Melancolia sem preservativos morais

Lars von Trier usa a compulsão como sexo para falar de hipocrisias morais

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10 de outubro de 2014

No filme mais polêmico de 2014, Lars von Trier usa a compulsão como sexo para falar de hipocrisias morais   

Ninfoman+¡aca Volume 1

Filme mais polêmico do ano no planeta, lançado em duas partes complementares, “Ninfomaníaca”, (“Nymphomaniac”), do dinamarquês Lars Von Trier, já chegou à TV brasileira. Lançado na Escandinávia no dia de Natal, o Volume 1 deste díptico (narrativa dividida em dois) sobre formas de se sublimar o vazio confirma a excelência narrativa do realizador de “Os idiotas” (1998) como alguém capaz de fazer do ofício da direção um ato simbólico de perpétua transgressão. É uma tentação resumir qualquer resenha sobre o longa apenas à estreante Stacy Martin, delícia que estrela 75% do filme como a versão jovem de Joe, a personagem de Charlotte Gainsbourg. Mais tentação ainda seria arriscar que se trata, em termos de arquitetura narrativa, do trabalho mais maduro de Von Trier desde “Dogville”(2003), lembrando que ele goza de uma Palma de Ouro no currículo por “Dançando no escuro” (2000). E igualmente tentador é ficar descrevendo como seu roteiro opta por diálogos desdramatizados, que investem em um engenho cartesiano de causalidade (lembra até a radiofonia do curta-metragem gaúcho “Ilha das Flores”, de 1989) ao descrever as relações afetivas, sexuais e os órgãos reprodutores.Von Trier utiliza a genital feminina como metáfora para o que existe de oco na condição existencial do Ocidente e para o Poder do corpo nestes tempos avessos à metafísica.

Ao longo de 2013, a empresa produtora do longa, a companhia Zentropa, disponibilizou em sites de diferentes jornais do mundo clipes com imagens inéditas do filme, incluindo imagens de rostos famosos como os de Shia LaBeouf e Christian Slater. Foram cerca de oitos posts, cada um referente a um segmento (ou capítulo, como definiu Von Trier) da produção de € 9 milhões, protagonizada por Charlotte Gainsbourg e divida em dois filmes de duas horas cada. Existe ainda uma versão estendida de cada um, com um tom ainda mais picante, que não passou ainda por aqui. Pouco antes do lançamento, Louise Vesth, que produziu os trabalhos mais recentes de Von Trier, deu uma entrevista ao Brasil explicando a estratégia de comercialização de “Ninfomaníaca”: “Optamos por não lançá-lo em festivais. Como o filme fala da sexualidade de uma mulher, tema com condições de atrair as plateias, por que não usar a estratégia convencional de estrear direto em circuito? Com Lars, as regras podem ter alternativas”, disse Louise, produtora de Von Trier desde 2005.

Amparado na estonteante fotografia do chileno quarentão Manuel Alberto Claro, “Ninfomaníaca” é o primeiro longa do diretor desde a polêmica provocada por ele no Festival de Cannes de 2011. Von Trier foi considerado persona non grata pela direção do evento após ter dito que não aprovava o que Hitler fez na Segunda Guerra, mas entendia suas motivações, durante coletiva de imprensa de seu longa anterior, “Melancolia”. A declaração gerou associações com o nazismo e fez com que uma série de distribuidores em diferentes países se recusassem a lançar o filme. A Zentropa negou-se a admitir problemas ligados aos comentários infelizes de Von Trier, e não tirou do longa uma seqüência em que Joe faz troça com os conceitos de antissemitismo e sionismo. E, de fato, em sua carreira comercial, os dois volumes tiveram uma recepção popular calorosa. No Brasil, os volumes 1 e 2 somados contabilizaram 350 mil pagantes.

Na trama, Joe (Charlotte) é encontrada caída, ferida e estropiada, num beco escuro, pelo intelectual Seligman (Stellan Skarsgård, ator-assinatura do diretor). Ao resgatá-la e curar suas feridas, ele espera que ela se recupere e conte como chegou àquele estado. Ao despertar, Joe engata uma narrativa acerca de suas estripulias sexuais. Seus relatos são construídos a partir de uma série de digressões da protagonista (e do próprio cineasta), o que dá um peso similar a diferentes personagens – alguns vividos por atores conhecidos da cena indie, como Willem Dafoe e Udo Kier. A atuação de Uma Thurman, no papel da histérica Sra. H, beira o sublime. Prepare a vaselina estética e deixe Von Trier penetrar seu imaginário com um erotismo melancólico neste ensaio filosófico sobre lacunas existenciais.

Ninfomaníaca

“Nymphomaniac”. De Lars Von Trier (Dinamarca/ Bélgica/ França/ Alemanha/ Reino Unido, 2013).

Telecine Cult, 23h40m

  Aparecida

“Aparecida – O Milagre”

Tizuka Yamasaki (Brasil, 2010)

Devoto de Nossa Senhora Aparecida, o menino Marcos tem uma infância humilde, mas feliz, ao lado dos pais. Contudo, a morte do pai em um acidente na basílica que tanto amava provoca uma dupla perda: foram-se seu progenitor e sua fé. O tempo passa e, 35 anos depois, Marcos se transforma em um empresário de enorme sucesso. Mas um acidente com o filho com quem ele tinha uma péssima relação faz com que ele precise apelar de novo para a Aparecida. Esta produção carregada de referências do imaginário católico se escora no talento dramático de Murilo Rosa, no papel do adulto Marcos. A produção é assinada pelo cineasta mineiro Paulo Thiago. O filme foi lançada como uma alternativa do Catolicismo ao boom  de filmes espíritas em circuito, como “Nosso Lar” (2010) e “Bezerra de Menezes – O diário de um espírito” (2008).

Rede Globo, 14h20m

 07 TRUE LIES

“True lies

“True Lies”, De James Cameron (EUA, 1994)

Arnold Schwarzenegger viveu dias e noites de 007 nesta produção de US$ 115 milhões, cujo faturamento arranhou a casa dos US$ 378,8 milhões nas bilheterias. Dublado pelo mestre Garcia Júnior, Arnoldão encarna Harry Tasker, espião jurado de morte em vários cantos do planeta que leva uma vida dupla. Em sua casa, ele finge ser um modesto especialista em computadores e acaba levando sua mulher, Helen (Jamie Lee Curtis, numa atuação magistral) ao tédio. Quando suspeita de que Helen está engatando um romance com outro homem, Tasker resolve surpreendê-la e lhe dar um susto. Mas, em meio ao golpe, ele é atacado por seu arquiinimigo, o terrorista Salim Abu Aziz (Art Malik), mais conhecido como Aranha do Deserto. O roteiro filmado por Cameron é uma adaptação hollywoodiana do filme francês “La totale!”, de Claude Zidi.

FX, 21h