos, na Grécia. Da jornada malfadada dos familiares da criança afogada, só sobrou um pai, desolado. A imagem, amplamente divulgada, tornou-se símbolo pungente da crise migratória na Europa. É como se, através da morte do pequeno, a batalha dos que buscam um lugar melhor para viver ganhasse uma vida que não poderia mais ser ignorada. A problemática é adequada para introduzir uma reflexão sobre o filme “Mediterrânea”, de Jonas Carpignano, exibido na Semana de Crítica do Festival de Cannes. Ayiva (Koudous Seihon) e Abas (Alassane Sy) são dois jovens africanos, nativos de Burkina Faso, que tentam chegar à Itália enfrentando empecilhos por mar e por terra. Driblando as grandes chances de um término lastimável como o do garoto sírio, a dupla finalmente chega a seu destino.

O cineasta Jonas Carpignano faz questão de enfatizar outra face do desejo que move essas pessoas ― distantes da terra natal, o “paraíso” para onde fugiram não as acolhe, e a busca por uma vida melhor é muitas vezes uma promessa fantasiada, que nunca se realiza. Na verdade, muito comum entre imigrantes que tentam a estabilidade é a invenção de uma autoimagem, com doses de alegria e sucesso, para transmiti-la às pessoas deixadas para trás. Com isso, a ilusão dos que partiram e o sonho dos que ficaram são sensações que se retroalimentam. Ayiva e Abas, ao chegarem à Itália após o consumo dessa imagem falsificada ― o filme mostra acertadamente que o Facebook, com a constante divulgação de reflexos não exatamente correspondentes à verdade, é importante ferramenta na confecção da ilusão ―, sentem na própria carne a crua realidade. Nada é o que parece no organismo perfeitamente “sadio” da Itália, onde os estrangeiros sentem-se como uma bactéria a ser combatida. Um tratamento de tarja preta iniciado com a repelência para culminar na eliminação dos corpos estranhos por meio da violência da polícia.

Sobreviventes no país europeu, Abas é mais recalcitrante, comportamento que vai cobrar seu preço, não conseguindo submeter-se a humilhações, enquanto Ayiva é mais maleável para adaptar-se às regras desse novo mundo que retribui pouco, mas em Euro. A presença da música pop americana, mais especificamente da canção “We Find Love”, da cantora Rihanna, funciona como anestésico. Em uma cena de grande emoção, Ayiva conversa com a filha pelo Skype e ela bota para tocar, no aparelho de mp3 que o pai lhe enviou, essa mesma música que, por sinal, também ecoa como toque de chamada no telefone de Ayiva. Fazendo um paralelo com a própria letra da canção, será que dá mesmo para encontrar amor nesse lugar sem esperança? Uma pergunta que adere no pensamento, como a imagem do corpo do menino sírio, com o rosto virado para a areia, na beira da praia.

Festival do Rio 2015

Expectativa 2015

Mediterranea, Itália / França / Estados Unidos / Alemanha / Qatar, 2015, 110’

Jonas Carpignano

Elenco: Koudous Seihon, Alassane Sy


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