Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil

A Fita Negra

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12 de julho de 2016

Em 2009, o diretor alemão Michael Haneke surpreendeu o mundo com uma de suas obras-primas, “A Fita Branca”, desvelando que, antes do regime nazista ascender na Alemanha, já havia uma cultura de exacerbação nacionalista perversa em detrimento do próximo, engendrada em preconceito desde uma infância pretensamente ariana. O que dizer, então, se fosse traçada uma analogia nazista na constituição social brasileira, um dos países mais miscigenados do mundo, que escravizou crianças órfãs e negras mesmo após a alforria?

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Ganhador recentemente de melhor documentário no Festival Cine Ceará 2016, “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil” de Belisario Franca consegue não apenas confirmar a excelência dos documentários brasileiros contemporâneos, como exceder as expectativas narrativas com este mote ousado e urgente para os dias atuais. Através das memórias de um senhor de idade negro que foi retirado há oitenta anos atrás de um orfanato, junto com inúmeras outras crianças, para trabalho escravo na fazenda de uma família abastada de renome, vemos um mapa histórico do racismo e do triste flerte com o nazi-fascismo no Brasil.

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Logo em sua primeira sequência de abertura, Belisario revela todo o poder de fogo imagético que pretende dispor, literalmente de cair o queixo. Com sucessivas cenas P&B em câmera lenta, acompanhamos algumas das simbologias que percorrerão o filme, enquanto uma voz em off narra como aquela comunidade insuspeita descobriu seus segredos sórdidos. Belos cavalos bem tratados, uma fazenda no campo, crianças na escola… Tudo começou por boatos a partir de tijolos com desenhos da suástica. Ninguém podia comentar. A palavra era silenciada. Mas pessoas que outrora foram escravizadas ali conviviam normalmente em sociedade, em trauma. Foi assim que o historiador/narrador, Sidney Aguilar, investigou a vida do chamado “Menino 23”, que dá título ao filme, pois todas as crianças retiradas de um orfanato para trabalho forçado por uma tradicional família brasileira possuíam números.

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A projeção se adensa quando expande o assunto para a cegueira social que consentiu com tudo isso. Desde o cinema, vide visões preconceituosas onde os personagens de Grande Othelo eram encaixados. Outra é a questão política, pois de fato o governo de Getúlio Vargas fez quase um leilão de quem dava mais pelo Brasil. Acabou que a Alemanha perdeu para os EUA, quebrando o modelo econômico que permitia se vender gado marcado com a suástica, por exemplo. Tudo isto pode parecer muito ambicioso para o documentário, mas Belisario alcança um equilíbrio visual de alto conteúdo, bem distribuído entre reconstituição de época belissimamente realizada em preto e branco, depoimentos dos órfãos hoje idosos, entrevistas com especialistas, e imagens de arquivo exclusivas obtidas graças à produção conjunta do acervo Globo News, Canal Brasil e da própria Globo Filmes.

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Mais do que uma denúncia imperdível, um retrato do racismo silenciado das raízes fundadoras da terra, que não se preocupou com leis de inclusão social após a alforria, e relegou os ex-escravos a não serem incorporados pela sociedade em feridas que permanecem até hoje na pele dos brasileiros. Afinal, somos todos índios. Somos todos negros. Está no nosso DNA.

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