Mercedes

Resgate das raízes afro-brasileiras através da primeira bailarina negra no Teatro Municipal

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27 de maio de 2016

Durante muito tempo alguns empregos ou funções sociais ficaram restritas a uma categoria ou gênero, e sempre existiu forte influência histórica para se manter assim, pelo velho modelo patriarcal caucasiano de elite. Era comum ver trabalhos apenas ocupados por homens e proibidos às mulheres, como motorista, engenheira ou até… presidenta. Se os fatores ‘raça’ e ‘classe social’ são acrescentados à segregação, então, a perspectiva só piora. Qualquer coisa diferente disso seria considerada uma situação nova e ameaçadora ao status quo, e o novo muitas vezes precisa ser defendido e propagado para ser aceito e quebrar estigmas.

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Quem diria que uma das categorias mais discriminadoras até hoje seria a figura de bailarina do Teatro Municipal, cargo ocupado em geral por mulheres brancas, quase nunca negras, até hoje. Eis que uma peça recente tenta resgatar nos palcos a justiça outrora perdida, dando voz e compasso à primeira bailarina negra da história a ingressar no Teatro Municipal, além de precursora da dança afro-brasileira, Mercedes Baptista, mesmo que jamais tenha conseguido exercer a sua função, permanecendo no ‘banco de reservas’ por interesses alheios à sua vontade. E é aí que a peça ganha seu lado mais transformador.

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Num espetáculo homônimo, ostentando orgulhoso o nome de sua bailarina biografada, “Mercedes”, todo o formato, desde o campo externo da produção ao interno do texto executado, são marcos para o teatro brasileiro e carioca. Em primeiro lugar por ser montado por uma equipe inteiramente negra, estudiosa do Teatro Experimental Negro, o Grupo chamado “EmÚ”, sendo este ainda seu primeiríssimo e exitoso trabalho. Em segundo lugar, porque o grupo e elenco da peça é representado e capitaneado por uma maioria feminina, inclusive tendo o brilho de Sol Miranda herculeamente reunido as funções de produtora, co-fundadora do Grupo, idealizadora do argumento original e co-roteirista desta montagem (junto com Cássio Duque), além de co-protagonista no papel da Mercedes jovem. A colaboração é imprescindível para todo o trabalho independente, como este, sem grandes parcerias ou patrocínios.

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O conteúdo também inova, com vigor cênico surpreendentemente maduro para ser o debut do Grupo, parecendo terem anos de carreira e sinergia de palco. A forma de contar uma história conceitualmente feminista dispensa facilidades do gênero romântico, como precisar sustentar a protagonista sob vãs histórias de amor… O amor aqui é à dança. A narrativa inventiva lembra a transgressão imortalizada pelo filme “Morangos Silvestres” do mestre Ingmar Bergman, só que invertida. Coloca uma espécie de ‘fantasma’ atemporal e onipresente do futuro a tentar mudar o passado e a consciência negra de sua versão mais jovem e imatura, nas batalhas que ela nunca antes teve voz para lutar, frente as injustiças sociais da época. O que traz um desafio totalmente fora do padrão linear para os anais das biografias. Sem falar que a química entre a atriz que interpreta Mercedes mais velha, Iléa Ferraz, e a mais jovem na pele de Sol Miranda, só faz engrandecer a performance já seguramente avassaladora da primeira em provocar e evoluir a presença de palco da segunda, que, quando dança, ganha um fervor imbatível no olhar de quem alcança cada espectador com seus mínimos passos e gestos. Para tanto, a orquestra mistura música erudita de cordas com batuques tribais, dança clássica com mestiça e étnica, ou até o sacro com a macumba, tudo para entrelaçar as origens da fundação do Brasil com suas inegáveis raízes negras ora reivindicadas. As letras inseridas nas composições com novos arranjos também são pungentes, escritas por Kadú Monteiro e Sérgio Pererê.

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Mas nada disso fecharia um círculo triunfante caso as cenas de dança não funcionassem, e nisto o elenco de suporte tem cada qual o seu momento para brilhar, com destaque para Ariane Hime no difícil papel para uma atriz negra de fazer uma professora branca que se apropria da cultura negra e perpetua o preconceito; Raphael Rodrigues, com tamanha versatilidade sob vários papéis que vão do alívio cômico à deferência mística aos Orixás; e Núbia Pimentel com sua voz possante até sob o manto de Iemanjá e maturidade expressiva para dar conta de funcionar como mãe das duas versões de Mercedes, a mais nova e a mais velha. Grandes cenas se dão devido à catarse de elenco, seja vocal ou coreografada, aproveitando ao máximo a disposição do Teatro Arena do SESC Copacabana e o preparo do coreógrafo Fábio Batista e dos figurinos reluzentes de Lucas Pereira.

Para ver, rever e sentir como fruto não apenas de um estudo aprofundado e merecido, mas como uma revalorização obrigatória para mudar injustiças perpetuadas até na contemporaneidade, visto que hoje mesmo não há bailarinas negras correntemente no corpo do Municipal. Que o espírito de Mercedes regresse em nós para mudar isso e leve a eu-lírico do Grupo Emú para novos patamares.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5