Memórias Secretas

Análise filosófica pós-filme

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29 de junho de 2016

O filme dirigido pelo cineasta canadense Atom Egoyan, Memórias Secretas (Remember, 2015; roteiro de Benjamin August) aborda o tema da identidade do sujeito. Através da história de um judeu octogenário em processo de demência, o filme mostra que somos o resultado da soma das nossas memórias e na ausência de parte dela teremos nossa identidade cindida. A cada vez que dorme, Zev acorda confuso sem saber onde está, e chama a esposa, Ruth, recém falecida. O sono apaga a memória do dia anterior.

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O que faz a identidade do ser humano é a sua consciência e memória. No caso de Zev (magnificamente interpretado por Christopher Plummer), essa memória está fixada na presença de sua esposa. Era ela que cuidava dele, lhe servia de apoio no período que a doença da demência começou a se manifestar. Nos seis meses em que esteve sozinho no asilo, Zev fez amizade com Max (interpretado por Martin Landau; irreconhecível no papel). Max entrega a Zev uma carta e pede que ele a leia sozinho.

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Nela explica que Zev havia prometido à esposa em seu leito de morte encontrar o carrasco responsável pelo extermínio de suas famílias, de Zev e Max, em Auschwitz, e matá-lo. Segundo pesquisas de Max o carrasco da família deles teria imigrado para o Canada ou para os EUA sob o nome falso de Rudy Kurlander. Mas o verdadeiro nome do “Blockführer” (título dado aos oficiais da SS encarregados de supervisionar os barracões e também de cuidar do envenenamento por gás dos prisioneiros) seria Otto Walish.

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O interessante aqui é o papel que a carta possui, tanto como fornecedora de memória passada como de guia para ações futuras. A carta funciona como uma verdadeira consciência postiça. A consciência é o lugar do passado, mas também guia nossas ações futuras. A cada vez que Zev dorme e acorda confuso, precisa reler a carta para entender o que está se passando.

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Chama a atenção do espectador a facilidade com a qual ele consegue se aproximar dos supostos Kurlanders. Quem quer que se depara com esse senhor, frágil (meio abobalhado, com ar perdido de criança que precisa de ajuda) não imagina suas reais intenções. Ele toca a campainha e pede para falar com Kurlander dizendo-se seu amigo. Ninguém lhe nega a passagem, ao contrário, deixa que entre imediatamente na casa. No hospital em que se encontrava um dos Kurlander, a enfermeira percebendo sua dificuldade de entender o caminho até o quarto, o leva pessoalmente até lá. O guarda de fronteira deixa que passe para os EUA apesar do passaporte vencido; mal suspeitava ele que em seu banco, no ônibus, havia uma arma escondida por baixo do paletó. O dono da loja de arma tampouco suspeita que o velhinho com ar inocente possa representar uma ameaça qualquer e nem termina a busca no computador no site de procurados pela justiça. “Um lobo na pele de um cordeiro”, poderíamos concluir.

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No final acabamos sabendo que Max aproveitou-se da confusão mental de Zev para utilizá-lo como instrumento para a sua vingança. Não Zev, mas Max, havia perdido a família em Auschwitz. Zev era o verdadeiro Otto Walish. Por que Max não matou Zev no momento em que ele entrou no asilo? Porque se ele o fizesse sua vingança não seria completa, já que imobilizado em uma cadeira de rodas, não poderia ir atrás do outro carrasco ainda vivo. Rudy Kurlander era outro oficial da SS, também Blockführer, do campo de concentração polonês. Max juntou as duas pessoas em uma só ao dizer a Zev que Rudy Kurlander seria na verdade Otto Walish. Ele em momento algum se lembrou de que esse era seu verdadeiro nome, seu nome de batismo. Havia incorporado de tal maneira a identidade judia que inclusive se recusava a falar o alemão e tem ‘memória traumática’ ao ver os furos de um chuveiro. Walish havia sido ‘enterrado’ no fundo da consciência de Zev, de modo a ficar inacessível à culpa. Se Max tivesse matado seu carrasco assim que este chegou no asilo, teria no fundo matado Zev e não Walish, pois este morreria sem saber o porquê de estar sendo morto.

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Como Michel Foucault mostra em seus escritos sobre o sistema jurídico de verdade, a tarefa primeira do processo de justiça está na confissão do crime. Para aplicar a pena é preciso que o sujeito seja reconhecido como um sujeito consciente e moral. Não há culpado quando não há intenção de agir criminosamente, por isso a confissão como reconhecimento do erro é fundamental para a aplicação da pena. Zev precisava se lembrar de quem ele um dia foi e dos crimes que havia cometido. Sem, digamos, ‘dor moral’ e culpa não haveria vingança. A aposta de Max é alta, pois quem disse que Zev iria se lembrar se ele estava em processo de demência aguda? Afinal, a doença de Zev é puramente neurológica, ou no fundo é uma forma de fuga psíquica de um passado dolorido, traumático, do qual procurou esquecer, apagar da memória? Max aposta na segunda opção.

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De fato, até mesmo se considerássemos o esquecimento com um evento meramente fisiológico, ainda assim essa seria a opção que mais se adequaria ao posicionamento atual dos neurocientistas. Em recente entrevista, o neurocientista argentino naturalizado brasileiro, Ivan Izquierdo, disse que não é possível apagar as memórias. Hoje em dia a neurociência defende a tese acerca da neuroplastificidade das regiões cerebrais, ou seja, as regiões do cérebro são multifuncionais; quando uma região é paralisada por causa, por exemplo, de um derrame cerebral, as outras partes assumem a função antes exercida por ela. Por essa razão, as terapias que pretendem apagar a memória de pacientes vítimas de estresses pós-traumático não são viáveis. Para Izquierdo, é praticamente impossível a supressão de memória. Somente a falta de uso poderia levar ao esquecimento, pois neste caso as sinapses entre neurônios envolvidas numa memória se atrofiam e a memória vai desaparecendo.

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Max sabia que o encontro com seu velho comparsa ativaria as sinapses necessárias para que Zev se lembrasse de sua identidade real. Assim como Zev utiliza-se da carta de Max para saber seus passos futuros, o encontro com o último Kurlander faz como que seu passado esquecido venha à tona na sua memória. Kurlander número 4 lhe conta que eles haviam assumido a identidade falsa de judeus mortos para poder imigrar para o Canadá e os EUA. Conta que haviam tatuados os números em seus braços, e que ele havia escolhido justamente o nome Zev porque significava Lobo (‘Wolf’ em alemão). Zev, então, diz: “Eu me lembro (I remember)”. Max sabia afinal que o encontro teria esse efeito de reavivar memórias antigas e esquecidas.

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Mas aqui surge o segundo desafio à realização do projeto de vingança de Max. Em que medida o reconhecimento da sua identidade verdadeira não faria com que Zev desistisse do intento de matar Kurlander? Afinal foram amigos e cúmplices um dia. A única forma de continuarem vivos e em paz com suas famílias seria se os dois continuassem acobertando suas identidades. A questão central é a de que a identidade verdadeira deles não era uma identidade qualquer, mas justamente a identidade dos inimigos dos judeus, os responsáveis por um dos maiores genocídios da história contemporânea. Representavam uma contradição em carne e osso: judeus-nazistas; algo equivalente a negra-racista ou gay-homofóbico, pessoas que em seus posicionamentos e atitudes negam a si mesmas. O que os diferenciam, porém, do resto dessas pessoas contraditórias, é o fato de que ambos os falsos judeus haviam suprimido suas identidades. No fundo, a ideologia racista do nazismo não os contaminou de tal forma que lhes impedissem de, para sobreviver, assumir a identidade das suas próprias vítimas.

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Conseguiram, sob identidades falsas, construir famílias fora da Alemanha. Cercados de filhos e netos amorosos, chegaram a uma idade avançada envoltos em cuidados. O Kurlander número 1, interpretado por Bruno Ganz, ainda defende de maneira moderada o regime nazista. Parece solitário, em seu bunker no sótão da casa. O Kurlander número 3 já havia morrido, mas seu filho John Kurlander vive solitário em sua casa localizada ao lado de uma pedreira, de onde chegam os constantes barulhos de explosões. Sua esposa o abandonou, e depois que o pai morreu não tem mais com quem conversar sobre a grandeza do regime nazista. Guarda os objetos pessoais do pai, como a bandeira com a suástica, um uniforme de oficial da SS, e uma edição do Mein Kampf. Fica transtornado de ódio ao descobrir os números tatuados no braço de Zev.

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O que o filme parece nos dizer é que os outros fugitivos que não trocaram a sua identidade pela de um judeu viveram uma vida decadente e cheia de ódio. Por outro lado, os ex-nazistas que assumiram uma identidade judia, que passaram a viver, digamos, na pele de suas vítimas, tornaram-se pessoas melhores. Isso é bem ilustrado no encontro de Zev com o Kurlander número 2. Zev chora de compaixão quando se dá conta de que quase havia matado o homem errado. Rudy Kurlander número 2 havia estado em Auschwitz, ao contrário do número 1 e do número 3. Mas um pouco antes que atire, o número 2 lhe diz que tinha estado em Auschwitz como prisioneiro, não como carcereiro. Havia sido preso pelo regime nazista por ser homossexual.

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Max sabia que isso era o que diferenciava Otto Walish dos outros nazistas e que por isso, ao se lembrar do passado, ele, depois de matar seu antigo parceiro, se mataria. Zev no fundo não mata a si mesmo, mata Otto Walish, o nazista que ele havia sido um dia. O nazista só vai aceitar o julgamento de que seus atos foram imorais e criminosos se for capaz de se colocar na pele do outro, do judeu. Essa é a vingança perfeita. Max sabia que Zev não suportaria a ideia de ele ser quem ele de fato era. A doença o havia protegido das lembranças amargas. Reconhecer-se nazista depois de ter assumido a identidade, a consciência, a memória, de um judeu, era intolerável. Zev era naquele momento a identidade mais forte que a de Walish. Mais do que um filme sobre velhice e perda da memória, o filme trata da questão da identidade moral.

 

Susana de Castro é Professora Associada do Departamento de Filosofia / UFRJ

Coordenadora do Laboratório Antígona de Filosofia e Gênero / UFRJ

Autora de “Mulheres nas Tragédias: poderosas?” (SP: Manole,2011), Filosofia e Gênero (Rio: 7Letras, 2014)

Co-autora do livro “Filosofia da Arte” (Rio: Arte e Pensamento, 2016 (no prelo)


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